3 outras coisas para fazer quando não conseguir ir à Flip

Luisa Geisler

 

Eu não sou riquíssima. Nem rica normal. Nem riquinha, sendo bem sincera. Escritores em geral não são, aliás. Mas isso é assunto para outro post. O que quero dizer é que, apesar de amar eventos literários e escritores e livros, é difícil eu ter capital (dinheiro mesmo) para vê-los fora de Porto Alegre e região metropolitana. Ou seja, não fui à Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, este ano. Chegar a Paraty é caro (em especial se você já tem que pegar um avião para o Rio de Janeiro), comer e respirar em Paraty é caro, além de a estadia em si ser cara.

Eu já fui a umas duas Flips, em geral porque outras instituições tinham capital e me deram passagem e estadia. E gosto demais. E eu queria ir a Flip este ano. Assim como quero ir a Bienal de São Paulo (esta, em que vou, porque estou na programação). E a Bienal do Rio de Janeiro (ano que vem). E a Fliaraxá. Assim como queria ir no FLIPOP, o Festival de Literatura Pop. Às vezes, consigo ir à Jornada Nacional de Literatura em Passo Fundo. Assim como sou apaixonada pela Feira do Livro de Porto Alegre. Ter tempo, dinheiro, disponibilidade, capacidade física, para ir falar de literatura a Paraty/São Paulo/Rio de Janeiro/Porto Alegre é um senhor privilégio. Nem sempre dá.

Este é um pequeno guia, o guia que lhe permitirá (me permite, nos permitirá) não morrer de recalque. O que fazer já que não podemos pagar uma passagem para o Rio de Janeiro.

Não vou dizer a ninguém como organizar o próprio dinheiro se tem intenção de ir para a Flip, nem que seja ano que vem, nem que seja mil vezes parcelado. Se você quer ir a Flip e pode, vá. Eu recomendo demais, não só pela programação principal, mas por todas as atividades paralelas. Sabe aqueles tutoriais meio furados de “parei de comprar cafezinho e agora tenho dinheiro para fazer um mochilão na Europa toda”? Este post não é isso. Este post é um guia para não se afogar em todo o rancor de não estar lá. A vantagem é que ele funciona o ano todo, ao contrário da Flip, que dura só uma semana.

 

1. Acompanhar programações online

Como comentei, a Flip hoje não é apenas um evento que chama autores para falar na mesa principal. Ela é uma movimentação em Paraty. E diversas casas de Paraty fizeram programações paralelas, que aumentam o alcance e efervescência da literatura na cidade. A Conceição Evaristo, por exemplo, só falou em programação paralela e não na principal.

Houve diversas casas: a Casa da Liberdade, Casa do Instituto Moreira Salles, Casa de Cultura, a Casa Paratodxs, a Casa Libre, a Casa Insubmissa de Mulheres Negras, a Casa Fantástica, a casa das editoras. O Centro Cultural SESC Paraty, por exemplo, já está com parte da programação online. A própria Flip tem transmissão ao vivo e dos anos anteriores. Ou seja, não é por não poder pagar para ver que você não pode… ver.

 

2. Conhecer programações paralelas em sua cidade

Quais são os eventos culturais na sua cidade? Se sim, você olhou a programação com cuidado? Deu uma pesquisada nos autores? Tem alguma livraria? Se sim, eles organizam algo? Se não, por que não começar a pensar nisso? A Flip faz uma assessoria de imprensa e divulgação de altíssimo nível, mas existem eventos de igual qualidade por aí. Essas programações às vezes até merecem mais atenção do que a Flip.

Em Porto Alegre, por exemplo, você pode encontrar o Sarau Elétrico com autores incríveis. Autores que já estiveram na Flip, na mesa principal, em que você paga vários capitais (dinheiro mesmo) para poder assistir. Existem clubes de leitura por todo o país. A iniciativa Leia Mulheres é uma que abre espaço para falar de literatura feita por mulheres. E é isso que basicamente o que você quer fazer na Flip: falar sobre livros, encontrar seus pares (e tomar cachaça).

Meu primeiro livro foi publicado porque ganhei o Prêmio SESC de Literatura. E sei que isso vai parecer puxar o saco institucional, mas o SESC agita o Brasil inteiro. Por mais que haja Instituto Moreira Salles, museus ótimos nas capitais, o SESC está até em Canoas. Ele chama bons autores para fazer boas programações, bate-papos, oficinas, shows, com um ritmo até mais tranquilo do que a pressa em Paraty.

 

3. Ler os autores

A Flip agrega autores. Sugere conexões. Se você já lê Sérgio Sant'Anna, pode gostar de Gustavo Pacheco. Você já conhece o trabalho de Simon Sebag Montefiore? Vale a pena espiar. E a própria Hilda Hilst, autora homenageada, a quem uma homenagem está muito, mas muito, atrasada.

Claro que não precisamos endeusar autores da Flip este ano. Esse potencial de descarte de um ano para outro é outro problema de eventos grandes como esse. Por exemplo, Lima Barreto, Ana Cristina Cesar, Millôr Fernandes, Clarice Lispector já foram autores homenageados. Eles não são apenas autores que você deve ler e conhecer no ano da Flip. Assim como a Hilda. Isso vale para a programação como um todo. Eventos como a Flip causam a sensação de “você tem que ler” autor A ou B, num discurso que às vezes acaba em Paraty mesmo.

A Flip é uma boa oportunidade para quem gosta de livros falar de livros e conhecer autores. Independente de ser um autor internacional best-seller. Mas existem outras. A maior das oportunidades é sempre seguir lendo.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira(finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, De espaços abandonados foi publicado pela Alfaguara em 2018. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

 

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