Sala do editor

Vanguardas em voga

Por Flávio Moura

Já fazia alguns meses que os originais de Jorge Schwartz estavam na editora. A previsão era publicar o livro no fim de 2012. Recém-chegado por aqui, assumi a tarefa como um batismo no trabalho novo. Cheias de notas de rodapé e imagens, reuniões de ensaios desse tipo fazem a edição de ficção parecer uma barbada.

Já tinha trabalhado com ele na edição de Crisálidas, lançado no início do ano passado pelo Instituto Moreira Salles e publicado por iniciativa de Samuel Titan Jr. O livro reúne fotos de travestis e transformistas feitas por sua mãe, Madalena Schwartz, nos anos 1970 em São Paulo. Madalena era uma fotógrafa espetacular: a própria Companhia das Letras já publicou uma coletânea de retratos de artistas e intelectuais feitos por ela (Personae, 1997).

Fato é que, por causa das Crisálidas, fiz algumas reuniões com o professor, que já sabia ser tão afável quanto detalhista. Não deu outra em Fervor das vanguardas. Jorge acompanhou cada etapa do trabalho com olho clínico. Trouxe os livros de onde seriam escaneadas as imagens — são dois cadernos, um PB, outro colorido, escoimados a duras penas diante de uma variedade imensa de opções. Sabia a quem contatar para licenciar cada uma delas. Reuniu-se diretamente com Raul Loureiro, artista gráfico do livro, para acompanhar a diagramação.

Mais adiante, Jorge apontou as fontes que indicavam como deveria ser o tratamento da imagem da capa: os rostos deveriam ser silhuetas, em alto contraste, como o próprio fotógrafo — o argentino Horacio Coppola —, havia deixado registrado. E não deixou barato nem o convite do lançamento, que trazia a mesma imagem (aliás, fica o lembrete: dia 04 de maio, sábado, às 11h, na loja da Companhia das Letras no Conjunto Nacional).

O livro reúne mais de 40 anos de trabalho: são textos sobre Lasar Segall, Mario de Andrade, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Jorge Luis Borges, Xul Solar, Joaquin Torres-Garcia, Oliverio Girondo, Horacio Coppola. As imagens referem-se ao trabalho desses artistas e ocupam lugar central: elas são a base da interpretação. Diretor do museu Lasar Segall, Jorge as trata com a naturalidade de quem visita velhos conhecidos.

Um dos pontos fortes do livro é justamente o rendimento que extrai do diálogo entre linguagem literária e visual. É instrutivo notar não apenas o intercâmbio mais intenso do que costumamos lembrar entre os modernistas brasileiros e seus confrades na América Latina, mas sobretudo a capacidade de demonstrar o ponto a partir de leituras internas aos textos e imagens que analisa.

O momento é bom para o debate sobre o tema.

Há poucos meses, a Companhia das Letras lançou Vanguardas em retrocesso, do sociólogo Sérgio Miceli. Os protagonistas são semelhantes: Mario, Oswald, Borges e Xul Solar também aparecem analisados em minúcia. O foco, no entanto, é diverso: Miceli atenta para as condições de produção do trabalho intelectual no Brasil e na Argentina no início do século XX e mostra as vanguardas modernistas como uma espécie de canto do cisne de uma aristocracia cujo poder político estava em declínio.

Miceli e Schwartz estão entre os conhecedores mais armados do modernismo brasileiro e latino-americano e o abordam por lados diferentes.

Somados, os trabalhos mostram como não dá pra restringir o fenômeno modernista a suas particularidades nacionais e trazem uma visada generosa e realista sobre nossos vizinhos: afinal, mais do que a França, Inglaterra ou Estados Unidos, é em relação a eles que faz sentido pensar as potencialidades — e limitações — da arte que se podia produzir por aqui.

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Flávio Moura, 34, é editor da Companhia das Letras. É doutor em Sociologia pela USP e foi diretor de programação da Flip (2008-2010).

