Penguin-Companhia

Concurso: O grande Gatsby

No dia 7 de junho chega aos cinemas brasileiros a nova adaptação de O grande Gatsby, com direção de Baz Luhrmann. O filme tem Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Carey Mulligan nos papeis principais, e promete ser bem diferente das adaptações anteriores.

Para aqueles que gostam de ler o livro antes de ver o filme, a Penguin-Companhia está vendendo com desconto sua edição do clássico, que tem tradução de Vanessa Barbara e introdução de Tony Tanner: o livro físico está disponível em diversas lojas por R$19,50, e o e-book está à venda por R$7,90.

Para combinar com essa versão moderna do livro, nós aqui do blog propomos o seguinte: resuma O grande Gatsby em 140 caracteres. O autor da melhor resposta ganhará 5 (cinco) clássicos da Penguin-Companhia, à sua escolha.

Para participar, basta deixar seu resumo na caixa de comentários deste post até a meia-noite do dia 26 de maio. Os editores da Companhia avaliarão as respostas, e o vencedor será divulgado aqui no blog dia 29 de maio. Só aceitaremos uma participação por pessoa, e para evitar cópias, todos os comentários serão ocultados até o fim do prazo.

Veja os trailers abaixo para se inspirar, e boa sorte!

O impassível Sr. Darcy

O protagonista esnobe e rabugento de Orgulho e preconceito está fazendo duzentos anos — e nunca esteve tão bem. Qual o seu segredo? A jornalista e romancista Allison Person ensaia uma resposta. Veja ao final do post como concorrer a 2 exemplares deste clássico.

Numa noite invernal de 1995, jantei com o sr. Darcy num acolhedor restaurante italiano em Covent Garden. Mal toquei na comida, tão absorta em devorar o homem a meu lado. Seu porte era elegante, os gestos, a um só tempo, contidos e envolventes, os olhos, duas lagoas profundas nas quais seria um prazer afundar. Do que me lembro, apaixonei-me por Darcy pela primeira vez há uns vinte anos, e agradeci aos céus por ainda conseguir lembrar o que ele apreciava em uma mulher. “Seja jovial e interessante”, recomendei a mim mesma. Jovial e interessante. Como Elizabeth Bennet.

No restaurante, as mulheres faziam intricados desvios para chegarem ao lavabo, a fim de poderem passar rente à nossa mesa e olhá-lo de frente. Ele admitiu seu desconforto por ser o objeto desse tipo de fascínio vulgar.

“Não se preocupe”, eu disse, citando (e torcendo para soar jovial e interessante) o início da devastadora carta de Darcy a Lizzy após ela ter recusado seu pedido de casamento. “É melhor ir se acostumando a todo esse assédio.”

A bem da verdade, minha companhia naquela noite não era de fato o sr. Darcy, e sim Colin Firth, ator que recentemente irrompera para a fama — ou, mais apropriadamente, emergira direto para ela ao sair de um lago em uma camiseta justa e molhada — ao interpretar Darcy na adaptação de Orgulho e preconceito dirigida por Andrew Davies para a BBC. Finda a filmagem, Firth se ausentou do país para um trabalho no exterior. Ao retornar, a Inglaterra já estava rendida à Darcymania. Ao pedir a ele que comentasse sobre o assédio, Firth assumiu a expressão levemente cordial de um simples mortal que sabe estar levando o crédito pela força de um personagem ficcional (a mesma expressão apresentada atualmente por Robert Pattinson, o astro dos filmes da série Crepúsculo). Sujeito modesto, Firth contou o que aconteceu ao dizer a sua velha tia, uma devota de Jane Austen, ter sido escolhido para o papel de Darcy. “Não seja tolo, Colin”, a tia respondeu, ferina. “O sr. Darcy é bonito e atraente de doer.”

Faz duzentos anos que “o mais orgulhoso e antipático homem do mundo” adentrou os salões de Hertfordshire e recusou a dança com a srta. Bennet por ela ser “razoável; mas não [...] bonita o bastante para me tentar”. A idade não tirou o vigor do sr. Darcy, nem a inflação reduziu o poder de suas 10 mil libras anuais — meio milhão em valores atualizados. Desde então, o romance de Darcy e Elizabeth estabeleceu o padrão para as histórias de amor com percalços: pavimentar o caminho para o encontro de duas mentes afins com um bocado de obstáculos, removendo-os a seguir um por um. Em Orgulho e preconceito, a posição social inferior de Lizzy (e alguns parentes desagradáveis) e a soberba de Darcy são o que os mantêm separados por alguns dos mais inebriantes capítulos da língua inglesa.

