A pirâmide de Thomas Mann

Por Paulo Astor Soethe

Ler A montanha mágica é como contemplar um grande monumento da história da humanidade. As pirâmides do Egito, por exemplo. Por isso começo com uma frase que Marina Macedo, leitora entusiasmada, postou em suas redes sociais sobre esse romance de Thomas Mann: “Quem estiver lendo este pequeno texto faça o favor para sua vida de ler esse livro.”

Em 26/11 estive na cerimônia de abertura da XXX Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a FIL, e saí de lá sob o impacto de um discurso do escritor judeu romeno Norman Manea. Como a Marina Macedo, Manea também falou sobre literatura e vida. O que presenciei foi seu agradecimento pelo Prêmio FIL de Literatura em Línguas Românicas de 2016, que os jurados internacionais lhe concederam, entre eles o brasileiro João Cezar de Castro Rocha (UERJ). Norman Manea, que nasceu em 1931 na região da Bucovina, falou sobre como sobreviveu, com a literatura, aos totalitarismos de Hitler e do comunista Ceaucescu: os dois ditadores determinaram os 50 primeiros anos da vida dele. Na contracorrente, essa experiência radical com o lado sombrio do poder moldou as metades esquerda e direita da convicção íntegra a que o escritor Manea dá forma em sua obra, em favor da liberdade – e da vida. Em seu discurso Manea referiu-se duas vezes a Thomas Mann de forma muito positiva, e dele citou a frase: “A liberdade é mais complicada que a tirania.”

Thomas Mann publicou A montanha mágica antes de Manea nascer, em 1924. O momento, como o nosso, de hoje, era de forte transformação política. Durante a redação do romance, que começou em 1912, as monarquias europeias chegaram ao fim, a jovem Alemanha passou a fazer sua primeira experiência democrática e republicana, e na Europa nascia o totalitarismo fascista: Mussolini passou a governar a Itália em 1922; Hitler tentou chegar ao poder em 1923, com um golpe de Estado que malogrou. A vida de cada indivíduo, como sempre, estava à mercê do mundo que a envolvia.

Pois bem. Se A montanha mágica tem fama de ser a súmula do pensamento ocidental da Era Moderna, sobretudo uma súmula das questões que a Era Moderna levanta; e se o romance, consciente da ambivalência do termo, autodefine-se como “Zeitroman” – um romance sobre o tempo e também um romance de época –, então cabe pensar: por que essa obra marca tão fortemente a vida individual de quem o lê, como foi o caso com Norman Manea e Marina Macedo, entre tantos outros? E por que o romance marca não apenas vidas individuais, mas também o pensamento desse quase um século que o sucedeu, sendo hoje um livro tão imprescindível? Será porque ele opera justamente com o tempo individual como matéria do tempo coletivo? E porque com isso desafia cada “burguesote mimado”, “lavadinho como um nenê”, como o protagonista Hans Castorp, a pensar radicalmente no sentido da própria vida e em seu papel na condução da vida coletiva, em sociedade, em associação com outras pessoas? “Perguntas demais!”, diria o narrador de A montanha mágica. “Perguntas, mas há que fazê-las!” (p. 399)

Uma resposta breve: como as pirâmides do Egito, também o romance de Mann foi construído sob o confronto com a morte. Mas não para celebrar a memória de um governante, como o faraó, nem preparar o caminho para uma vida no além. Ao contrário. A montanha mágica é, sim, uma sucessão de falecimentos: perdas de pessoas queridas, mergulhos na doença, decisões de pôr em risco a vida ou de encerrá-la por vontade própria. E finda com a “dança macabra” da I Guerra Mundial. Mas a morte no romance é sobretudo uma medida para o tempo da vida. A morte serve para dar forma ao tempo, e não para aprisioná-lo na memória ou eliminá-lo na eternidade. Explico: Thomas Mann, com “simpatia pedagógica”, parece nos dizer que é preciso tornar-se senhor da própria vida a cada momento. Ter consciência de que o tempo é limitado e de que por isso é preciso moldar a vida da melhor maneira; determinar o todo da vida a cada momento, não como algo fugaz, mas como matéria que se molda. Tal como o escritor faz com a linguagem. Com esse princípio estético, talvez haja mais chances de conformar a vida do ponto de vista ético, social e político. Não é isso que parece nos fazer tanta falta hoje?

No discurso de abertura da FIL, uma das maiores feiras de livros do mundo, proposta há 30 anos e organizada desde então pela Universidad de Guadalajara, uma instituição pública e gratuita de ensino superior, mencionou-se uma frase do escritor cubano José Martí, que deixo aqui como chave de leitura para A montanha mágica: “La muerte no es verdad cuando se ha cumplido la obra de la vida.”

Imagino que a Marina Macedo e o Norman Manea possam concordar comigo quanto à afinidade entre essa frase e a pirâmide de papel erigida por Thomas Mann. Nessa pirâmide – ou melhor, nessa Montanha – cada um de nós aprende a ser regente da própria vida individual e coletiva, aqui e agora, e a desconfiar dos faraós preocupados em obrigar todo mundo a viver em função da morte que só ele quer celebrar. Faraós megalomaníacos talvez dessem à morte o “poder sobre seus pensamentos” que Hans Castorp e o narrador de sua história tanto vão abominar. Boa viagem a Davos!

* * * * *

Paulo Astor Soethe é professor de língua e literatura alemãs na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. Traduziu obras de Jürgen Habermas e Karl-Otto Apel, entre outros, e o romance Pontos de vista de um palhaço, de Heinrich Böll. Revisou e atualizou a tradução de Herbert Caro publicada na nova edição de A montanha mágica, lançada pela Companhia das Letras em 2016, onde também assina o posfácio do livro. Em 2015, foi agraciado com o prêmio internacional Jacob e Wilhelm Grimm, do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico. 

Neste post