50 anos de Stonewall: Yuval Noah Harari reflete sobre as ameaças aos direitos LGBT+

Foto: Olivier Middendorp

 

Texto de Yuval Noah Harari, autor de Sapiens, Homo Deus e 21 lições para o século 21, originalmente publicado no Guardian.

 

Em 1969, quando a polícia de Nova York invadiu o Stonewall Inn, enfrentando inesperada resistência dos manifestantes LGBT+, a homossexualidade ainda era considerada um crime em muitos países. Mesmo nas sociedades mais tolerantes, sair do armário era o equivalente a cometer suicídio social e profissional. Em contraste, hoje a Sérvia tem como primeira ministra uma lésbica assumida; o primeiro ministro da Irlanda é orgulhosamente gay e assim também o CEO da Apple e numerosos outros políticos, empresários, artistas e cientistas.

Passado todo esse tempo, no entanto, cerca de setenta países ainda criminalizam a homossexualidade, como Arábia Saudita, Irã, Brunei e uma porção de outras nações condenando gays à morte. E mesmo as sociedades mais amigáveis com sua população gay ainda apresentam muita discriminação, abuso e outros crimes de ódio. Ou seja, as conquistas notáveis dos últimos cinquenta anos não são garantias para o futuro. Raramente a história se move em linha reta. Não há razão para supor que a liberação LGBT+ inevitavelmente se espalhará por todo o mundo, eventualmente chegando à Arábia Saudita, Irã ou Brunei. Na verdade, regressões homofóbicas violentas são algo possível mesmo nos países mais liberais. À guisa de analogia histórica, consideremos a situação dos judeus europeus nas décadas de 1920 e 1930. Naquele intervalo de tempo, os judeus europeus foram libertados de séculos de leis discriminatórias, obtendo completa igualdade política, econômica e jurídica. E todos sabemos o que aconteceu a seguir.

Há sinais alarmantes de que a esta era de liberação LGBT+ pode se suceder uma era de perseguição sem precedentes. As pessoas LGBT+ podem passar a ser o alvo preferido de caças às bruxas por parte de movimentos ultranacionalistas. Os governos nacionalistas da Polônia, Hungria e Rússia, por exemplo, acusam os gays em seus países de serem espiões estrangeiros e uma ameaça não apenas à sobrevivência de suas nações, mas da própria civilização ocidental. Os meios de comunicação russos frequentemente representam a homossexualidade como alheia às tradições russas, de modo que o simples fato de alguém ser queer constitui prova de que esse alguém é um espião estrangeiro. Uma pesquisa feita em maio de 2018 revelou que 63% dos russos estão convencidos da existência de uma organização global gay empenhada em solapar os valores espirituais tradicionais da Rússia e, assim, enfraquecer aquele país.

Para combater essa alegada ameaça, a Rússia aprovou, em 2013, uma famigerada lei que proíbe a “propaganda gay”, lei essa que permitiu a prisão e perseguição de um bocado de pessoas. Em agosto de 2018, Maxim Neverov, então um adolescente de dezesseis anos, foi acusado do “crime” de postar na rede social "Vkontate" diversas fotos de homens se abraçando. O estudante secundarista foi multado em 50 mil rublos (3 mil reais), mais do que o salário mínimo russo, antes de ter uma sentença favorável contra a decisão num tribunal do país.

Isso porém não acontece apenas na Europa Oriental. Governos e políticos de vários países, do Brasil a Uganda, espalham histórias sobre conspirações LGBT+, prometendo proteger suas nações contra a ameaça queer. Os LGBT+ são alvos tentadores para esse tipo de caçadores de bruxas, por duas razões básicas.

Primeiro, porque governos autoritários conservadores normalmente abominam a fluidez e complexidade da realidade, o que os leva a prometer um retorno a uma imaginária era dourada, quando os limites eram claros, as identidades eram fixas e as pessoas dispunham de um espaço limitado para fazer suas escolhas pessoais. Nesse bom e velho passado, homens eram homens, mulheres eram mulheres, estrangeiros eram inimigos e não era preciso pensar muito sobre todas essas coisas complicadas. Mas os LGBT+ embaralham essas fronteiras, misturando as identidades e forçando as pessoas a pensar e fazer escolhas. Não admira que os autocratas os odeiem.

Segundo, as pessoas LGBT+ não possuem muito poder, o que torna fácil a sua perseguição. Por toda a história, os autocratas sempre escolhiam minorias fracas quaisquer, fazendo-as parecer bem mais poderosas e perigosas do que realmente eram, prometendo em seguida proteger a sociedade contra essa ameaça inexistente. Foi assim com as primeiras e literais caças às bruxas na Europa pré-moderna, que sempre visavam mulheres velhas e solteironas excêntricas. A mesma lógica opera atualmente em lugares como a Rússia. A Rússia se vê às voltas com problemas diversos. Sua economia está estagnando, a corrupção por lá é endêmica, os serviços públicos se deterioram a olhos vistos. Mas o combate à corrupção implica voltar-se contra os poderosos do país. É portanto mais fácil deixar esses manda-chuvas de lado para, ao invés, proteger os inocentes russos dos tentáculos corruptores da conspiração global gay. Tentemos por um momento quantificar essa questão em rublos. Quantos rublos seriam necessários para melhorar o combalido sistema de saúde russo? Quantos rublos seriam necessários para proteger a Rússia de uma inexistente conspiração gay globalista?

