Algumas respostas para algumas perguntas

Por Antônio Xerxenesky

Em meados de 2015, encomendaram-me um romance de terror. Aceitei. Nada parecia fazer mais sentido do que isso no momento; em primeiro lugar, sempre fui um entusiasta do gênero; em segundo lugar, já tinha começado a pesquisar assuntos férteis para uma história de arrepiar os pelos da nuca, como ocultismo, através da série de leituras que Daniel Pellizzari, meu mestre espiritual, me fornecia mês a mês; em terceiro lugar, todos os meus romances até então se inscreviam num gênero desprezado pela crítica séria: faroeste, policial, ficção científica (HQ a ser lançada em 2018 escrita a quatro mãos com Janaína Tokitaka)...

Estava faltando o terror.

Aceitei, como disse.

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Mas as coisas não são fáceis; nunca são fáceis. Em agosto de 2015, comecei a digitar as primeiras páginas do livro. Eu já tinha pesquisado obras historiográficas sobre bruxaria, diários de Aleister Crowley, tratados estapafúrdios sobre teosofia, livros de qualidade questionável que juram que há uma série de sociedades secretas governando nosso mundo. Era fascinante descobrir esse universo que ia da Idade Média e permanecia até os dias de hoje, resistindo a todas as teorias científicas dominantes, mas nada disso pareceu importar, em agosto de 2015, quando comecei a escrever as primeiras páginas de As perguntas, e notei que estava pela primeira vez na minha vida compondo uma obra com fortes tintas autobiográficas.

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Desde criança tenho problemas para dormir. Desde adolescente, tenho um problema que é o seguinte: após um sono inquieto, acordo, abro os olhos, e quando abro os olhos, vejo que há uma sombra no meu quarto, e essa sombra às vezes se aproxima de mim lentamente. Para uma história de terror, a explicação sobrenatural é a melhor; na vida real, prefiro o artigo sobre alucinações hipnopômpicas na Wikipédia, que explica detalhadamente como as tais sombras não passam de imagens residuais do sonho que enganam o nosso pobre cérebro.

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Eu escreveria uma história de uma pessoa perseguida por essas sombras – uma pessoa crente na explicação científica, apaixonada pelo mundo acadêmico capaz de neutralizar qualquer obsessão – que passa por uma crise que a fará questionar suas certezas. Eu tinha uma história, ou um início de uma. A pessoa se chamaria A. Na versão final, por sugestão editorial, ganhou nome. Alina. Que é luz em grego, e que é o nome de uma linda música de Arvo Pärt, cuja única indicação rítmica a quem for executá-la é que Für Alina deve ser tocada “tranquilamente, de maneira elevada e introspectiva”. Mas nada disso importa.

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Três referências/influências literárias: Là-bas, de J. K. Huysmans; Breve romance de sonho, de Arthur Schnitzler; Teatro Grottesco, de Thomas Ligotti. Cada um de uma época, cada um de um país, escritos em diferentes línguas. O que todos têm em comum: um fascínio por rituais, artes sombrias, sociedades secretas; protagonistas que se perdem nas fronteiras dissolvidas entre a vigília e o sono.

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É uma história de terror! Nós queremos seus monstros, seus fantasmas, seus espíritos malignos. Meus livros são muitas vezes classificados como livros de entretenimento, o que não me incomoda; pelo contrário. A cada novo livro, prometo: este será ainda mais divertido. Mas, em agosto de 2015, eu não conseguia bolar essa trama tão rocambolesca e empolgante. Talvez a culpa fosse do cenário: ao contrário de meus outros romances, esse se passaria na minha São Paulo, no ano de 2015. Nada de Velho Oeste. Nade de anos 80. Aqui, agora.

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Em agosto de 2014, um ano antes de começar a escrever o romance, uma amiga muito próxima foi atravessar a avenida Sumaré à noite, mas não chegou ao outro lado da rua. Na manhã seguinte, acordei com um telefonema dizendo que ela tinha sofrido um acidente e não tinha sobrevivido.

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Fui criado sem religião, dividido entre uma família de passado judaico e outra de passado cristão, mas orientado, sobretudo, pela visão de mundo ateia e até mesmo anti-teísta de meu pai.

Quando alguém próximo de nós morre, ainda mais uma pessoa jovem, de forma trágica, nós notamos que todo o cientificismo não é capaz de nos ajudar. Todo discurso de consolo é um discurso de fundo religioso.

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Eu queria escrever uma história empolgante, cheia de plot twists, mais assustadora que qualquer coisa vinda da mente de Thomas Ligotti. Mas, ao me sentar para escrever sobre sombras invadindo o mundo psíquico da jovem Alina, tudo o que me aparecia era esta ideia: para certas pessoas, especialmente aquelas com um certo pendor científico, o ateísmo é a única opção; porém, o ateísmo revela-se, também, uma tragédia inescapável.

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“Esta será uma história de terror. (...) Mas não parecerá. Não parecerá porque sou eu que conto”. Auxilio Lacouture, narradora/personagem de Roberto Bolaño em Amuleto.

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As perguntas é um livro de terror? Sim. Dialoga com todo o cânone, todas as convenções do gênero. É, em parte, uma carta de amor a Dario Argento, minha paixão desde a adolescência, que dirigiu os oníricos Suspiria e Mansão do Inferno.

Mas é, também, uma autobiografia enviesada. Foi o primeiro livro que escrevi sob encomenda. Acabou virando o meu livro mais pessoal.

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Gosto de pensar que evito metáforas óbvias. O livro, assim que sair ao mundo, ganhará vida nas mãos dos leitores, e cada um interpretará o romance de um jeito diferente. Quando eu o escrevi, enxergava-o de uma maneira.

Em setembro de 2016, duas semanas depois de eu entregar a primeira edição do romance à editora, meu pai morreu numa CTI de hospital.

Relendo o livro agora, às vésperas da sua publicação, percebo pela primeira vez que as sombras que perseguem Alina não são necessariamente espíritos sobrenaturais, e talvez não passem do velho e conhecido fantasma da depressão, que, como todo bom fantasma, aparece e desaparece quando menos esperamos.

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As perguntas será lançado em São Paulo no dia 15 de agosto, às 19h, na Tapera Taperá. 

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Antônio Xerxenesky é um escritor e tradutor brasileiro. É autor, dentre outros, de F (2014), finalista do Prêmio São Paulo. Atualmente cursa o Doutorado em Teoria Literária na USP, onde estuda a obra de Roberto Bolaño. Lança As perguntas pela Companhia das Letras em agosto. 

 

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