A morte sorriu para Poe

Por Ana Paula Laux

Ilustração: Elsa Korkiainen

Há 209 anos, nascia o escritor, poeta, crítico literário, editor e gênio Edgar Allan Poe. O que ele diria se soubesse que em 2018 seu nome dispensaria apresentações?

Mestre do terror, pai da ficção policial, arquiteto do conto moderno. Poe é mais celebrado em morte do que foi em vida, embora seu poema O Corvo – pelo qual recebeu obscenos 14 dólares  tenha rendido uma certa notoriedade, já que as pessoas ficaram realmente assustadas com o que leram. Ser perseguido na rua por crianças imitando corvos traduzia a súbita (e desejada) fama, no que ele as respondia com a voz grave e sombria: “Nunca mais, nunca mais…”.

Poe usava as palavras para lidar com incertezas, com a rejeição dos pais, a perda das mulheres que amou, o luto decorrente das perdas. A deterioração das coisas como um presságio para o esfacelamento das pessoas também está nos seus escritos, como em A queda da casa de Usher. Ensaios de morte, de decomposição, de cadáveres que voltam do além, da intolerável aniquilação e, particularmente, alusões à tuberculose, a doença que mais parecia uma sombra varejeira moldando sua existência. Primeiro ela vitimou a mãe biológica, depois a mãe adotiva, e por fim a esposa Virginia, com apenas 24 anos. “O sangue era seu avatar e seu sinal, a vermelhidão e o horror do sangue”, como escreveu em 1842 em A máscara da morte rubra.

A lógica era outro ponto importante para ele, como se pode constatar nos três contos com o detetive Auguste Dupin, mestre no uso da razão analítica para resolver crimes que a polícia não compreendia. Poe ganhou a alcunha de pai da ficção policial moderna com Dupin, que foi o modelo para o surgimento de Sherlock Holmes anos mais tarde. Como o próprio Arthur Conan Doyle disse, “onde estavam as histórias de detetive antes de Poe soprar o sopro da vida nelas”?

“Todo o ar do quarto respirava morte; o cheiro característico do ataúde me fazia mal, e imaginava que um odor deletério exalava já do cadáver. Teria dado mundos para escapar, para livrar-me da perniciosa influência mortuária, para respirar uma vez ainda o ar puro dos céus eternos”

(Berenice)

Embora Poe fosse um artista visionário, ele era um homem do seu tempo. Por suas histórias, desfilam mulheres pálidas e angulosas, homens de caráter duvidoso e animais de todo tipo. Aliás, eles parecem funcionar como fios condutores em seus trevosos casos. Um gorila assustador está Os assassinatos da Rua Morgue, besouros estão em O escaravelho de ouro, sem contar O gato preto e o famigerado Corvo.

Poe também foi um dos primeiros escritores norte-americanos a ser mais reconhecido no exterior do que no próprio país. Nos Estados Unidos, seu temperamento forte e as críticas literárias mordazes que assinava lhe renderam inúmeros inimigos no meio editorial. Já na França, o poeta Baudelaire passou 14 anos traduzindo sua obra. Baudelaire, assim como Rimbaud e Mallarmé, admirava a vertente visionária nas histórias de Poe, o uso do místico e do grotesco, além de se identificar com a trajetória e mazelas pessoais do autor.

Mesmo após dois séculos, Edgar Allan Poe ainda se comunica com o mundo por seus contos, enigmas e poemas encharcados num universo de romantismo sombrio. A verdade é que o aroma da obra de Poe é como o de um bom vinho tinto. Quanto mais envelhecido, melhor.

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Ana Paula Laux é jornalista e escritora. Produz conteúdos e faz curadoria de informações para o Clube do Crime, da Companhia das Letras. É editora do site www.literaturapolicial.com, e sob o pseudônimo Chris Laux lançou com Rogério Christofoletti o e-book Os Maiores Detetives do Mundo.

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