A ocupação

Kelvin Falcão Klein

 

A ocupação, o último romance de Julián Fuks, parece lidar com um tema claro e evidente, sem margem para ambiguidades: a ocupação do Hotel Cambridge, em São Paulo. O evento central do livro, de resto, está anunciado já no título. Contudo, a narrativa contraria essa disposição inicial aparentemente direta e a “ocupação” passa a representar um conjunto difuso de sentimentos, gestos e ações. “Sobre aquele esqueleto de prédio, já a se desfazer em pó”, escreve o narrador a certo ponto, “se espalhavam ainda os despojos de uma batalha mais recente: colchões carcomidos, sapatos avulsos nos cantos, agulhas e seringas”. Os destroços, continua ele, “talvez não contassem toda a história do espaço ao longo das décadas, do que foi uma repartição pública com seus gabinetes e salas de espera”, mas “contavam, sim, aqueles destroços em sua gramática contundente, eu pensava entre impressionado e melancólico, a sucessão infindável de erros que conduziram ao despautério, a história do nosso fracasso civilizatório”.

O romance está repleto de momentos como esse, no qual o sentido imediato (material, visível) de uma experiência vai aos poucos deslizando em direção a um sentido figurado, metafórico. A organização formal do livro, feito de capítulos breves, potencializa o efeito desse traço distintivo: a forma breve ajuda o leitor a passar de uma imagem a outra sem que elas estejam completamente enraizadas na memória, dando a sensação de uma mescla progressiva, paulatina. Diante disso, é possível relembrar um conto de Julio Cortázar que talvez faça parte do pano de fundo intertextual de construção do romance: “Casa tomada”, publicado em 1946 em uma revista e em 1951 no livro Bestiário, conta a história de um casal de irmãos vivendo na casa da família, pouco a pouco invadida por entidades desconhecidas.   

A ideia da “ocupação” é, ao mesmo tempo, o fio condutor e a metáfora proliferante do romance. Além de focar na situação de refugiados e sem-teto em torno ao Hotel Cambridge, o narrador também oferece dois campos de angústia recortados pelo escopo da narrativa: a história de sua relação com o pai moribundo e a história de sua relação conjugal (envolvida no esforço de ter um filho). Repare como a ideia da gravidez é evocada pela primeira vez no romance: “A impressão era estranha, não era um teste de gravidez o que aguardava no banheiro, não era um atestado de sim ou de não. Era o nosso filho quem nos esperava, era a nossa filha, ocupando pela primeira vez um cômodo da nossa casa”. Também a gravidez é uma versão da “ocupação”, reverberando na vida familiar, na disposição dos elementos materiais na casa, na projeção de um futuro possível, mas ainda desconhecido.

A ocupação, portanto, opera tanto na superfície quanto na profundidade, simultaneamente, costurando diferentes linhas narrativas a partir de uma ideia central: para onde vamos quando nosso lugar no mundo está ameaçado? Como podemos tomar responsabilidade pelo destino de outros? É precisamente essa multiplicidade de sentidos possíveis e disponíveis que garante a sobrevivência da literatura, ocupando a imaginação dos leitores por gerações.

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Kelvin Falcão Klein é crítico literário, professor de literatura na UNIRIO e autor de Wilcock, ficção e arquivo (Ed. Papéis Selvagens, 2018). Escreve no blog Um Túnel no Fim da Luz.

 

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