11 livros para conhecer São Paulo

Viaduto do Chá.

São Paulo comemora neste 25 de janeiro os 463 anos de sua fundação. Foi nesta data em 1554 que os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta fundaram o Colégio dos Jesuítas, que seria o centro de educação e formação dos indígenas, fundamental no processo de catequização dos índios. O local hoje é considerado o marco zero da maior metrópole brasileira e uma das maiores do mundo. A data marcou também a celebração pelo padre Manuel de Paiva da primeira missa no Planalto de Piratininga. 

E se, como diria Tom Jobim, o Brasil não é para principiantes, São Paulo também requer um olhar atento para captar a sua diversidade. Para ajudar nessa empreitada, selecionamos onze títulos em que a metrópole mais cosmopolita do país — que até o início do século passado pouco se destacava entre as demais cidades brasileiras — surge como protagonista e que ajudam a desvendar as suas muitas faces. Confira!

1 – A capital da solidão, de Roberto Pompeu de Toledo

De todos os paradoxos de São Paulo, um dos maiores é o que oferece o cotejo de seu presente com o seu passado. A metrópole vertiginosa e trepidante de hoje nasceu distante, fora do alcance dos navios portugueses, escondida pela serra do Mar – uma barreira que foi obstáculo, mas também desafio a vencer, definindo a personalidade de São Paulo. O jornalista Roberto Pompeu de Toledo mergulhou ao longo de quatro anos numa minuciosa pesquisa para reconstituir a história da primeira vila do interior do Brasil, até se tornar metrópole em 1900. Numa narrativa envolvente, o leitor é convidado a conhecer momentos cruciais da trajetória da cidade que, por mais de uma ocasião, esteve ameaçada de penosos retrocessos, senão de extinção, por motivo do abandono dos moradores, da precariedade de recursos e do que por vezes pareceu uma irremediável falta de futuro. Ilustrada com rico material iconográfico como mapas, fotos e gravuras, A capital da solidão é biografia exemplar de uma personagem que seduz e intriga desde suas origens: a cidade de São Paulo. Leia a transcrição na íntegra da entrevista do autor para o Roda Viva em 2004 e assista a um trecho do programa.

2 – A capital da vertigem, de Roberto Pompeu de Toledo

Após reconstituir em A capital da solidão a história de São Paulo das origens a 1900, Roberto Pompeu de Toledo narra em A capital da vertigem sua arrancada rumo à modernidade. É a capital da vertigem: vertigem artística, industrial, demográfica, social e urbanística. Neste painel que vai do início do século XX a 1954 — quando a cidade completa quatrocentos anos —, aparecem personagens como Oswald e Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Washington Luís, Prestes Maia, Francisco Matarazzo, e surgem episódios que vão da Semana de Arte Moderna de 1922 à epidemia de gripe espanhola, da Revolução de 1924 à chegada do futebol ao país. Veja a galeria de imagens do livro.

3 – O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho

No Japão da Segunda Guerra, um triângulo amoroso envolve Michiyo, Jokichi e Masukichi – uma moça de boa família, um filho de industrial e um ator de kyogen, o teatro cômico japonês. À primeira vista, isso é tudo que Setsuko, a dona do restaurante japonês, tem a contar ao narrador de O sol se põe em São Paulo, romance de Bernardo Carvalho lançado em 2007. Mas logo a trama se complica e se desdobra em outras mais, passadas e presentes, que desnorteiam o narrador involuntário, agora compelido a um verdadeiro trabalho de detetive para completar a história em que se viu enredado. Pois o relato de Setsuko aponta para além do desejo, da humilhação e do ressentimento amorosos, e se vincula aos momentos mais terríveis da história contemporânea – tanto do Japão como do Brasil. Romance sem fronteiras, que une a Osaka de outrora à São Paulo de hoje, e esta à Tóquio do século XXI, o livro entrelaça tempos e espaços que o leitor julgaria essencialmente separados – e nos quais a prosa de ficção brasileira não costuma se arriscar. Saiba mais neste texto de Contardo Calligaris na Folha de S. Paulo sobre o romance