Fui apresentada a Fitzwilliam Darcy aos dezesseis anos. Não foi amor à primeira vista; e nem era pra ser. O gênio de Austen em Orgulho e preconceito consiste em ela nos apresentar Darcy do ponto de vista ultrajado de Elizabeth. Enquanto Lizzy vai confirmando sua convicção de que esse arrogante dono de uma vasta propriedade em Derbyshire não passa de um mau partido, um mortificado Darcy vai percebendo estar cada vez mais atraído por aquela jovem vivaz. “Mas, assim que admitiu claramente para si e seus amigos que ela não tinha um traço de beleza no rosto, começou a perceber que se tornava um rosto extraordinariamente inteligente, pela bela expressão de seus olhos escuros.”

Nenhum autor conseguira até então fazer o público sentir como a química da atração amorosa começa a se insinuar e crepitar, não importando a resistência oferecida por seus elementos. Darcy e Elizabeth não foram concebidos apenas para os anos 1800, mas para todo o sempre. Eis-los aqui, em 1954, apanhados pelo grande letrista Johnny Mercer: “When an irresistible force such as you/ Meets an old immovable object like me/ You can bet as sure as you live./ Something’s gotta give/ Something’s gotta give.” [Quando essa força irresístivel que é você/ Encontra este velho impassível que sou eu/ Pode apostar que enquanto você viver./ Alguém terá que ceder/ Alguém terá que ceder.]

Lizzy Bennet é a força irresistível que toda garota secretamente quer ser. Da perspectiva da meia idade, creio ser esta a mais perene de todas as fantasias femininas: achar um cara orgulhoso e durão e fazer com que ele ame a nós, e somente a nós. Afinal, quem é Christian, o bilionário distante de Cinquenta tons de cinza, senão um Darcy que tem um quarto vermelho da dor no lugar de um jardim guarnecido?

Pelo menos foi essa a minha reação adolescente ao sr. Darcy. Coisa séria para uma garota devoradora de livros angustiadamente cheia de si nos anos 1970. Antes de ler Orgulho e preconceito, minhas noções de romance vinham das fotonovelas da revista Jackie e de encontros promovidos por amigos do candidato a pretendente na lanchonete do bairro. “O Dave tá a fim de você. Tá a fim de uns amassos com ele, hein?”

O coração não palpitava à abordagem de Dave e seu bafo de salgadinhos. Todas as garotas são romancistas românticas, a imaginar febrilmente seus próprios futuros. Decepcionada com Dave e seu eu cheio de espinhas, comecei a elaborar intricadas fantasias de sedução dirigidas ao rosto de David Cassidy — bonito, rico, maravilhosamente inacessível. Implausíveis como fossem, esses roteiros transbordavam de desejo ardente. Assim, ao ler a obra-prima de Austen pela primeira vez, deparei-me ali com algo que já sabia, mas não conseguira ainda expressar tão bem.

Não creio ter sido uma coincidência que Jane Austen tivesse a mesma idade de Elizabeth Bennet, vinte anos, ao escrever a primeira versão de Orgulho e preconceito. Quando o romance foi revisado e publicado, em 1813, ela já contava 37 anos, uma velha solteirona. Austen tivera seus dias no mercado do casamento, aquele circo de carne jovem, ganhos e conexões. Dotes como os dela não possuíam valor de troca naquele tempo e lugar históricos. O proprietário de uma Pemberley real jamais se dignaria a notar uma mulher brilhantemente inteligente, de origem humilde, que fora obrigada a se mudar de sua terra natal em razão das brutais regras de herança masculina. Em sua ficção, Austen podia não só denunciar a situação, como também mostrar o caminho certo.

