10 pensamentos sobre fazer mágica e literatura

Luisa Geisler

0.
Este post não vai ser sobre a importância de guilty pleasures nem nada assim. Mas preciso dar um pouco de contexto antes de chegar aonde quero. Pois bem: aguentem um tantinho.                                       

0.2
Por questões de tese e mestrado e tudo o mais, tenho ansiedade. Tenho muita ansiedade. E é difícil desligar minha mente e não estar remoendo decisões passadas e/ou futuras. E quando tenho muita — mas muita — ansiedade, poucas coisas cativam minha atenção por completo. Nem livros, nem programas de televisão, nem gatos do Instagram, minha mente acaba querendo repensar um artigo que entreguei meses antes, acaba querendo conferir mensagens no WhatsApp durante O Poderoso Chefão. Nem o melhor livro, o melhor filme, nada me impede de analisar minha vida em excesso.

Mas tem uma coisa que me absorve por completo.

E é um pouco tosca, eu sei que é.

Mas eu gosto muito de mágica.

Fim. Adeus. Não tenho uma defesa. Post terminado. Desculpe o incômodo.

Não sei se está na Netflix brasileira, mas aqui tenho acesso a um show que se chama Penn and Teller: Fool Us. É basicamente um programa britânico em que dois mágicos experientes, Penn Jilette e Raymond Teller, tentam desvendar como um truque de um mágico iniciante acontece. Não há truques de ângulo de câmera ou atores na plateia. Se Penn e Teller não souberem como aconteceu — se depois de quarenta e cinco anos de livros, apresentações e experiência em Las Vegas, se eles tiverem que dizer “eu não sei como isso foi feito” —, o mágico iniciante abre para o show deles em Las Vegas. Não entendo nada de mágica, mas aparentemente isso é um negócio importante.

0.3
É claro que, pelo código de ética dos mágicos, não se pode revelar como um truque é feito, ou muito menos expor um outro mágico dessa maneira. O que Penn e Teller fazem é indicar através de outras referências: por exemplo, “você fez o Houdini clássico, mas a troca de deque de cartas enquanto a plateia observava o tanque foi uma adição interessante”. E todos que estão envolvidos em mágica entendem o que está acontecendo. Mas a audiência, quem mais precisa ser enganado, não. E tudo segue bem.

1.
No contexto de pensar em pesquisa literária acadêmica e de tentar me distrair com mágica, algo surgiu. Nós temos alguns termos clássicos, não temos? O princípio da arma de Tchekhov, da navalha de Occam, técnicas como começar uma história in medias res, uma situação clichê a ser evitada como o Deus ex machina.

2.
Eu me peguei pensando em um reality show desses para literatura. Você envia um conto e o Pesquisador desconstrói. “A escolha de narrador machadiano com essa abordagem mais tecnológica, mas com os trechos em fluxo de consciência…” Podemos pensar aí em um crítico, um editor, um acadêmico da escrita criativa (esses três últimos substantivos não confirmo se existem nesse contexto, estou experimentando aqui).

3.
Algumas das apresentações me deixaram tristes por terem sido desvendadas. Não que eu tenha entendido o que houve. Mas porque eu gostei delas. Porque não era tanto o truque, mas o entretenimento. Um dos mágicos subiu ao palco vestido de dragão com um assistente que era um cachorro, e insistia que era um dragão mágico. É quase um comediante stand-up com truques no meio. Os truques com cartas, que deram errado de propósito e então foram “consertados”, foram desvendados, mas, inclusive, se quiserem procurar no YouTube, o nome dele é Piff, the Magic Dragon.

Eu queria que Piff fosse a Las Vegas.

4.
E talvez seja essa a mágica meio Arquivo X da literatura, não? O I want to believe. Eu quero acreditar. Quero não saber como esse truque funciona. Embasbacar.

5.
Hoje em dia qualquer um sabe como funciona a mulher serrada no meio. Mas e se você não soubesse? Você consegue lembrar do primeiro truque de mágica que viu e em quanto tempo ficou pensando em como diacho essa pessoa fez isso?

6.
Ao mesmo tempo, o truque não é tão importante. Se bem executado e com uma roupagem bem-feita, um cachorro e uma fantasia de dragão, todo mundo sabe como o truque de cartas aconteceu. Tantos livros brilhantes têm “truques” simples: uma narrativa linear, um narrador em terceira pessoa, onisciente.

7.
Não é o como, é o quê. E é isso pura mágica.

8.
Exceto pelo Deus ex machina e a mulher serrada ao meio.

9.
No final das contas, tanto mágica quanto literatura vão atrás disso. E quanto mais experiente o leitor (ou até escritor), mais difícil é surpreendê-lo. Mas mais encantado ele fica ao ver algo novo e formidável.

10.
E é assim, senhoras e senhores, que termino meu truque de analisar em excesso algo que estava fazendo por pura diversão. 

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

 

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