4 – Saudades de São Paulo, de Claude Lévi-Strauss

Uma cidade em que o gado convivia com carros e bondes nas ruas; em que construções moderníssimas despontavam no topo de colinas ainda rústicas; em que lençóis caseiros, pendurados nos varais, formavam o primeiro plano para o imponente prédio Martinelli. Essa era a paisagem que Claude Lévi-Strauss, então um jovem professor e fotógrafo nas horas vagas, encontrou e registrou fascinado entre 1935 e 1937, quando veio trabalhar na Universidade de São Paulo. O mais célebre antropólogo da França fazia parte da “missão francesa”, que incluía também o historiador Fernand Braudel, o geógrafo Pierre Monbeig e o filósofo Jean Maug. Ciente de que uma cidade é "como um texto que, para compreender, é preciso saber ler e analisar", o antropólogo escreveu em meados da década de 90 um depoimento memorável em que revisita essas imagens a partir do diálogo estabelecido com o arquiteto e pesquisador Ricardo Mendes, que na época trabalhava na Divisão de Pesquisas do Centro Cultural São Paulo. Construindo para as novas gerações o mapa de uma belíssima viagem, no espaço e no tempo, esta edição reúne 53 fotos da capital de São Paulo e da Baixada Santista na década de 1930. Leia na íntegra a matéria publicada na Folha de S. Paulo.

5 – Retrato em branco e negro, de Lilia Moritz Schwarcz

Lançado em 1987, Retrato em branco e negro é um estudo minucioso de como o negro era visto pela elite branca da cidade de São Paulo entre 1870 e 1890, a partir da análise do imaginário paulistano nos jornais do fim do século XIX. A metamorfose da imagem do negro é seguida com olho arguto que deixa a nu os preconceitos da época e sua gênese. Em seu texto de introdução, Lilia Moritz Schwarcz destaca a importância da imprensa paulista de finais do século como fórum de debates centrais da época: “Através desses fragmentos de textos da imprensa, desses ‘pedaços de significação’ — que incluem desde as seções tidas como as ‘mais nobres’ dos jornais (como notícias e editoriais) até as de aparente valor secundário (como os obituários, ‘ocorrências policiais’ e anúncios) —, aqui se busca reconstituir as várias visões com que se falou sobre a condição negra”. Atualmente fora de catálogo, a obra ganhará em março deste ano uma nova edição. Leia aqui a introdução do livro.

6 – 1922: A semana que não terminoude Marcos Augusto Gonçalves

Numa narrativa fluente, elegante e crítica, que mescla linguagem jornalística e relato histórico, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves dá vida aos personagens e descreve as famosas jornadas que animaram o Teatro Municipal nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, durante o festival que ficou conhecido como Semana de Arte Moderna. Ao mesmo tempo em que reconstitui passo a passo o evento, o autor despe o episódio de mitos que o foram cercando ao longo do tempo: desde certas fantasias triunfalistas associadas a uma espécie de superioridade paulista na formação da cultura moderna brasileira, até as versões que, ao contrário, insistem em diminuir a importância histórica dos festivais encenados pelos rapazes modernistas e patrocinados pela elite econômica da emergente Pauliceia. Com base em ampla pesquisa, extensa bibliografia e entrevistas com especialistas, o livro – que também traz fotos e reproduções – é acessível ao leitor que se inicia no assunto, mas não deixará de despertar o interesse do meio acadêmico. Assita ao booktrailer do livro: 

7 – Pagu: vida e obra, de Augusto de Campos (organização)

Em 1982, quando Pagu: vida-obra foi lançado pela editora Brasiliense, quase nada se sabia sobre essa importante personagem do modernismo no Brasil. Além das fotografias que documentavam sua estonteante beleza e da aura de escândalo proporcionada pela participação na ruidosa “segunda dentição” do movimento antropofágico (amplificada por seu tumultuado relacionamento com Oswald de Andrade), pouca coisa restava de Pagu. Seus artigos na imprensa estavam dispersos em jornais extintos; seus livros, ainda inéditos ou já esgotados; a história de sua militância política, apagada. No entanto, o poeta e estudioso da história do modernismo Augusto de Campos surpreendeu os meios literários ao realizar nesta antologia sui generis o mais completo e ambicioso resgate da produção artística, literária e jornalística da autora de Parque industrial.  O retrato multifacetado da figura que emerge deste roteiro biobibliográfico permite incluí-la em pé de igualdade numa seleta galeria de mulheres do alto modernismo mundial. Veja imagens de Pagu no curta-metragem de Ivo Branco, de 1982: 