O livro que mudou tudo

Por Camila Leme e Julia Bussius


Sheryl Sandberg com participantes da comunidade LeanIn.org

Quando recebemos o manuscrito confidencial do livro de Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, não dava para imaginar o efeito que ele teria sobre nós. O material chegou numa sexta-feira e tivemos o fim de semana para a leitura. Na segunda de manhã, concluímos em uníssono: era um livro incrível! Começamos a citar trechos e concordar com tudo que uma dizia para a outra. Fizemos uma reunião para mostrar ao resto da editora como aquela era uma aposta que deveríamos fazer. De início, nem todos partilharam do nosso entusiasmo, mas não tinha jeito: estávamos determinadas a brigar pela Sheryl. Mandamos à agente uma oferta que transmitia nossa enorme empolgação e os planos para divulgar o livro. Deu certo. Sheryl seria publicada pela Companhia das Letras!

Corremos contra o tempo depois disso. Nossa publicação deveria ser quase simultânea à edição americana e mobilizamos um time de profissionais que também se identificou com o livro e trabalhou pesado por ele. No meio-tempo, tivemos inúmeras idas e vindas para decidir o título (Lean in é uma expressão difícil de traduzir, e significa algo como “se atire”, “se debruce”), mas finalmente chegamos ao Faça acontecer.

Mas por que este livro é tão incrível? É incrível porque aponta os problemas e indica as possíveis soluções para uma questão extremamente importante: a posição das mulheres no mundo do trabalho. Ainda que, em teoria, as mulheres possuam os mesmos direitos que os homens, a prática é bem diferente. Em Faça acontecer, partindo de suas próprias experiências, Sheryl realiza um diagnóstico preciso das mulheres no mundo do trabalho e demonstra, com dados concretos (inclusive sobre o Brasil), que elas ainda ocupam uma posição secundária em relação aos homens. Isso se evidencia nas esferas mais altas das empresas, das universidades, dos governos, onde o número de mulheres é bastante inferior ao de homens no alto escalão, impossibilitando uma representatividade mais igualitária. Olhamos ao redor e vemos que os homens ainda ganham mais, são mais reconhecidos, mais apreciados e mais estimulados a crescer em suas profissões.

Sheryl vem despertando uma discussão que parece estar ganhando maior relevância: afinal, como funciona a questão de gênero no mundo do trabalho?

Enquanto aguardamos ansiosamente a chegada do livro por aqui, acompanhamos a grande polêmica na imprensa internacional desde que ela começou a divulgar seu projeto (que, além do livro, envolve a criação de uma comunidade online em que mulheres e homens debatem questões do trabalho). Sheryl vem sendo criticada por não falar a todas as mulheres, por tentar ensinar outras a ser como ela e porque, sendo tão bem-sucedida, estaria numa posição relativamente fácil. Ficamos pensando: um livro de Warren Buffett destinado ao público de negócios, que gostaria de tomar Buffett como exemplo, não se legitimaria justamente pelo sucesso que ele atingiu? Há um argumento de Sheryl que poderia explicar essa diferença no tratamento: mulheres bem-sucedidas costumam, em geral, ser malquistas. Nunca vemos um homem ser desmerecido por seu sucesso na carreira; ao contrário, todos querem ouvir o que ele tem a dizer. Uma mulher não é tratada com a mesma generosidade.

É por isso que apostamos neste livro. Porque essa questão precisa ser debatida. Precisamos entender por que as mulheres ainda são diminuídas e se sentem assim, por que têm menor valor que seus pares do sexo masculino, por que ainda recebem salários mais baixos e têm menos oportunidades de promoção, por que continuam responsáveis por quase tudo que diz respeito à casa e aos filhos.

