A hora da boa notícia

Foto: Martha Batalha

 

Comecei a escrever A vida invisível de Eurídice Gusmão logo após a minha filha nascer. Estava morando nos Estados Unidos havia dois anos e temia desaparecer, na maternidade e nova cultura. Escrever em português era uma forma de criar e proteger um espaço único, composto do modo de ver o Brasil à distância, no presente e no passado. Na época eu trabalhava em período integral numa editora chamada Workman, acordava de madrugada para amamentar e escrevia de noite e nos fins de semana.

Na verdade eu não comecei a escrever o romance, mas os quatro livros que jogaria no lixo, e que precisava ter feito antes de chegar a Eurídice.

Havia também um segundo motivo. Desde criança que pensava em ser escritora, e não queria que o desejo se transformasse em arrependimento, estocado na inevitável pilha que se forma quando passamos dos 30 anos.

Depois de um tempo eu pedi demissão para escrever em tempo integral. Deixava a casa de bicicleta, pegava o metrô e ia trabalhar em um espaço para escritores na Union Square chamado Paragraph. Todos os dias eu escrevia, e todos os dias me arrependia por não ter tido feito um curso de escrita criativa. Mas agora era impossível, não havia tempo ou dinheiro. Fui então me formando desse jeito meio teia de aranha – um livro leva a outro e a outro, uma resenha leva a um livro, que leva a outro, e a outro. Li manuais de escrita e as entrevistas do Paris Review, dissequei romances e contos. Desenvolvi uma técnica própria, que era Vai que vai depois vê no que deu. Técnica aliás de essência profundamente brasileira.

Por um período eu escrevi imitando o David Sedaris, depois a Alice Munro, depois o Junot Díaz. O bom é que eu sabia que estava imitando, o ruim é que me condenava por isso, mas não conseguia fazer de outra forma. Às vezes a leitura de um romance perfeito, como as As correções, do Jonathan Franzen, me paralisava. Para que tentar, se eu jamais conseguiria escrever como ele?

Mas então eu me lembrava do que disse o José Américo de Almeida: “ver bem não é ver tudo, é ver o que os outros não veem.” Faltava a formação ideal de escritora e anos de prática, mas eu estava aprendendo, tinha a voz, o ponto de vista e a visão de mundo. Franzen é genial em cada parágrafo, mas ele não sabe o que é dar dois beijinhos nas bochechas úmidas da senhora aposentada que vende paninhos de prato na feirinha da praça Saens Peña. E, se esta senhora tiver alguma chance de ser transformada em ficção, será através de mim (de nós, escritores brasileiros), e não do Franzen. Então, eu pensei, se escrevesse do meu jeito e sobre de onde tinha vindo, talvez fosse capaz de contar uma boa história.

Escrevi assim durante anos, obstinada, decidida e com foco. Mentira. O percurso foi difícil, solitário e cheio de dúvidas (ainda é). Interrompido por filhos doentes, visitas ao pediatra e a eventual infiltração no banheiro (ainda é). Havia dias em que ligava para o meu marido para dizer que escrever era perda de tempo, eu deveria trabalhar numa editora, afinal eu tinha feito um mestrado em publishing na NYU, que agora servia apenas para cobrir uma parede da sala com o quadro do diploma. Ele me acalmava, dizia para eu continuar, e eu voltava para a tela em branco.

Aprendi que escrever é um processo intuitivo. Como disse George Saunders, o escritor trabalha com um medidor na testa, tendo em cada extremidade os sinais de positivo e negativo. Ele revisa o texto, a agulha se move e ele ajusta a prosa, centenas de vezes, se precisar. Outra boa metáfora é esta: existe dentro da gente uma lanterna, carregada por uma bateria com o tudo o que lemos, escrevemos, aprendemos e vivemos, e é essa lanterna que vai iluminar a escrita.  

Enquanto isso a vida seguia. Nascimento do segundo filho. Natal, Ano Novo, Natal. Os protestos de 2013, comigo querendo entrar pela tela do computador e se materializar na Cinelândia, para gritar Não é só pelos 20 centavos. Chuva, calor e neve, noites em que a prioridade era ler Dr. Seuss e Ana Maria Machado para as duas cabecinhas descansando sobre o meu peito, em vez de Lessing ou Steinbeck. 

