A vida entre tantas linhas

Por Tarso de Melo

Acordar, escovar os dentes, ir para a escola, almoçar, tomar banho, jantar, dormir: nossos primeiros anos de vida são pautados por essas ordens. Por essas “coisas a fazer” de que não podemos escapar. Entre essas ordens que ouvimos das nossas vozes mais próximas, o restante do nosso dia é ocupado com o que bem entendemos ou com aquilo a que nos convidam os amigos: brincar, brincar, brincar. Um belo dia, não sei bem qual, a isso tudo começam a se juntar ordens que vêm de vozes nada próximas (o professor, o patrão, o guarda, enfim, as autoridades que nos cercam na vida adulta) e que vão se transformar na nossa própria voz, no que ordenamos a nós mesmos.

Poucos são os que ouvem, ou melhor, cedem a outras “ordens” que a vida diz em seu ouvido. “Virar adulto”, para a maioria das pessoas, é se transformar em alguém que ordena a si mesmo “acorde, escove os dentes, vá para a escola – e, logo mais, para o trabalho –, almoce, tome banho, jante, durma” e por aí vai, com todas as tarefas que cada etapa da vida nos impõe. Entre elas, o que há em comum é uma lógica da utilidade, tanto de aproveitar seu tempo com atividades necessárias, quanto de não deixar de fazer tudo aquilo que se espera de você. Tudo aquilo em que você não pode falhar. Dureza, né?

Artistas não são pessoas fora dessa lógica. Podem até tentar, mas está ali, nos seus calcanhares, a vida. A vida e suas tarefas. A diferença talvez esteja apenas na forma como lidam com os convites todos que ouvem: descuidam dos obrigatórios, riem dos úteis e, não raro, mergulham nos mais improváveis. Sim, toda pessoa ouve, aqui e ali, o convite do prazer, da fúria, da invenção, da surpresa, das paixões todas de que a vida também é feita, mas que normalmente ficam soterradas sob os ponteiros do relógio. Artistas, no entanto, não aceitam bem toda essa disciplina. Ou alguém está disposto a me explicar por que um rapaz chamado Renato Manfredini Jr. decidiu, quando tinha pouco mais de uma década de vida, virar um roqueiro chamado Renato Russo, pegar seu violão, soltar a voz de trovador e esperar do mundo aplausos tão ensandecidos quanto aqueles que, de fato, recebeu?

Quando se passeia pelos cadernos de Renato, chamam atenção as listas em que anotava suas tarefas – do dia, da semana, da vida. E é impressionante como nessas listas se misturam as ocupações mais corriqueiras e as ambições mais colossais. As listas de “coisas a fazer” de Renato têm de quase tudo: de comprar um apartamento a trabalhar em canções novas, de arrumar novas estantes a “fazer esta depressão ir embora”. E a linguagem delas também varia bastante, porque, entre as tarefas anotadas de modo mais ou menos objetivo, Renato às vezes inclui nas listas alguma bronca em si próprio (abrindo uma linha também das “coisas a não fazer”) e comentários sucintos a uma ou outra tarefa.

Uma curiosidade dessas listas de Renato é que, com o passar do tempo, seu mergulho já era tão grande na vida artística, naquilo tudo que envolvia a criação e suas canções, que as listas passam a ser uma espécie de lastro com a realidade, com as coisas da vida prática. Nesse sentido, é o avesso das listas de uma vida comum: enquanto a vida da maior parte das pessoas se reduz às obrigações e suas listas (quando as fazem) são repletas de sonhos, a vida de Renato era sonho e, em alguns momentos, pesadelo, e suas listas passam a ser também o lugar em que lembra a si próprio da “realidade”: durma mais, alimente-se melhor, pague aquela conta, beba menos e por aí vai.

