André Diniz

Érico Assis

Acho que o primeiro quadrinho que li dele foi Subversivos, lá pelo início dos 2000. Ou Fawcett, da mesma época. Eram gibis – em formatinho de gibi – que se comprava só em loja especializada. Pelo correio, quem sabe? Ele já vendia pela internet?

André Diniz. Do nada – ou “do nada” pra mim, pois ele já fazia quadrinhos há algum tempo –, o nome dele começou a pipocar em quadrinhos brasileiros independentes e na discussão sobre quadrinhos brasileiros independentes. Que eram poucos e valentes, na época.

A impressão era de que o Diniz era o cara ao qual os desenhistas podiam pedir um roteiro quando não estavam a fim de escrever. “Roteiro de André Diniz” acompanhou álbuns de Laudo Ferreira Jr., José Aguiar, Flávio Colin. Até que o Diniz resolver que também ia desenhar.

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“Seria ingênuo querer reproduzir O idiota, escrito por um mestre da literatura russo do século 19 em uma HQ feita por um brasileiro do século 21, desenhada em um iPad Pro”, Diniz me contou numa conversa por Messenger.

No prefácio de O idiota, