A arte da Bíblia

Por Claudia Espínola de Carvalho

Luiz Fernando Machado produzindo uma das imagens para as capas da Bíblia.

Seja o leitor cristão ou não, é impossível negar a relevância da Bíblia. Se não é o livro mais importante de todos os tempos, certamente é o mais difundido. Com mais de seis bilhões de exemplares espalhados pelo mundo, a Bíblia já foi editada em quase todas as línguas, além de ter sido o primeiro volume impresso da história. Em uma linha, é difícil imaginar como seria o mundo sem a Bíblia.

Diante de tudo isso, confesso que a ideia de pensar um projeto gráfico para "o livro dos livros " foi um pouco intimidante. Até mesmo porque nossa edição seria lançada em seis volumes, o que nos permitiria escapar do consagrado - mas nem por isso ideal para a leitura - papel da Índia, também conhecido pela alcunha nada casual de papel-bíblia. Isso, além da inovadora tradução do especialista Frederico Lourenço, tornou possível um desejo antigo nosso: trazer ao Brasil uma Bíblia que pudesse ser lida tanto por religiosos quanto por aqueles interessados em seu caráter literário.

A capa deveria fazer jus ao conteúdo – sacrilégios à parte –, mas tudo isso sem tantos acabamentos especiais, afinal o preço precisava ser acessível. Queríamos que o livro continuasse sendo o best-seller mundial que já é desde seus tempos remotos. Foi diante deste desafio que a Elisa Braga, nossa diretora de produção, a Rita Mattar, editora do livro, o Alceu Nunes, diretor de arte, e eu, depois de muito quebrar a cabeça, tivemos a ideia de fazer a capa com papel marmorizado.

Tradicionalmente usada para decorar guardas de encadernações, a marmorização é uma técnica gráfica que consiste em colorir a folha de papel, colocando-a em contato com pigmentos que flutuam em superfícies líquidas. Os primeiros registros deste método milenar apontam que ele foi criado no Japão no século VII e migrou para outros países da Ásia, chegando ao Irã e à Índia até alcançar a Europa. Na Turquia, a técnica floresceu. Lá, conhecido como “ebru”, o papel marmorizado ganhou o desenho de flores e outros elementos pictóricos.

Uma das características mais impressionantes deste método é o fato de cada trabalho ser diferente do outro, não existem duas folhas iguais no mundo. No Brasil são poucos os que dominam a técnica. O Luiz Fernando Machado é um deles, e foi no Atelier Machado que encontramos os diversos padrões e cores que buscávamos para compor os seis volumes da nossa edição da Bíblia. Passamos horas escolhendo até compor a bendita sequência.

A solução para inserir todas as informações do livro sobre um padrão tão desenhado foi fazer uma sobrecapa. Para ela, escolhemos um papel especial, com uma textura vistosa e uma gramatura que o impede de estragar facilmente, mas o que fez toda a diferença mesmo foi o corte rasgado na parte superior dele, que dá ao resultado um aspecto mais rústico e antigo.

Para a diagramação, a ideia foi manter um estilo clássico e elegante, como pede o tema, com todas as informações alinhadas ao centro. As fontes usadas também são clássicas e nossa escolha pela Fette Fraktur, tipografia gótica do século XIX, foi uma pequena homenagem a Johannes Gutenberg, que, seis séculos antes de nós, foi o primeiro a se deparar com o desafio de editar O Livro. 

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Com apresentação, tradução e notas de Frederico Lourenço, tradutor premiado que já verteu para o português obras clássicas como Ilíada e Odisseia, esta nova edição da Bíblia, que será composta por seis volumes, toma por base o texto original do Novo Testamento, com seus 27 livros, e a versão grega do Antigo Testamento, também conhecida como "Bíblia dos Setenta", composta por 53 livros originalmente escritos em hebraico e traduzidos para o grego no século III a.C. O primeiro volume, que conta com as escrituras dos quatro evangelistas do Novo Testamento, já está nas livrarias.

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Claudia Espínola de Carvalho nasceu em Curitiba, em 1984. Formou-se em publicidade e propaganda na Universidade Positivo e design gráfico na Escola Panamericana de Arte e Design. Em 2012 fez pós-graduação em design editorial, especializando-se em direção de arte para livros pela BAU, Escola Superior de Disseny, em Barcelona, Espanha. Trabalha no departamento de arte da editora Companhia das Letras desde 2013.

 

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