Durante a organização de O livro das listas, chamou atenção também a forma como Renato procrastinava algumas tarefas, que aparecem sempre da mesma maneira em listas durante meses, até anos. Mas, de outro lado, também emocionava ver que, num dia qualquer, ele anotou entre as “ideias para novas canções” o título de uma canção que hoje sabemos de cor. Uma das suas tantas canções que passaram a morar nas mais variadas listas de “favoritas de todos os tempos”, como ele mesmo gostava de anotar.

Mesmo na era dos smartphones, o hábito das listas em papel não parece ter perdido a força. Não falo apenas por mim, que muito antes do celular já tinha o hábito de anotar num papelzinho avulso as tarefas do dia (ligar para alguém, comprar algo etc.) e nas cadernetas as tarefas e ideias que podem esperar um pouco mais. Tenho reparado como o espaço dedicado a cadernos, cadernetas, canetas e lápis tem aumentado nas livrarias. Aliás, lojas novas dedicadas apenas a esses artigos importados de papelaria são um verdadeiro pesadelo para quem cobiça um caderninho, como se nas páginas em branco dele estivesse a salvação para todos os bloqueios e confusões que carrega na cabeça.

Dia desses, falando com um amigo sobre a mania de anotar listas no caderninho que está sempre ao alcance da mão, ouvi (e desprezei) a indicação de um aplicativo que era bem mais prático... Mas uma amiga me perguntou: “já ouviu falar em bullet journal?” Curioso, corri para o Google para conhecer e descobri um universo maluco de métodos para anotação, cursos sobre como organizar sua vida em cadernetas, com canetas e etiquetas de várias cores, enfim, um paraíso em forma de papelaria. E fui clicando e clicando nas imagens de infinitas cadernetas que não foram escritas no século passado, mas exatamente na época em que cerca de 2 bilhões de smartphones são vendidos por ano!

Por preguiça e incompetência, não vou aderir àqueles métodos, nem acredito que tenha um método nas minhas anotações. Acho que minhas cadernetas têm uma função diferente daquelas todas voltadas para a organização e a “otimização” (palavra horrível!) do tempo. Há, claro, um pouco de organização nelas, mas há fundamentalmente a preocupação de guardar informações: livros e discos e filmes que me indicaram, coisas que quero escrever, ideias que me bateram mais forte, projetos de todos os tipos que não gostaria que fugissem da memória – porque, na era dos celulares, parece mesmo que tudo foge. É isso: uso as cadernetas como uma forma de ajudar a memória, de não perder informações (e, por isso, pensar em perder uma caderneta é bem parecido com um pesadelo!).

É inevitável imaginar o que seriam dos cadernos de Renato Russo se aquele rapaz aceleradíssimo tivesse um tablet, um notebook, um smartphone ao alcance das mãos. E ainda mais: se ele tivesse blog, Facebook, Instagram, Twitter, essas coisas todas que não eram nem sonho em 1996, quando Renato morreu. Ele podia ter feito bem mais coisas, mas talvez não tivesse feito nada, engolido que somos pela dinâmica enlouquecedora dessa parafernália. Os cadernos de Renato, por sua vez, eram parte de sua cabeça: de seu corpo e de sua alma. Entrar neles é ter acesso a um Renato vivo até hoje.

Não sei se vocês que vão ler O livro das listas são daqueles que saem da livraria não apenas com livros cheios de palavras escritas por outras pessoas, mas também com “livros em branco” em que anotarão as suas próprias palavras, as suas próprias listas, a sua própria vida. Num caso e no outro, a viagem pelo universo das listas de Renato Russo, com tudo que tem de ordem e de caos, de sonho e de projeto, de íntimo e de espetacular, tem tudo para ser inesquecível. Como tudo que ele fazia. Pode tomar nota.

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Tarso de Melo é poeta, autor de Poemas 1999-2014 (Dobradura, E-galáxia, 2015) e Íntimo desabrigo (Alpharrabio, Dobradura, 2017). Da obra de Renato Russo pela Companhia das Letras, organizou The 42nd St. Band (2016) e, com Sofia Mariutti, O livro das listas (2017).

 

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