Durante o processo de edição, vários colegas queridos leram o livro. Aqui estão as vozes que nos ajudaram a fazer acontecer:

“Simplesmente sensacional! Divisor de águas na vida — no trabalho e em casa.”— Lucila Lombardi, departamento editorial

“Pena que Faça acontecer não existia no começo da minha carreira.” — Elisa Braga, diretora de produção

“Esclarecedor e cumpre sua proposta: encorajar as mulheres!” — Cintia Oliveira, departamento comercial

“Sheryl comprova que diferença não tem nada a ver com desigualdade.” — Livia Deorsola, departamento editorial

Faça acontecer reforça a autoconfiança feminina, é possível sim ser mulher e ser bem-sucedida.” — Fabiana Roncoroni, departamento de produção

“Amei ler o livro da Sheryl Sandberg e descobrir que até mesmo ELA, COO do Facebook, enfrentou tantas dificuldades. Embora exista uma série de problemas que as mulheres encaram ao entrar no mercado de trabalho, Sandberg aborda os que, por preconceito, acabam sendo impostos por nós mesmas. Foi uma leitura muito animadora, que aponta mudanças de atitude que podem nos levar muito longe. Apesar dos muitos desafios à frente, esse foi definitivamente um dos livros mais encorajadores que já li.” — Quezia Cleto, departamento de direitos estrangeiros

Faça acontecer teve efeito imediato sobre as mulheres da Companhia das Letras. Foi a primeira vez que vi todas defenderem um livro em que acreditavam com tanta segurança. Sabiam de sua relevância, então fizeram acontecer.” — Ligia Azevedo, preparadora de texto de Faça acontecer

Faça acontecer é leitura indispensável para qualquer pessoa no mundo do trabalho, homens e mulheres. O livro os ajudará a serem profissionais mais justos, com objetivos claros e responsáveis por seus atos. Melhores pessoas, enfim.” — Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras

“Sheryl é uma guerreira: nos lembra que podemos ser mulheres, sim, e perfeitamente profissionais, que nada nos impede de ser femininas (pintar a boca de vermelho se quisermos), e ainda assim recusar com todas as forças o sexismo, ultrajante. Que temos todos de ser feministas, homens e mulheres, um feminismo alheio a todos os estigmas que essa palavra carrega — para acabar de vez com a desigualdade entre os gêneros, que infelizmente ainda é regra no nosso dia-a-dia e no nosso trabalho.” — Sofia Mariutti, departamento editorial

“O livro é muito inspirador. É incrível estar numa posição tão diferente da de Sheryl e ainda assim me identificar tão claramente com as situações que ela descreve. Fiquei realmente impressionada.” — Marina Pastore, departamento de negócios digitais

“Esse livro é para as mulheres que estão assumindo uma nova posição social no mundo. É também para os homens porque eles trabalham com mulheres, são casados com mulheres e terão filhas que terão de lidar com as questões expostas no livro. E, por último, para todos os leitores que têm interesse nessa nova sociedade que está se formando.” — Vanessa Ferrari, departamento editorial

“O texto de Faça acontecer é muito bem embasado em pesquisas. Um livro para ser lido por todas as pessoas que ocupam uma posição de comando à frente de uma empresa.” — Márcia Moura, revisora de Faça acontecer

Faça acontecer me surpreendeu positivamente. Logo que iniciei a leitura pensei ser uma típica autoajuda, mas conforme avançava percebi que se trata de uma obra com muitos dados científicos, que traz informações comprovadas, tornando-a muito mais rica. Impressionante também é a quantidade de dados relacionados ao Brasil. A autora busca, sim, ajudar a profissional, a mulher em geral, porém a obra tem uma preocupação social muito importante — e foi feita por uma das mulheres mais poderosas do mundo!” — Renata Lopes del Nero, revisora de Faça acontecer

Dentre duas coletâneas e uma novidade

Por Lilia Moritz Schwarcz e André Botelho

Quando organizamos o livro Agenda Brasileira: temas de uma sociedade em mudança, em 2011, não tínhamos noção da importância que o assunto teria para um público leigo e carente de obras desse tipo. Na verdade, a ideia dessa coletânea veio após uma primeira experiência de bastante sucesso. Fazemos parte de um conjunto de acadêmicos nacionais que a cada ano se reúne num encontro chamado ANPOCS — Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais —, integrando um grupo de trabalho denominado “Pensamento social”. Como diz Jorge Luis Borges, muitas vezes se inventa o nome antes, e depois se dá sentido a ele. O fato é que o grupo foi crescendo durante seus mais de trinta anos de existência, e aos poucos o tema virou uma área e seus componentes, especialistas. Hoje, nos vários centros universitários do país, discute-se a importância dos intérpretes nacionais, e a maneira como eles realizaram uma agenda para o Brasil, não sendo mais necessário defender a relevância do enfoque ou do recorte temático.

Mas seria um tanto simplista supor que apenas um grupo como esse poderia ser responsável por tarefa de tal tamanho: mostrar a importância dos intelectuais nacionais. Se nunca é fácil dizer o que veio antes — a fome ou a vontade de comer —, o importante é que a demanda por esse tipo de questão, que envolve o próprio exercício da cidadania, foi crescendo. Juntando, então, a longa experiência do grupo, fizemos a coletânea Um enigma chamado Brasil, em 2009, reunindo o conhecimento dos colegas acerca de vários intérpretes nacionais. A boa recepção do livro não se restringiu, porém, (e para nosso espanto) ao nosso grupo específico, muito menos aos acadêmicos em suas salas, mas ganhou a sociedade, despertando o interesse do público leigo (e levando até um Jabuti na categoria de Ciências Sociais).

Claro que a ignorância era nossa, que, de tanto estudarmos nossos livros, quiçá, descuramos da recepção. O importante é que a felicidade da primeira empreitada nos fez arriscar uma segunda — a coletânea de 49 artigos chamada Agenda Brasileira — e, agora, partir para uma coleção em que a cada livro abrimos e desenvolvemos um tema de maneira especial e separadamente.

A coleção “Agenda Brasileira” foi lançada no final do ano passado com a publicação dos seus quatro primeiros títulos: Índios no Brasil, de Manuela Carneiro da Cunha, Nem preto nem branco, muito pelo contrário, de Lilia Moritz Schwarcz, As figuras do sagrado, de Maria Lucia Montes, e Cidadania, um projeto em construção. Se esse último texto foi organizado tendo como base alguns verbetes do livro Agenda Brasileira e um texto novo também escrito por nós dois, os demais trazem artigos clássicos, de ampla aceitação na comunidade acadêmica, e devidamente desenvolvidos para essa nova publicação.

A relevância política do assunto para o Brasil contemporâneo constitui o critério de escolha dos temas dos livros já publicados e dos que estão por vir. Por outro lado, além de profundo conhecimento sobre os temas, os autores convidados para compor esta coleção prezam pela clareza e concisão da linguagem. Essas nos parecem ser qualidades fundamentais para que assuntos complexos possam ser tratados de modo coerente por professores e alunos, tanto de ensino médio como de universidades, e interessados em entender a nossa sociedade, sua história, impasses e possibilidades no presente. Esse é um desafio tão novo como premente para professores universitários, que andam cada vez mais preocupados com a difusão ampla do conhecimento. A difícil equação é como acomodar pesquisa de ponta com uma linguagem que não se limite aos muros da academia. Se durante muito tempo essa não pareceu ser uma preocupação dos investigadores, o momento é hoje diferente e pede para que não sejam mais vistas com preconceito publicações que visam um público amplo.

Além do mais, como a disciplina Sociologia passou a integrar recentemente o currículo obrigatório no ensino médio em todo o território nacional, parece ser hora de encarar a tarefa como mais uma das atividades dos profissionais do ensino superior. Quem sabe essa seja uma nova maneira de construir pontes, unir e tornar ainda mais interessantes os diálogos possíveis entre a universidade e o ensino médio e fundamental. Ao abordar temas como cidadania, religião, racismo e outros, a coleção “Agenda Brasileira” oferece um ponto de partida consistente e original para o conhecimento daqueles que, como nós, acreditam no fortalecimento do país através do debate e do exercício pleno da cidadania democrática.

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André Botelho é professor do Departamento de Sociologia da UFRJ e pesquisador do CNPQ e da FAPERJ. Escreveu, entre outros, Aprendizado do Brasil (Editora da Unicamp, 2002) e O Brasil e os dias: Estado-nação, modernismo e rotina intelectual (Edusc, 2005).

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.

Síndrome de Cerebus (Uma carta para Tony Bellotto)

Por André Conti

 

Tony,

Viu só que ficamos sem Papa? Você acorda um dia e o papa foi lá e renunciou, nada mais é sagrado mesmo. Fiquei pensando no que o sujeito pode fazer depois de se aposentar do sumo pontifício. Algum esporte? Uma banda cover dos Beach Boys? É engraçado porque de alguma forma o Bento foi o nosso papa. O Paulo II sempre esteve lá, ou pelo menos era o que parecia, enquanto o Bento a gente viu ser eleito e tudo. Eu nem sabia que eles podiam renunciar, mas enfim, não habemus papa.

Não sou católico nem nada, e meu papa favorito ainda é o Cerebus, personagem da saga em quadrinhos do Dave Sim. Se você não conhece, te recomendo sem reservas, pelo menos esse capítulo, que se chama Church and State. É sobre um porco-da-terra antropomorfo que precisa de uma permissão do presidente para se divorciar, e ele acaba sendo usado nas maquinações do Poder até se tornar líder da Igreja. É, curiosamente, uma história sobre renúncia, e a melhor coisa que o Dave Sim fez nos quase trinta anos de Cerebus. Quando terminou a saga, em 2004, o autor tinha passado por uma conversão religiosa extrema e se isolado de seus pares. Na última vez que vi, ele estava num fórum de internet fazendo um estudo verso a verso do Apocalipse. Mas enfim.

Imagino que seja esquisito trocar assim de editor, ainda mais durante a publicação de um livro. Quer dizer, não durante, porque a Marta já tinha trabalhado com você no Machu Picchu e eu só cheguei nos finalmentes. Também não estou fazendo nenhuma comparação absurda entre troca de editores e sucessão papal, veja bem. Mas achei coincidência ler a notícia sobre o velho Bento quando trabalhava aqui na orelha do teu livro. Porque a primeira coisa que me veio à mente enquanto escrevia foi bem essa história em que o porco-da-terra vira papa. Eu demorei um pouco para engatar no Cerebus. O volume um é uma paródia do Conan, cheia de ideias boas (ele usa a expressão “Pelas barbas de Clóvis”), mas meio cansativa. O segundo volume, High Society, já entra mais no tom geral da saga, só que também é todo paródico. No Church and State o livro dá uma virada. Personagens que eram bidimensionais — uma piscadela para a plateia ou uma piada em cima de algum desafeto do Dave Sim — vão se tornando progressivamente mais complexos e interessantes. De repente, todo mundo tem uma história a contar, e nenhum deles é o que você imaginava.

Com o tempo, isso se tornou um dos motes da série, em graus variados de acerto (assim como tudo em Cerebus, essa operação foi levada às últimas consequências, nem sempre com bons resultados). Os fãs cunharam a expressão “síndrome de Cerebus”, que hoje é usada para designar personagens ou histórias enganosamente simples que ganham uma nova estatura conforme a trama se desenrola. E acho que foi isso que você conseguiu no livro novo. Os protagonistas, que começam como uma paródia da classe média alta, ganham outra dimensão ao longo do romance. Assim, o que podia ser uma piada fácil com um alvo fácil passa a ter outro tipo de graça, mais interessante, a meu ver. Claro que o primeiro risco nesse caso é justo perder a graça, e até por isso não é algo simples de se conseguir. Gostei do Machu Picchu porque ele continua engraçado mesmo quando o jogo vira e o leitor percebe que você não está exatamente sacaneando aquelas pessoas, mas tirando humor de algo muito mais próximo a todos nós.

E, pensando na trama, acho que podemos nos beneficiar de uma ausência temporária de liderança no trono de São Pedro. Estão dizendo que o novo papa só sai na Páscoa, e até lá o livro estará seguramente nas ruas.

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André Conti é editor da Companhia das Letras.