Sempre me dá vontade de chorar quando leio a parte em que Elizabeth diz a Darcy que sua ideia de uma mulher talentosa é de tal forma elevada: “Sim, abarca muita coisa. [...] Deve possuir tudo isso, e a tudo isso deve acrescentar algo mais substancial, o aperfeiçoamento de suas qualidades intelectuais por meio de muita leitura.”

Muita leitura? Oh, Jane, bendita seja. Obrigada, autora querida, por dar seu recado a todas as garotas loucas por livros, por gerações, à espera de multimilionários bonitões prontos a serem postos de joelhos por nosso conhecimento profundo da literatura do século XVIII.

Fantasia? Claro que sim. Ninguém mais do que a tia Jane, ao editar seu texto num quarto gélido, sabia que Fitzwilliam Darcy não viria em seu socorro. Dá até para ver o sorriso irônico da romancista no momento em que perguntam a Lizzy em que momento ela soube que estava apaixonada pelo sr. Darcy. “Creio que a data precisa foi a primeira vez em que vi a sua bela propriedade em Pemberley”, responde nossa jovial e esperta heroína. Garota de sorte.

Austen morreu quatro anos após a publicação de Orgulho e preconceito. Mas o amor de Darcy por Elizabeth é imortal. Por quê? Porque sua criadora escolheu acreditar que um homem podia amar uma mulher por aquilo que ela era, e, ao acreditar nisso, e escrever isso com talento transcendental, ela fez disso a realidade. Foi assim há duzentos anos e é assim que sempre será. Enquanto houver impassíveis objetos masculinos e irresistíveis forças femininas, pode apostar sua vida, alguém terá que ceder.

* * * * *

Allison Pearson é colunista do Daily Telegraph e autora de dois romances, Não sei como ela consegue e I think I love you. Texto publicado originalmente na revista Inteligent Life, edição de janeiro/fevereiro 2013. Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.

* * * * *

Concorra a 2 exemplares de Orgulho e preconceito na edição da Penguin-Companhia. Deixe um comentário até a meia-noite de hoje (28 de janeiro) respondendo a seguinte pergunta: por que o encanto pelo sr. Darcy continua até hoje, 200 anos após a publicação do livro? Escolheremos as 2 melhores respostas e anunciaremos os vencedores amanhã, neste mesmo post.

[Editado dia 29 de janeiro, às 17h10]

Obrigado a todos que participaram! As respostas escolhidas foram:

“Justamente por Darcy provar que é possível um homem gostar de uma mulher pelo que ela é, por provar que o orgulho não é tudo e que muitas vezes uma primeira impressão pode estar errada. Todos gostamos de imaginar um homem que seja mais do que aparenta, que nos ame pelo que somos, que queira descobrir o que somos de verdade. E Darcy ultrapassa os preconceitos de Lizzie Bennet para isso.” — Camila Loricchio

“Porque o Sr Darcy supera atitudes orgulhosas e preconceituosas com uma postura inteligente e verdadeira. Inteligência e sinceridade nunca saem de moda. Pelo contrário, são qualidades cada vez mais valorizadas, porque são cada vez mais raras. Para os mais otimistas, o Sr Darcy não perde o encanto, porque é inspirador. Já os mais pessimistas buscam no herói de Jane Austen um alento de algo que lhes parece existir apenas no mundo da ficção. Inspiração ou nostalgia, o fato é que o Sr Darcy resistiu a dois séculos de mudanças e, ao que tudo indica, resistirá a pelo menos mais dois.” — Gabi

Parabéns! Entraremos em contato por email.

Minha vida com Quixote

Por Ernani Ssó

Me lembro direitinho: entrei na livraria e vi uma edição de Dom Quixote, capa dura, de um vermelho fosco, papel escuro, letras microscópicas. Parecia mais uma edição resumida da Bíblia. Mas não me intimidei. Como não sabia uma palavra em espanhol, comprei também um manual e um dicionário de bolso. Uma ou duas semanas depois me achei pronto pra enfrentar Cervantes. Eu tinha dezessete anos, entenda-se.

