A reação dos escritores a Trump

Martha Batalha

Sim, é tudo muito ruim. O relógio do apocalipse, dispositivo simbólico mantido por cientistas da Universidade de Chicago, adiantou-se 30 segundos para perto do fim do mundo. Stephen Hawking disse que vivemos os últimos séculos do planeta – é melhor os humanos começarem a procurar outro lugar para morar. Os roteiristas dos filmes de James Bond declararam que a realidade superou a ficção, está difícil fazer vilões piores que Trump. O chefe estrategista do presidente mandou a imprensa calar a boca, a conselheira de governo define mentiras como “fatos alternativos”. Americanos humildes perderão seus planos de saúde e mesmo os portadores de green card agora podem ser barrados no país.

Por outro lado é alentador ver a força e resistência da sociedade e instituições americanas, por meio de passeatas, mandatos judiciais, trabalho voluntário, doações para campanhas e programas sociais. É também um momento de intensa produção intelectual e jornalística, em que as mídias americana e inglesa excedem na produção de informação com qualidade e principalmente integridade.  

O que segue são trechos de declarações sobre Trump de alguns dos principais escritores americanos e ingleses. Foram feitos no calor dos acontecimentos e carregam raiva, revolta, indignação, bom senso e esperança. Eles ajudam a entender o momento e servem para lembrar que a literatura será um dos melhores consolos para os próximos anos.

Stephen King (no Twitter, logo após o resultado da eleição) Por enquanto não vou mais recomendar livros, falar de política ou postar fotos de cachorro. Preciso me desligar por uns tempos. Uma última coisa antes de eu desaparecer: uma placa comum nas lojas de antiguidade diz o seguinte: “Se você quebrar, você paga”.

George Saunders (em uma newsletter sobre seu novo livro) – Dias estranhos na República, mas eu tenho um mantra que planejo repetir pelos meses e anos que virão: “A verdade ainda é verdade, a crueldade ainda é crueldade, o amor ainda é amor”.

Paul Auster (para o LitHub) – É uma das coisas mais deprimentes que já testemunhei como americano. O que espero é que surja uma nova geração de ativistas. Temos que estar vigilantes, porque se Trump fizer tudo o que prometeu vamos perder o país. As instituições que tratávamos como prédios de granito vão se mostrar feitas de sabão, e quando começarem a atirar água com suas mangueiras elas cairão, e só restará espuma nas ruas. É realmente muito assustador.

Chimamanda Ngozi Adichie (New Yorker) – Agora é o momento de elevar a arte de questionar. O único ressentimento válido na América é o dos homens brancos? Se acharmos válida a ideia de que as ansiedades econômicas levam a decisões questionáveis, isso se aplica a todos os grupos? Que grupos exatamente são a elite?

Agora é o momento de descartar o cuidado que se assemelha a uma falta de convicção. Lembrar que o nazismo não é extremo, é a resposta dos que sabem que a História é feita de contexto e avisos.

Toni Morrison (New Yorker) – Na América de hoje a convicção dos brancos de sua superioridade natural está se perdendo. Há “pessoas de cor” por toda a parte. E o quê, então? Outro presidente negro? Um senado predominantemente negro? Três juízes da Suprema Corte? A ameaça é assustadora.

A fim de conter uma mudança insustentável, e devolver à cor branca o seu status anterior, alguns americanos brancos estão tendo que se sacrificar. Estão fazendo coisas que no fundo não querem fazer, como 1- abandonar o senso de dignidade, 2- arriscar parecerem covardes. Por mais que odeiem seu comportamento e saibam perfeitamente o quanto isso é covarde, eles estão dispostos a matar as crianças da escola dominical e abater os fiéis que convidarem um menino branco para rezar. Para eles é constrangedor, mas estão dispostos a atear fogo às igrejas e atirar nos membros em oração.

Os sacrifícios dos homens brancos mostram que estão dispostos a abandonar sua humanidade por medo de homens e mulheres negros. Os sacrifícios sugerem o verdadeiro horror da perda de status.

Atul Gawande (New Yorker) – O país escolheu um líder que vive pelo código oposto a valores como decência, razão e compaixão. Será um longo e frio inverno, mas os sinais mostram que os eleitores não estavam rejeitando os valores. Estavam rejeitando as elites que não estenderam aos eleitores estes mesmos valores. Setenta por cento da população adulta ativa americana não têm diploma. Para muitos, a elite de políticos, professores e corporações não era capaz de lhes oferecer uma visão de mundo moderna em que eles ocupassem um lugar de respeito.

David Remnick (em um editorial histórico da New Yorker) – A eleição de Donald Trump é uma tragédia para a República e para a constituição, e um triunfo das forças internas e externas de nativismo, autoritarismo, misoginia e racismo. É um fato repugnante na história dos Estados Unidos e da democracia. Em janeiro de 2017 diremos adeus ao primeiro presidente afro-americano – um homem íntegro, digno e generoso – e testemunharemos a tomada de poder por um homem falso, que não fez nada para rejeitar o endosso de forças da xenofobia e supremacia branca. É impossível reagir a este momento de outra forma se não com repulsa e profunda ansiedade.

Zadie Smith (em um discurso em Berlim, após receber o Welt Literature Prize) – A História do mundo é feita de brutalidade, assassinatos e extinção em massa. Mas ainda existe o progresso. Pode parecer pouco para aqueles com perspectivas apocalípticas, mas para uma mulher que até pouco tempo não podia votar ou beber da mesma fonte que cidadãos brancos, ou se casar com quem desejasse, esses pequenos progressos parecem imensos. O que eu teria feito – ou melhor, o que teriam feito comigo se eu tivesse nascido em 1700, 1800 ou mesmo 1960?

O mundo mudou, mas a história não se apaga por mudanças, e exemplos do passado ainda trazem novas possibilidades para todos nós. Oportunidades de refazer para a nova geração as condições que nos beneficiaram. Nem eu nem meus leitores vivemos no mundo relativamente feliz descrito em Dentes brancos. Mas a lição que eu aprendo não é que as vidas do romance são ilusórias, mas que o progresso nunca é permanente – será sempre ameaçado e precisa ser reforçado e recriado para sobreviver.

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Martha Batalha nasceu em Recife em 1973, e cresceu no Rio de Janeiro. Jornalista com mestrado em literatura pela PUC-Rio e em Publishing pela NYU, trabalhou em jornais como O Globo e criou o selo Desiderata, hoje da Ediouro. Vive na Califórnia. Em 2016, lançou pela Companhia das Letras seu primeiro livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão.

 

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