Samurai total

Por Sofia Mariutti

Tarefa difícil é fazer a poesia de Paulo Leminski caber num livro só. Se Leminski era múltiplo — poeta, romancista, tradutor, biógrafo, compositor, professor, jornalista, publicitário e faixa preta de judô —, também múltipla é a sua obra poética. Cultura oriental, MPB, movimento operário polonês e cinema americano: eis algumas das influências do mestre curitibano, que criou de tudo um pouco, de poemas concretos e haikais a versos líricos e canções populares.
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Além de experimentar todas essas formas, Leminski fazia a poesia dialogar com outras artes. Em Quarenta clics em Curitiba (1976), hoje uma raridade, fotografias de Jack Pires figuravam ao lado dos versos, numa espécie de portfólio com folhas avulsas; em certa página de Distraídos venceremos (1987), lê-se a seguinte nota de rodapé: “Este poema já foi musicado duas vezes. Uma por Moraes Moreira, outra por Itamar Assumpção. Que tal você?”; em Winterverno (2001), eram os desenhos de João Virmond Suplicy Neto que conversavam com os poemas.

Se os versos de Leminski já foram desenhados, cantados e até pichados, como dar forma de livro a Toda poesia, sem abrir mão de sua pluralidade? Este foi um dos maiores desafios do projeto. Acabamos nos dedicando à nossa especialidade (e à dele): o texto. A partir de um longo diálogo com Alice Ruiz, poeta e companheira de Leminski por décadas, repensamos cada livro e cada verso — muitas vezes, era difícil distinguir quais quebras de verso eram intencionais e quais eram consequentes da largura dos livros da Brasiliense à época.

Para não perder o melhor dessas edições, reunimos no apêndice a introdução de Haroldo de Campos e a quarta capa de Caetano Veloso a Caprichos & relaxos, entre outros textos de apoio que integravam os livros originais, além de “Leminski, o samurai malandro”, ensaio memorável de Leyla Perrone-Moisés. Contamos com Alice também para a apresentação, em que ela relembra o encontro dos dois e a história de cada um dos livros que integram Toda poesia. Para escrever uma nota sobre o cancioneiro de Leminski, convidamos o crítico e compositor José Miguel Wisnik, que, além de compartilhar as origens desse “polaco loco”, é seu parceiro em algumas canções.

Mas se Toda poesia, que nesse momento já deve estar na gráfica, reúne a obra escrita e publicada de Leminski, temos a sorte de poder acessar uma extensa produção extratextual dele e sobre ele na internet. Vídeos, fotos, músicas. Embora não tenha vivido em tempos digitais, Leminski está em cada canto da rede: tem ao menos seis perfis no twitter e outros seis no facebook, aparece em vídeos no youtube e é homenageado em blogs de fãs e mais fãs. Abaixo alguns links que selecionamos para aquecer a chegada de Toda poesia (que estará nas livrarias no fim de fevereiro).

Evoé Leminski!

Especial Paulo Leminski – Programa “Meu Paraná”:
Parte I, com Ruy Castro:

Parte II, com Caetano, Moraes Moreira, Alice Ruiz:

“Dor elegante”, parceria de Leminski e Itamar Assumpção, por Itamar:

Documentário “Ervilha da fantasia”: Leminski fala sobre poesia, judô, psicanálise:

Leminski (voz e violão), acompanhado de Kito Pereira (bateria e percussão) canta três composições de sua autoria: “Mudança de Estação”, “Valeu” e “Verdura”. Curitiba, anos 1980:

Documentário “Polaco loco paca”, de João Knijnik, década de 1980: Leminski fala sobre o prazer da linguagem, sobre a função poética, e recita trechos de poemas. Com participação de Alice Ruiz:

Leminski faz uma defesa do graffiti como fenômeno poético, em 1985, na Reitoria da Universidade Federal do Paraná:

Poemas de Leminski pichados em São Paulo: http://pauloleminskipoemas.blogspot.com.br/2009/07/pichacoes-de-leminski-em-sao-paulo.html.

Lista de algumas das gravações das canções de Paulo Leminski: http://www.elsonfroes.com.br/kamiquase/musica.htm

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Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.