A capital da sorte

por Raquel Toledo

Pessoas elegantes, vestidos longos e muitas fichas de aposta. Salas cheias de glamour, taças de champanhe tilintando. Monsieurs e madames. Mesas animadas pelos gritos dos torcedores. Feltro verde, cartas de baralho, jogos de roleta.

Nem de longe esse é o cenário que se espera ao abrir um livro de Fiódor Dostoiévski, autor muito conhecido por seus romances longos e densos. Mas, justamente mostrando sua versatilidade (e, por que não dizer, seu desdém), o autor nos apresenta esse quadro em O jogador, romance curto escrito em 1866, cujo protagonista é, sem dúvida, o dinheiro (ou, em russo, деньги [diéngui]).

A versão sisuda do autor parece até uma lembrança distante logo que se começa a ler O jogador: “Já fazia três dias que os nossos tinham chegado a Roletemburgo”. Sim, esse é o nome da cidade onde a narrativa se passa. Pelo sufixo, logo se nota que a cidade é alemã. Ademais, o nome quase pueril criado por Dostoiévski vale ser ressaltado não tanto por sua localização, mas especialmente por sua não-localização. Roletemburgo, o paraíso dos vícios, não é e nem poderia ser na Rússia. Mas o leitor não deve se deixar enganar pelo trocadilho: o livro apresenta, de certa forma, a complexidade e a força que esperamos sempre ver na obra de Dostoiévski.

O jogo é o coração da cidade, é a motivação da chegada diária de turistas de todo o mundo que arriscam as chances nos dados e nas roletas. Cada personagem tem seu motivo para estar lá: alguns por diversão, outros por necessidade, por esperança de conseguir mudar o próprio destino ou de sua família.

Nesta narrativa em primeira pessoa, acompanhamos o narrador que passa uma temporada em Roletemburgo. Seu nome é Aleksei Ivánovitch e, diferentemente da maioria dos personagens, ele está na cidade dos jogos a trabalho. Aleksei é um professor de origem humilde que acompanha o General em viagens para garantir a educação das crianças abastadas nos períodos que passam longe da Rússia. Seu papel é de homem insignificante diante dos figurões que cercam o General, reconhecido em terreno internacional como um magnata russo, mas que, na verdade, aguarda o recebimento de uma herança que devolverá à sua família o padrão de vida que tinham.

Na comitiva do dito magnata está Paulina, sua enteada, uma jovem lindíssima por quem Aleksei é apaixonado, e por quem ele mesmo diz que morreria. Mas o relacionamento dos dois é pano de fundo para o que realmente importa em O jogador: o valor do dinheiro e o poder que ele tem de mexer com os instintos e os valores mais arraigados das pessoas.

“Dinheiro é tudo”, “A vida é mais feliz com dinheiro” – não são poucas as máximas burguesas que o autor (ele próprio viciado em jogos) coloca na fala de suas personagens, como que na tentativa de mostrar quão fundo se pode ir por algumas cifras a mais. Dostoiévski, com maestria, adianta alguns conceitos freudianos justamente ao relatar essa diferença entre aquilo que Aleksei faz de forma consciente e aquilo que escapa por entre os dedos do personagem: sua falta de controle diante de Paulina, diante da mesa de jogo.

O dinheiro fácil que o jogo proporciona transforma com rapidez a realidade social daquele pequeno universo que orbita em volta do General em Roletemburgo. A mudança da sorte se amplia para a mudança das relações de poder, e então tudo que já havia sido decidido pode ser alterado num giro de roleta. O jogador mostra, sem dúvida, a complexidade e o maior momento de sedução literária de Dostoiévski.

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Raquel Toledo é paulistana, professora e editora. Trabalha também com formação de leitores adolescentes em escolas da capital paulista, afinal acredita que ler Tchekhov resolve 99% dos problemas da humanidade. Fascinada pela Rússia e, principalmente, sua literatura, tornou-se mestre em literatura russa pela Universidade de São Paulo. No ano da Copa na Rússia, escreve mensalmente para o Blog da Companhia sobre literatura russa. 

 

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