Algumas notas sobre Elvira Vigna

Por Carola Saavedra

Foto de Renato Parada.

 

1.
A primeira vez que li Elvira Vigna eu ainda morava na Alemanha. Numa das constantes viagens ao Brasil, flanando pelo centro do Rio (se é que isso é possível), encontrei num sebo um exemplar de O assassinato de Bebê Martê, comprei pelo título, não tanto pelo assassinato, mais pelo Bebê Martê. Li ainda no avião. Há algo indispensável em leituras de avião, especialmente no meu caso, que tenho fobia, o livro precisa prender desde o início a atenção, e ao mesmo tempo ter a complexidade necessária para que o interesse se mantenha. O livro de Elvira era perfeito, e fui assim agarrada a ele sobrevoando o Atlântico. Talvez já estivesse sobre a Ilha de Madeira (por algum motivo o piloto sempre avisava, estamos sobrevoando a Ilha de Madeira), quando pensei, então isso é possível? Dessa forma? Bebê Martê é uma história de espelhos.

2. 
Na viagem seguinte, procurei outros livros, comprei Deixei ele lá e vim. Novamente um assassinato. Nada é o que parece, penso, após a leitura. Mais tarde, muito mais tarde, leio numa entrevista: “Eu não invento uma vírgula” . A frase fica ecoando. Tudo faz sentido. 

3. 
Algum tempo depois, voltei a morar no Brasil, vim trazendo meus dois exemplares (lidos e cheios de anotações) na mala. Comprei Nada a dizer.  Anos depois, num ensaio sobre esse livro, eu escreveria: “À primeira vista, o enredo: mulher de meia idade descobre que o marido tem uma amante vinte anos mais jovem. Mas não, logo fica claro, trata-se de outra coisa. É um texto que exige. À primeira vista parece fácil, mas não. A cada página, apesar da aparente acessibilidade, o que surge é uma construção complexa, porque o que o texto diz não é o que ele dá a entender, o que ele diz está costurado em seu avesso. Há dois livros.” Talvez essa seja uma marca da autora, em quase todos os seus livros, penso agora, essa escrita do avesso. Há muitos livros em cada livro. Guardo todos na estante.

4. 
Posso dizer que me tornei sua leitora. O que caracteriza a sua literatura?, volto a me perguntar, não é simples essa aproximação. Talvez o que mais me encante seja a capacidade de contar uma história, várias histórias, como quem conta a vida, sem subterfúgios, sem concessões. A linguagem direta e clara. E ao mesmo tempo, muito mais do que isso, todo um mecanismo, estruturas narrativas complexas, narradores não confiáveis, acontecimentos que se repetem, que nunca são o que parecem, essa constante anulação das nossas certezas. Na literatura de Elvira Vigna, nada é definitivo, nada se esgota, como se os personagens continuassem, mesmo depois de terminado o livro, reconstruindo possíveis versões. Nós leitores, às vezes, nem sabemos o que pensar, como se até a nossa capacidade de julgamento fosse posta em dúvida. Fechamos o livro nos perguntando, o que aconteceu realmente? Quem são mesmo essas pessoas? Esses personagens? E a certeza de que, apesar da longa convivência (o tempo do romance), nada sabemos sobre eles. Nada a dizer.

5. 
Não a conheci pessoalmente. Em 2016, publiquei um ensaio sobre Nada a dizer na Revista Pessoa. Numa breve troca de e-mails, eu disse, tomara que você goste, ela respondeu, já sei que vou gostar. E eu fiquei mastigando o gosto adocicado dessas palavras. Pouco tempo depois, Elvira faleceu, me veio uma tristeza tão grande, eu não sabia que ela estava doente. Então, sem que eu soubesse meu texto se tornou outra coisa, uma despedida muito pessoal, uma homenagem. A gente nunca sabe exatamente o que as coisas significam.

6. 
Penso na minha tristeza ao saber da morte de Elvira Vigna. É uma tristeza por ela, mas há ali uma tristeza por uma grande autora que, apesar do reconhecimento, especialmente no fim da vida, deveria ter sido muito mais lida, muito mais ouvida, muito mais premiada. E ficam ecoando, amargas, suas palavras numa entrevista: “Não acho que tenha conforto nenhum. A literatura não te oferece conforto nenhum — a boa.”  Talvez ela tenha razão, talvez não, como os personagens em seus livros. Por via das dúvidas, na minha próxima viagem sobre o Atlântico, levo o seu último romance na mala de mão.

***

Carola Saavedra é autora dos romances Toda terça (2007), Flores azuis (2008, prêmio melhor romance pela APCA), Paisagem com dromedário (2010, prêmio Rachel de Queiroz), O inventário das coisas ausentes (2014) e Com armas sonolentas (2018), todos publicados pela Companhia das Letras. Seus livros estão traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão. Está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta.

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