Minha ilusão não durou o primeiro parágrafo. Sem entender quase nada, pensei que devia ler algumas coisas antes, além dos textos simples do manual. Achei numa banca uma revista argentina de humor. Me pareceu mais indecifrável que Cervantes: lunfardo, jogos de palavras, referências políticas. Estudei mais um pouco e comprei Rayuela, do Cortázar. Foi o desbunde: no fim, entendia espanhol e tinha descoberto o livro que virou minha cabeça. Foram dias e dias de febre, sublinhando longos trechos, anotando nas margens. Hoje me lembro da leitura, mas não me lembro do hotel, um hotel bastante lúgubre, em que eu morava naqueles dias, no centro de Porto Alegre.

Nos anos seguintes, tentei ler o Quixote várias vezes, mas o primeiro parágrafo seguia intransponível. Melhor me dedicar ao Cortázar, ao Borges e demais latinos, que eu lia e relia até quase decorar. Então a Civilização Brasileira publicou Dom Quixote na tradução dos viscondes de Castilho e Azevedo. No Pasquim, Ivan Lessa escreveu: “Se você vai ler só mais um romance, leia esse”. Fui correndo comprar. Mas o português dos viscondes me pareceu mais complicado que o espanhol de Cervantes em muitos momentos. Por exemplo, no fatídico primeiro parágrafo se lia, no original, “duelos y quebrantos”. Na tradução, “outros sobejos ainda somenos”. Era mistério demais pra uma simples fritada de ovos com torresmo, ou miolos. Mesmo assim, aguentei quase até o fim do primeiro livro.

Eu tinha ouvido que o Quixote era um clássico e, além disso, engraçado. Mesmo naqueles dias eu suspeitava dos críticos e suas opiniões taxativas. Mas, nesse caso, eu queria acreditar, me entende? Daí minha relutância em aceitar a chatice que tinha entre as mãos. Botei a culpa (com toda razão, acho) nos viscondes e comecei a fantasia de um dia ler o Quixote, deitado numa rede na varanda, num português que não necessitasse consultar o Rui Barbosa em sessões da brincadeira do copo a cada linha. Mesmo quando li outras traduções em que o português não se deleitava tanto com arcaísmos ou não caía num portunhol triste e obscuro em nome da fidelidade, eu não conseguia relaxar e cotejava longos trechos com o original. É provável que eu achasse tudo mais insípido e arrastado do que era realmente. Pior, quando me metia a ler o original, mesmo compreendendo, em vez de deixar rolar, me entretinha tentando achar soluções para o humor em português. Sim, deformação profissional é fogo, mas nesse tempo eu ainda não tinha traduzido nenhum livro, sem falar que mesmo hoje isso não me acontece com outros autores, fora em um ou outro momento.

Uns trinta anos depois da manhã em que comprei o famoso manual de Idel Becker, com algumas dezenas de livros traduzidos na bagagem, com duas edições comentadas do Quixote, com todos os dicionários online disponíveis e armado mais de paciência que de coragem, resolvi partir pro pau com o velho fidalgo da Mancha. Comecei a me sentir à vontade lá pela página duzentos. À vontade? Digamos que sim, mesmo que às vezes levasse semanas pra solucionar alguma frase, ou pra achar alguma expressão idiomática correspondente.

Era hora então de procurar uma editora. Aconteceu o seguinte: quem tinha interesse não tinha dinheiro, quem tinha dinheiro não tinha interesse. Mas continuei insistindo. Uns dez ou doze anos depois, pronto pro desânimo, pensei na Penguin-Companhia das Letras. Liguei para a Júlia M. Schwarz. Ela me disse que era bem possível que a editora topasse. Como num mau filme, nesse exato momento Matinas Suzuki Jr. entrou na sala e quando a Júlia falou pra ele, ele disse sim, claro. Mandei em seguida os dois primeiros capítulos para que se pudesse avaliar meu trabalho. Mais uma vez o Matinas foi rápido e entusiasmado.

Levei uns dois anos — dois anos em que não fiz mais nada. Sim, levei uma esfrega. No fim, eu já sonhava com o texto: relia longos trechos, entendendo cada palavra, mas sem que elas se ligassem fazendo algum sentido. Tenho a impressão de que, se tivesse de fazer tudo de novo, sairia correndo, aos gritos. Mas é só impressão. Eu faria de novo. Não apenas saí uma pessoa melhor da empreitada. Vou poder ler o Quixote numa rede, neste verão ainda.