Um dia eu cheguei na Paragraph e passei horas tentando escrever meia dúzia de sentenças. Havia nelas algo diferente, original. Eu olhava as frases concentrada, e era como olhar aquela imagem de ilusão de ótica, em que algumas pessoas veem uma velha, outras uma jovem. Não era a cópia de um parágrafo do Sedaris, da Munro ou do Junot. Era um parágrafo da Martha. Depois de anos tentando, A vida invisível de Eurídice Gusmão se escreveu como um fio que se desenrolou daquele parágrafo, em nove meses. Lembro que foi divertido, que a história parecia ter alma, e que, naquele momento, eu tinha feito o melhor livro que podia com o que sabia.  

O resto da história todo mundo sabe: Luciana Villas-Boas aceitou me representar, vendeu o livro para a Companhia e para o mundo inteiro, o livro virou filme pelas mãos do Rodrigo Teixeira e do Karim Aïnouz, equipe e elenco espetaculares, prêmio em Cannes.

Depois do prêmio tudo mudou, e nada mudou.

Nada porque eu continuo sendo a escritora iniciante, com apenas dois livros publicados e ainda aprendendo o ofício. Eu tento, erro e acerto, tento e erro até acertar (é interessante como tantos hábitos de escrita valem também para a vida). Há frases coladas na parede do escritório que me ajudam no caminho. “BICHOK (butt in chair, hands on keyboard)” — Nora Roberts. “Escritores, nada neste mundo faz sentido” — Tchékhov, “Concentre-se, seja verdadeiro e vivo, e tudo vai chegar” - Saunders. Junto ao computador está uma ilustração do Noman Rockwell, de um menino na ponta de um trampolim olhando assustado para a piscina. George Lucas tem o original no escritório dele, e pelo mesmo motivo que eu: cada novo projeto é um mergulho no desconhecido. Assim como aquele menino é preciso enfrentar o medo.

E tudo mudou depois do prêmio, principalmente pela alegria de fazer parte de um presente ao país. O peito ainda se aquece quando escrevo estas linhas, ainda se forma o mesmo sorriso de canto de boca.

Meu WhastApp, onde geralmente só minha mãe aparece, estava inundado de mensagens. Pessoas ligavam e me procuravam pelas mídias sociais. Todo mundo querendo celebrar, mas não por mim, por elas, pelas mulheres, pela literatura, pelo cinema, pelo Brasil. Abri meu Facebook e levei um susto, havia mensagens de gente que eu não via desde o tempo em que acreditava em Papai Noel.

Dos muitos momentos deste dia inesquecível talvez este tenha sido o mais especial: meu pai, formado pelo Colégio Pedro II, que estudou com crédito educativo na PUC, empresário orgulhoso pelos trabalhos que gerou, um nacionalista, que me passou nas muitas conversas e sugestões de leitura o amor pelo Brasil, meu pai, que como todos os outros cariocas sofreu econômica e moralmente a pilhagem do Rio de Janeiro, me contando com voz embargada pelo choro como soube da notícia. Aos 71 anos, ele voltava das 10 horas de trabalho diárias quando ouviu no rádio a âncora da CBN dizer: “Eu passo o dia dando notícia ruim. Agora vocês vão ouvir uma boa: A vida invisível de Eurídice Gusmão ganhou em Cannes.”

***

Esta é a história de Eurídice Gusmão, a mulher que poderia ter sido. Saiba mais.

"Uma saga, um épico, um romance como os de antigamente. Martha Batalha combina drama e humor com um savoir-faire incontrolavelmente moderno." — Ruy Castro

***

Martha Batalha nasceu em Recife em 1973 e cresceu no Rio de Janeiro. Trabalhou como repórter e criou a editora Desiderata. Mudou-se em 2008 para Nova York, onde fez mestrado em Publishing na NYU e atuou no mercado editorial. Seu romance de estreia, A vida invisível de Eurídice Gusmão, foi finalista do prêmio São Paulo de Literatura e semifinalista do Oceanos, além de ter os direitos vendidos para mais de onze países e para o cinema. Martha mora em Santa Mônica, na Califórnia, com seu marido e dois filhos. Em 2018, publicou seu segundo livro, Nunca houve um castelo, também pela Companhia das Letras.

 

Neste post