8 – Getúlio 2 (1930 – 1945)de Lira Neto

Amparado por uma minuciosa pesquisa em acervos nacionais e estrangeiros, que incluiu documentos públicos e pessoais, diários, jornais, correspondências, gravações e filmes do período, Lira Neto mostra como e por que Getúlio Vargas foi “a maior figura política do Brasil no século XX”, na expressão do historiador Boris Fausto. O volume dois da trilogia cobre o período de 1930 a 1945 e esmiúça um dos períodos mais críticos da história de São Paulo: a Revolução Constitucionalista de 1932. Logo depois da conquista do poder federal, em outubro de 1930, Getúlio se viu diante do complexo desafio de promover sua ambiciosa agenda de reformas ao mesmo tempo em que precisava neutralizar, como um jogador de xadrez paciente, os movimentos da oposição interna e externa ao regime. Assita aqui à matéria exibida na TV Cultura sobre a Revolução Constitucionalista de 1932: 

9 – Destinos mistos: Os críticos do Grupo Clima em São Paulo (1940-1968)de Heloisa Pontes

O grupo de intelectuais reunidos em torno da revista Clima acabou por ser reconhecido como herdeiro do modernismo. A professora Heloisa Pontes reconstrói a trajetória dos amigos – entre os quais estavam Antonio Candido, Decio de Almeida Prado, Gilda de Mello e Souza e Paulo Emílio Salles Gomes – e demonstra como as afinidades entre eles – origens, leituras, lazer e projeto intelectual – ajudaram a moldar uma contribuição inestimável para o campo intelectual no Brasil. Em uma resenha publicada pela Folha de S. Paulo em 1998, a historiadora Angela de Castro Gomes escreve que a publicação “era, como muitas revistas de sua época, uma iniciativa de um grupo de amigos, ligados por laços de afetividade pessoal e cumplicidade intelectual, voltada para o debate da cultura nacional: literatura, artes plásticas, teatro, cinema, com destaque”. Assista aqui à entrevista da autora para a TV Cultura: 

10 – As meninasde Lygia Fagundes Telles

Integrante da Academia Brasileira de Letras desde 1985, Lygia Fagundes Telles é um dos principais nomes da prosa contemporânea brasileira. O romance As meninas, lançado originalmente em 1973, recebeu elogios de Carlos Drummond de Andrade, que descreveu a obra como feita “de matéria viva e lancinante” e em 1974 foi o ganhador do Prêmio Jabuti na categoria ficção. Obra de grande coragem na época de seu lançamento por descrever uma sessão de tortura numa época em que o assunto era rigorosamente proibido, o romance acabou por se tornar, ao longo do tempo, um dos livros mais aplaudidos pela crítica e também um dos mais populares entre os leitores da autora. Sobre o livro, a própria autora disse certa vez ao jornal O Globo: "Quis dar meu depoimento sobre a ditadura militar. Cada uma das meninas era testemunha da situação a partir de um ponto de vista: a drogada, a guerrilheira e a burguesinha”. Para saber mais, leia aqui matéria do portal Educar para Crescer da editora Abril.    

11 – Monções e capítulos de expansão paulista, de Sérgio Buarque de Holanda

Monções, volume publicado originalmente em 1945, trata das expedições portuguesas ao interior da Colônia por rios do Sudeste e do Centro-Oeste. Aqui, com grande talento narrativo e habilidade ímpar de compreensão histórica, o autor reconstitui o processo de adaptação dos portugueses ao território americano de forma original, a partir de descrições palpáveis da áspera empreitada colonial. Em sua quarta edição, o livro é publicado ao lado de coletânea de organização inédita, Capítulos de expansão paulista – cujo título (inspirado em Capistrano de Abreu) dá continuidade à série dos escritos inacabados do historiador paulista, tais como Capítulos de literatura colonial e Capítulos de história do Império. Saiba mais sobre o livro na matéria publicada na Folha de S. Paulo sobre a reedição do livro

 

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