[A caixa com os dois volumes de Dom Quixote chega às livrarias dia 7 de dezembro, com o preço sugerido de R$79.]

* * * * *

Ernani Ssó é tradutor e escritor. Entre os livros que publicou estão O emblema da sombra e O edifício: viagem ao último andar.

Bate-papo: Jane Austen e tradução

Assista ao bate-papo sobre Jane Austen e tradução, com a editora Vanessa Ferrari e o tradutor Alexandre Barbosa de Souza.

Traduzir o “Ulysses”

Por Caetano W. Galindo


Capa: Raul Loureiro e Claudia Warrak. Ilustração: Chico França.

Traduzir literatura por contrato é uma coisa.

Você nem sempre traduz o que gostaria de ler. Você nem sempre tem o prazo que desejaria ter. Vida, vida.

Mas traduzir é uma experiência tão necessariamente suja (mãos-na-massamente falando), tão enfronhadinha, tão, digamos, íntima, que acaba que esses senões terminam por se dissolver um pouco. E você tem sempre uma relação mais pessoal, direta, com os livros que traduziu. Você, afinal, teve de escrever todos eles. Linha a linha.

Traduzir por escolha é coisa bem outra no entanto.

Quando eu decidi que minha tese de doutorado incluiria uma tradução do Ulysses, quando decidi que dos quatro anos que eu teria para escrever a tese eu usaria dois, inteiros, para essa tarefa, foi unicamente escolha minha, desejo meu. Projeto.

E aí foram dois anos, diários, de leitura, escrita e releitura. (Uma noção simples da intensidade do trabalho de tradução vem do fato de que, na batata, traduzir é ler ao menos três vezes ao mesmo tempo: correr o olho pela frase original, redigir a sua e lê-la com as outras).

O livro foi traduzido quase inteiro na ordem. (Um trecho eu fiz antes, para dar de presente para aquela que viria a ser minha mulher, no dia dos professores.) E o Ulysses é um livro inquieto. Se mexe sem parar. Muda o tempo todo. E traduzir esse livro tinha de ser assim também.

Insisto sempre com os meus alunos que o próprio Ulysses te ensina a ler o Ulysses, gradativamente. Eu tive de ir aprendendo a escrever o Ulysses, passo a passo, cada vez encontrando dificuldades maiores, mais numerosas, como sabe qualquer leitor. Mas cada vez me divertindo mais.

Quando você acha a linguagem, o registro, aparecem os trocadilhos, as piadas, as referências cifradas (São Gifford, o Anotador, que me valha!); quando deu conta disso, são as canções; mais os poemas; e aí vêm as paródias, pastiches; e depois um longo episódio que narra o desenvolvimento da literatura inglesa (e toca a gente — ela já era minha mulher — sentar e montar uma lista de modelos de textos portugueses e brasileiros, do século XIII ao XIX, cobrindo tudo quanto é gênero: crônica, carta, teatro, prosa, poesia, mais ou menos como os que Joyce usou quando escreveu; e toca ler cada um desses modelos, fazer listas de expressões, palavras, construções saborosinhas e típicas e aí, e só aí, traduzir o fragmento correspondente do episódio).

E quando tudo isso passou, você tem que lidar com a oralidade desmedida e precisa de dona Molly naquele solilóquio.

E quando você acha que acabou, no Bloomsday centenário, 2004, um século exato depois das andanças do Senhor Bloom por Dublin, vêm já seis anos de espera, banho-maria, retoquinhos.

Outros trabalhos. Aulas. Outras traduções.

Eu hoje venho conseguindo juntar as coisas: traduzir por contrato textos de escolha. Melhor ainda, agora contrataram o meu Ulysses.

E toca revisar tudo para você, quem sabe, querer ler daqui a pouco.

Escolha minha.

Terão sido dez anos de convívio com o livro.

Escolha minha, circunstâncias.

Por mim, valeu.

Tomara que você não ache que foi à toa.

[A edição de Ulysses da Penguin-Companhia já está nas livrarias. No vídeo abaixo, o editor André Conti fala um pouco sobre o clássico de James Joyce:]

* * * * *

Caetano Waldrigues Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já publicou traduções do romeno e do inglês.