Se porém os LGBT+ estão cada vez mais se tornando o alvo desses políticos e sua caça às bruxas, não há como conceber uma volta aos tempos pré-Stonewall, à era do armário. Assim, o provável é que as coisas fiquem piores. Pois não será mais possível às pessoas escaparem dessa perseguição simplesmente voltando ao armário, dado que as novas tecnologias tornarão isso impossível. A combinação da tecnologia da informação e da biotecnologia está gerando novas ferramentas de vigilância que em breve possibilitarão o monitoramento de todos por todo o tempo. Pela primeira vez na história, qualquer governo que assim o desejar poderá espionar todos os seus cidadãos 24 horas por dia, e saber não só o que eles estarão fazendo, mas até mesmo o que eles estarão sentindo.

Se um futuro governo homofóbico quiser fichar todos os homens gays de um país (como já o fizeram recentemente as autoridades russas na província da Chechênia), ele poderá começar pelo hackeamento dos bancos de dados de sites de namoro gay como o Grindr. A polícia egípcia, por exemplo, já fez uso dos dados do Grindr para localizar e prender homens gay, com seus agentes disfarçando-se em usuários do site.

Outra opção é deixar um algoritmo vasculhar toda a história online de quem quer que seja, dos clipes que assistiu no YouTube às manchetes em que clicou ou às fotos que postou no Facebook. Em agosto de 2018 foi noticiado que grupos evangélicos que ofertavam a “cura gay” a jovens, haviam utilizado os algoritmos do Facebook para atingir adolescentes vulneráveis com seus anúncios. (O Facebook depois retirou esses anúncios afirmando que eles violavam suas políticas de publicação de conteúdo.) Esses adolescentes não necessariamente se declaravam LGBT+. Bastou que demonstrassem algum interesse em histórias relacionadas ao mundo LGBT+ para transformá-los em alvo. As forças de segurança israelenses também são conhecidas pelo uso de vários métodos — o que inclui vigilância virtual — para a identificação de palestinos gays, e não com o objetivo de os “curar”, mas sim de chantageá-los e os cooptar como informantes para Israel.

Em 2016, a empresa chinesa Kunlun comprou o Grindr, mas em março de 2019, o governo americano, por intermédio de seu Comitê para Investimento Estrangeiro dos Estados Unidos, notificou a Kunlun de que a aquisição do Grindr por aquela empresa “constituía uma ameaça à segurança nacional”, o que levou a Kunlun a ser forçada a vender o Grindr até 2020. Não se ofereceu nenhuma razão do porquê de a propriedade de um site de encontros gays por uma empresa chinesa constituir uma ameaça à segurança nacional americana, mas eu creio que a esta altura o leitor pode tirar essa conclusão por si só.

Mesmo quem nunca abriu uma conta no Grindr, jamais assistiu a um filme pornô gay online e nunca clicou em nenhum link de notícias relacionado ao universo LGBT+, poderá, em um futuro não muito distante, apenas por permitir que seus olhos naveguem livremente por uma página da internet, incorrer na supressão de sua liberdade. O livro The Age of Surveillance Capitalism [A era do capitalismo vigilante], de Shoshana Zuboff, conta como as corporações estão desenvolvendo ferramentas cada vez mais sofisticadas para saber o que seus consumidores apreciam. Por exemplo, enquanto você assiste uma série de televisão, os produtores da série desejam saber que personagens ou sequências mais despertaram sua atenção, de modo a tornar os próximos episódios cada vez mais viciantes para você. Perguntar diretamente aos espectadores as suas opiniões é um método trabalhoso e não confiável. É bem melhor identificar na fonte seus sinais biométricos involuntários, como o movimento dos olhos e a pressão sanguínea. Rastrear esses sinais pode revelar a determinada emissora, por exemplo, que 63% dos seus espectadores têm maior afeição por um personagem coadjuvante, o que lhes fará considerar uma boa ideia aumentar a presença desse personagem em cena.

E é exatamente essa mesma tecnologia que no futuro poderá informar à polícia do gênero que você é, secretamente, um “traidor do seu gênero”. Se os sensores biométricos incorporados aos televisores descobrirem que um homem que assiste à cena de um beijo entre Jon Snow e Daenerys Targaryen tem seu olhar direcionado mais ao herói masculino do que à Mãe dos Dragões, então a polícia do gênero poderá bater à porta desse homem às duas da manhã para investigar a questão mais detidamente.

E se você achar que pode se proteger deixando de assistir televisão, ficando sem navegar pela internet ou jogando seu celular na privada e soltando a descarga, o que irá fazer quando houver câmeras instaladas em cada esquina, com sensores avaliando constantemente o comportamento de todos? Em 2017, um professor de Stanford revelou que algoritmos podem identificar gays e lésbicas com precisão simplesmente ao analisar fotos de rostos. Não está claro se os algoritmos identificam marcadores biológicos ou culturais, mas para questões de vigilância isso não tem a mínima importância.

