“A gente avisou”

Érico Assis

O livro chama-se Comics As Art: We Told You So (Quadrinho é Arte: a gente avisou). É a história da editora Fantagraphics, que completou 40 anos em 2016. Compilado por dois jornalistas, Tom Spurgeon e Michael Dean, é escrito no método de história oral: só as falas de mais de 200 entrevistados, organizadas por época e tema. E um monte de imagens, entre fotos, desenhos e HQs inéditas.

Tem 700 páginas e pesa 2 quilos.

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A Fantagraphics, “Fanta” para os íntimos, é referência mundial do quadrinho alternativo, underground, comix, como você quiser chamar. Começou com três caras que gostavam de vários tipos de quadrinho, que aí começaram a gostar de menos tipos de quadrinho – os que passaram a editar – e hoje gostam de ainda menos. Quando algo que eles publicam faz muito sucesso, é comum ser excluído. Capitalismo ao contrário, ou nariz torcido para o pop.

O Pravda da Fanta chama-se Comics Journal, a revista que publicam com entrevistas quilométricas (40+ páginas, cada) e resenhas tratadas com fina seriedade – mais famosas quando negativas. Gary Groth desancou O Edifício e toda carreira de Will Eisner em um destes textos. Um escritor entrou com processo de US$ 2 milhões contra a revista depois que Groth e um entrevistado chamaram-no de “perturbado”, “doido” e “pirado”.

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Groth começou a fazer fanzines aos 12 anos, analisando gibis da Marvel. Aos 16, alugou um cômodo da casa dos pais para ser sua redação-de-um-homem-só. Mike Catron, o segundo fundador, era antenado na tecnologia: seus fanzines eram em fita cassete. Aos 17, ele já tinha organizado duas convenções de colecionador.

Groth e Catron assumiram a publicação do fanzine The Nostalgia Journal em 1976, que transformaram em Comics Journal no ano seguinte. Na capa: “O guia do colecionador de quadrinhos, ficção científica, fantasia e arte”, um Pato Donald de Carl Barks na capa e o preço de 30 cents.

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Um dia, em 1977, um sujeito de vinte anos chamado Kim Thompson apareceu na redação do Journal. Dinamarquês de pai americano, Thompson tinha acabado de chegar aos EUA depois de crescer na Europa lendo Tintim e mandando cartas para gibis da Marvel. Falava dinamarquês, francês, alemão, holandês e inglês, no caso, com um sotaque estranho. Gostou do papo com Groth e Catron, puxou uma cadeira e não saiu mais de lá. Vestia shorts de jogador de basquete quase na altura da virilha, tradição que manteve da infância até os 50 e poucos anos.

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Surpresa na primeira página de Comics as Art: Gary Groth é argentino! Nascido em Buenos Aires, de pais americanos – que voltaram ao país natal quando o filho tinha dois anos.

Na capa do livro, Groth segura uma pistola. Uma das tradições da Fantagraphics é o retiro anual para tiro ao alvo. Eles vão para o meio do mato e disparam contra bombonas d’água e computadores velhos.

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Depois de alguns anos editando o Journal, Groth, Catron e Thompson resolveram editar quadrinhos que mostrassem o que eles queriam dos quadrinhos. Um dos primeiros achados e fagocitados foi Love & Rockets, revista que os três irmãos Hernandez publicavam por conta na Califórnia.

Dan Clowes, recém saído da faculdade de artes, procurou a editora. Peter Bagge foi atrás deles quando quis lançar sua antologia. Joe Sacco trabalhou no Comics Journal, aí resolveu viajar pelo mundo, virar jornalista de guerra e a Fantagraphics topou publicar o desvario do ex-funcionário. Dame Darcy e Jessica Abel foram convocadas a partir do que publicavam como indies. Foi só com a Fantagraphics que Dash Shaw conseguiu lugar para publicar as 700 páginas de Umbigo sem fundo.

Kim Thompson teve que convencer Chris Ware de que o garoto tinha futuro. Quando achou que tinha uma empresa mais ou menos sólida, Gary Groth foi convencer seu deus Robert Crumb a publicar suas revistinhas de papel jornal em livros de capa dura. As duas missões tiveram sucesso até Ware e Crumb ficarem grandes demais para a Fantagraphics.

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“O negócio deles não é dinheiro, e nunca foi. Pode ser uma complicação se você estiver fazendo negócio com eles (eu que o diga!)”, escreve Crumb na introdução de Comics as art.

Na capa do livro, Daniel Clowes desenha uma portinhola por onde entram notas de dólar. A portinhola diz “Eros”, nome da linha de quadrinho pornô que a Fantagraphics lançou em 1990. Dizia-se que a Eros financiava toda a operação da editora. Não tinha como gibi alternativo com impressão de luxo financiar aquilo – a não ser que fosse de sacanagem.

Mais tarde se disse que o que salvou a editora do vermelho foi The Complete Peanuts, a coleção da tira mais famosa dos EUA em 26 lindos voluminhos. Em 2013, a editora abriu o jogo: o fluxo de caixa estava comprometido e eles precisavam de apoio dos leitores. Uma campanha de crowdfunding pediu 150 mil dólares com contrapartida de pré-vendas, brindes especiais e participação do leitor no retiro anual para tiro ao alvo. Juntaram 220 mil.

(Contribuí com 33 dólares e ganhei a camiseta que diz “Fuck You, I’m with Fantagraphics”.)

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Um dos motivos do prejuízo financeiro foi trágico. Kim Thompson faleceu de câncer de pulmão aos 56 anos, pouco mais de três meses após levantar da cadeira em que trabalhava desde os 20. No fim de carreira, traduzia de nove idiomas e editava toda a linha de quadrinho importado da Fanta. A editora ainda está se levantando sem ele. A Comics Journal, por exemplo, parou na edição 302 e ainda não voltou (apesar de ter um site bem ativo).

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Aos 40, a Fantagraphics funciona num sobrado de madeira em Seattle com 20 e poucos funcionários. Publicou 100 livros no ano passado, tem mais uns 70 anunciados para este e administra um catálogo de milhares. Funciona dentro das regras do mercado livreiro (tem contrato com uma distribuidora forte) e de quadrinhos, pois não dá para ser tão alternativo. Participam da San Diego Comic Con, por exemplo – mas com nariz torcido. “A gente vai porque nossa ausência ia ficar muito na cara, e tem fãs que gostam da gente lá. Somos tipo um oásis no mar de bosta”, Groth declarou antes de ir à última edição do evento.

Na semana passada, a Fanta lançou My Favorite Thing is Monsters, estreia da quadrinista Emil Ferris. A HQ – um tijolo de 400 páginas – chega com elogios de Chris Ware, Art Spiegelman, chamadas positivas na New Yorker e a Forbes dizendo que ela “vai transformar a literatura gráfica”. Daqui a quarenta anos, quem sabe menos, talvez a editora possa dizer de Ferris o que pode ostentar quanto a Hernandez, Sacco, Ware, Clowes, Abel e os quadrinhos em geral: “a gente avisou”.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

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