Por Pedro Jabur
Roberto Bolaño não é um só. Seus livros também não. Suas 2666 histórias se desdobram dentro de outras histórias, e estas, dentro de outras. Sempre inacabadas. Como num jogo de amarelinha ― mais selvagem e infindável do que aquele inventado por Cortázar ―, nós, leitores, como se estivéssemos escondidos no banheiro da Faculdade de Filosofia e Letras, passamos os dias lendo-as, famintos e apavorados, submetidos a uma agonia sem fim de personagens, que aparecem e desaparecem.
E quando se está quase adormecendo, Arturo Belano, o autor dessa longa história de um livro só, nos desperta com um programa de TV, onde uma mulher obesa é humilhada pelo seu marido e sua amante. Como detetives (selvagens), seguimos o aparelho ligado, que não nos levará a nenhum tipo de solução definitiva. É, na verdade, uma prova de resistência de histórias.
Em Bolaño, não há descanso. Somos convocados a todo instante. Infra-histórias: antes de Oscar Fate encontrar Rosa Amalfitano na platéia da luta de boxe, alguém some com o protetor bucal do pugilista em nocaute. Alguém liga para isso? Quem mais estava lá? Existe um culpado? Ulisses? Nuria? Lalo Cura? Carlos Wieder? Há uma série infindável de possibilidades, pois acompanhamos parte, sempre uma parte, momentânea e por isso inacabada, de suas histórias e culpas. Não são encontros, somente esbarrões.
Seguimos pistas, sempre provisórias. Existe um lixão em Santa Tereza chamado El Chile. Não estariam lá todos esses personagens perdidos e todos esses livros misteriosos que ninguém conhece? Lemos, lemos sem parar Roberto Bolaño para tentar chegar nesse lugar, aonde não se chega. Como uma usina de histórias, espécie de repositório inconsciente e visceral do escritor, El Chile, porém, não cessa nunca de inventá-las e nos convidar para segui-las.
Por isso, exaustos, quando se termina 2666, o melhor é colocá-lo também em prova, dependurado num varal de roupas.
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Pedro Jabur foi o primeiro colocado do Concurso Bolañomania, e por isso sua resenha está publicada aqui no blog. Parabéns, Pedro!