Em março de 2019, a faculdade de Guangdong Guangya, na China, teria comprado 3500 pulseiras biométricas para monitorar as atividades físicas de seus estudantes, seus batimentos cardíacos e o número de vezes em que levantavam suas mãos em sala. Ao cruzar esse tipo de dados, as escolas do futuro poderão ser capazes de identificar não somente aqueles alunos que cochilam durante as aulas de matemática, mas também os que se apaixonam pelo professor dessa matéria.

Agora, multiplique esse tipo de experimento por alguns milhões. Em anos recentes, a China transformou sua província de Xinjiang no maior laboratório de vigilância do mundo. Alegando a necessidade de destruir o extremismo islâmico, as autoridades chinesas monitoram diuturnamente milhões de muçulmanos que vivem no país. As pessoas são obrigadas a fornecer amostras de seu dna, sangue, impressões digitais, registro de voz e scans faciais. Esses marcadores permitem então ao governo monitorar atividades pessoais com o auxílio de uma rede de câmeras de segurança, dispositivos portáteis, programas de reconhecimento facial e algoritmos inteligentes. Sensores são instalados por toda parte — de mercados a mesquitas. Quando os algoritmos identificam um padrão suspeito de comportamento — discurso religioso, vestimenta tradicional islâmica, visitas frequentes a uma mesquita —, o “criminoso” pode receber uma intimação da polícia ou ser enviado a um campo de “reeducação”. Já há relatos de centenas de milhares de pessoas que teriam sido mandadas a campos desse tipo.

Atualmente, essa vigilância do governo é direcionada contra a minoria islâmica em Xinjiang, mas pode facilmente se voltar para qualquer outro grupo que o regime identificar como alvo. Assim, o que poderá acontecer se os encarregados pelo florescente sistema de crédito social chinês decidirem que ter um relacionamento amoroso com alguém do mesmo sexo será um comportamento antissocial que o impeça de solicitar seu crédito social — e portanto sua possibilidade de frequentar faculdades prestigiadas, obter uma hiporteca ou comprar uma passagem de avião. Agentes de vários governos organizam atualmente caravanas em direção a Xangai para aprender esses métodos e comprar a tecnologia. A associação entre tecnologias revolucionárias e ideologias conservadoras poderá tranquilamente levar à criação do mais totalitário de todos os governos da história.

Claro, a tecnologia não é inerentemente má. Eu conheci meu marido há dezessete anos, por meio de um dos primeiros sites de encontros gay, e sou profundamente grato aos engenheiros e empreendedores que desenvolveram aquele site. Como eu vivia em uma pequena e conservadora cidade de Israel, o único lugar onde eu podia encontrar rapazes era online. Pessoas LGBT+ são particularmente vulneráveis à vigilância online, exatamente por terem se beneficiado tanto das novas oportunidades propiciadas pelas redes sociais. Portanto, minha mensagem não é que devamos todos nos desconectar e bloquear novos avanços tecnológicos. Antes, a mensagem aqui é que a tecnologia eleva as apostas políticas a um novo patamar. Podemos fazer uso das novas ferramentas tecnológicas para construir o paraíso ou o inferno, a depender de quais sejam nossos ideais políticos.

Nada foi escrito ainda, e por mais sombrio que o futuro possa parecer para alguns de nós, em 1969 o futuro parecia ainda mais sombrio. Ao fim e ao cabo, a maioria dos cenários distópicos que aterrorizavam as pessoas em 1969 não se concretizaram, porque muitos lutaram para que fossem evitados. Se o seu desejo é evitar os cenários distópicos para o século XXI, há uma porção de coisas que é possível fazer para isso. Mas a mais importante é se associar a alguma organização. A cooperação é o que torna os humanos poderosos. A cooperação está no âmago do que foram os levantes de Stonewall. Foi naquele momento que um bocado de sofrimento individual se cristalizou em um movimento coletivo. Até Stonewall, as pessoas LGBT+ encetavam batalhas de sobrevivência isoladas contra um sistema terrivelmente injusto. Após Stonewall, um número suficiente de pessoas se organizou coletivamente para mudar o próprio sistema.

A lição de Stonewall é tão verdadeira hoje quanto o foi em 1969, e é relevante para todos os seres humanos, não apenas para os que se identificam como LGBT+. Cinquenta pessoas trabalhando em conjunto como membros de uma organização podem conseguir muito mais do que quinhentos indivíduos. A tecnologia agora confronta a humanidade com os maiores desafios de nossa história. Para fazer frente a esses desafios, precisamos nos organizar. E não cabe a mim dizer a qual organização vocês devem se juntar — tem um bocado de boas opções por aí —, mas, por favor, faça isso o quanto antes. Faça isto nesta semana. Não fique sentado em casa reclamando — junte-se a uma organização e aja!

 

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