A literatura é um caminhão

Noemi Jaffe

 

Estranho é o mesmo que estrangeiro: aquele que não faz parte. Mas há já tanto tempo me sinto estranha — daquela que acha que, nas placas de condomínio onde se escreve "Proibida a entrada de estranhos", a interdição é dirigida a ela — que o estranhamento, para mim, já não tem mais nada de estranho. É meu normal. Aos 56, assumi ser estranha, esquisita, o nome que quiserem dar. Não tento disfarçar nem ocultar. Gostaram, tudo bem. Se não, azar. Não faço parte. Do quê? Do jogo. Virou normal, estou fora. Tem algo fora do padrão, fora da expectativa, enfim, fora, fiquei interessada. Isso é também um jogo? Creio que sim. Não há escapatória para a macroestrutura do jogo e já me disseram — e concordei — que "a verdade é meu dom de iludir". Algo como estar fora é o meu dentro. Deve ser isso mesmo, mas nesse drible meio retórico, meio metafórico, meio verdadeiro, sigo acreditando que é possível fazer algo diferente. O estranho é necessário para o que acredito ser boa literatura: o estranho autor, o estranho objeto narrativo, o estranho leitor. O escritor é um ser estranhante: se todos olham para o presente, ele olha para o barbante da embalagem. Se todos, num ônibus, estão interessados no destino de chegada, o escritor olha para as mãos agarrando os apoios. Os personagens que interessam a ele, como nos inescapáveis clássicos "A Legião Estrangeira" e "Primeira Estórias", são os estranhos estrangeiros: os loucos, as crianças, os velhos, os criminosos, as prostitutas, os marginais, os esquecidos e excluídos, os eus sem tempo nem lugar. Sua linguagem é nova, outra, doida, errada, impossível, com combinações esdrúxulas de substantivos e adjetivos, como "ângulo quente", "bondade asfixiante", "falsa verdade" e personagens ruivas com soluço, às duas da tarde¹. E o leitor dessas tramas, por sua vez, tampouco está satisfeito consigo mesmo ou com o mundo. Não entende, não aceita e, quando lê, de alguma forma gosta que "um caminhão de lixo suje seu terno novo de brim branco engomado". A literatura é o caminhão de lixo e "faz o leitor satisfeito de si dar o desespero"². O estranho é um desesperado, que, estranhamente, espera desesperar. Não esperar, perder a esperança, talvez seja a maior e melhor esperança de quem vive imerso no estranhamento. Pois a esperança clássica, essa que é a última a morrer, a que resta na caixa de Pandora, é, na verdade, o refúgio da normalidade que só quer ser mantida e conservada. A esperança, guardada ali, quietinha na caixa, será sempre o álibi para a manutenção do status quo.

Saia de casa. Vá até o primeiro ponto de ônibus. Pegue o décimo sétimo ônibus que passar. Desça no décimo nono ponto e pegue o primeiro ônibus que aparecer. Desça então no décimo segundo ponto. Vire à esquerda, à direita, à esquerda e entre no primeiro boteco, padaria que houver. Converse com quem estiver por lá, apresente-se, ouça. Fique por lá por pelo menos uma hora, observando, escrevendo, participando. Perceba como as pessoas são iguais a você, sendo diferentes. Milagrosamente, esqueça-se de sua profissão, seus horários, seu lugar no mundo e seja uma pessoa fora do lugar e do tempo, deslocado num mundo em que os outros é que estão inseridos. Se você quer escrever, ser um escritor, por um tempo esse é o seu lugar. Lá onde os outros estão dentro e o seu terno branco é que receberá a mancha de lama.

Caia na lama, suje-se, morra. Renasça.

Você está pronto para começar a escrever. Bem vindo ao insolitamente capcioso mundo do estranhamento.

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¹ Baseado no conto "Tentação", de Clarice Lispector.

² Citações baseadas no poema "Nova poética", de Manuel Bandeira.

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Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falouÍrisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.

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