"A hora do sétimo anjo", de Erico Verissimo: o livro em apocalipse (parte 1)

Por Beatriz Badim de Campos

Foto: Leonid Streliaev

A hora do sétimo anjo, romance inconcluso iniciado por Erico Verissimo em 1966, desafiou o escritor até o ano de sua morte, 1975. Durante os quase dez anos de trabalho neste projeto, Verissimo manteve uma espécie de resistência com relação à sua escrita. Como disse em entrevista ao jornal Correio da Manhã em 1971: “[...] sinto uma espécie de autonáusea, quero dizer, estou enfadado da minha maneira de escrever. Gostaria de começar de novo, não sei bem em que direção... mas começar. Sei que isso é impossível.”.

Sem perceber, Verissimo quebrava a impossibilidade de começar de novo quando assume a ideia de A hora do sétimo anjo. Neste livro em processo há o compromisso do fazer literário engajado do autor com sua própria literatura, que se renova ao lançar olhar para dentro de si a fim de reavaliar-se e autocriticar-se. Verissimo tinha um objetivo claro com este texto que, como dizia, “está metido numa gaveta lá em casa”: terminar o ciclo dos romances de Porto Alegre – Clarissa (1933), Caminhos cruzados (1935), Um lugar ao Sol (1936) e O resto é silêncio (1943).

Seguindo as pistas deixadas por Verissimo, entramos em contato com esse material, parte integrante do acervo do autor disponível no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro: três cadernos com anotações em português e inglês que compreendem registros deste e de demais livros em andamento, inclusive infantis, 175 folhas datilografadas e/ou manuscritas com cenas roteirizadas, diálogos em elaboração e concluídos, composição da história familiar de núcleos de personagens, esboços e desenhos.

Como em todo processo de criação, este material não apresenta uma estrutura linear, mas a riqueza fragmentada do trabalho autoral. Unindo as peças de um mosaico de seis roteiros, conhecemos o que seriam as linhas gerais do enredo do livro: Caio Mafra-Pomar, membro da Academia Brasileira de Letras, morre após um derrame cerebral, o que é anunciado pelo rádio numa manhã em que o mundo espera pela chegada do homem à Lua. O ano é 1969 e Porto Alegre, cidade em que se passa a ação narrativa, guarda os segredos e conflitos de seus personagens que seriam conhecidos pelo leitor por meio da voz do “Olho narrador”. Este “Olho” é a consciência onisciente e onipresente de Mafra-Pomar fora de seu corpo observando, durante três dias, a sociedade da qual fazia parte.

A ideia do “Olho narrador”, que alude ao defunto-autor de Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), era uma incerteza para Verissimo, uma vez que ele havia usado a técnica da narrativa post-mortem em Incidente em Antares (1971). Foi durante a escrita de A hora do sétimo anjo que Verissimo viu em uma revista a foto de um cemitério com caixões enfileirados por conta de uma greve de coveiros. Pensou como seria se esses defuntos se levantassem e reivindicassem o direito de serem sepultados. Este foi o mote para desenvolver o romance de 1971, o que paralisou o desenvolvimento de A hora do sétimo anjo.

Em caderno de anotações datado de 1972 e intitulado “Projeto Joana Zero”, encontramos roteiros que dão sequência à escrita de A hora do sétimo anjo, e registram a alteração no andamento do livro após a publicação de Incidente em Antares: “Mudança radical do ângulo da narrativa. Prejudicado pelo Incidente.”

O curioso título do romance, por sua vez, traz a inspiração do “Quarteto para o fim do tempo” (“Quatuor pour la fin du temps”) de Olivier Messiaen (1908-1992), obra musical composta em 1941 e executada pela primeira vez em um campo de concentração. A partitura trazia originalmente no topo um excerto do “Livro do Apocalipse”, de São João: “[...] E jurou por Aquele que vive pelos séculos dos séculos, dizendo: no dia da trombeta do sétimo anjo, o mistério de Deus se consumará.”

Verissimo escolhe a trombeta do sétimo anjo para anunciar o que seria o romance conclusivo de sua obra. Este anjo, especificamente, anuncia a revelação do mistério divino ao homem que é flagrado em sua autorreflexão, transcendendo à sua condição física e se expandindo na reflexão de sua condição social, humana, histórica. Este seria o ponto de diálogo entre a perspectiva narrativa por meio do “Olho” que tudo observa e critica e o título do livro.

Dos primeiros esboços do romance até os últimos roteiros, algo falta a Erico Verissimo para encerrar o seu projeto. É justamente na falta que A hora do sétimo anjo encontra o seu mais expressivo significado, pois deixa aberto múltiplas possibilidades do texto literário existir. Os três cadernos de anotações dedicados a esse projeto revelam que o processo de criação do escritor é laboral e nele reside seu valor. É o ato criador em conflito corpo a corpo com a palavra escrita que se assume protagonista, dando-lhe forma, textura, autonomia. 

Leia aqui a segunda parte.

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Beatriz Badim de Campos é doutoranda e Mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Autora do livro Caminhos cruzados e um Lugar ao Sol: o projeto literário de Erico Verissimo (EDUC, 2016).

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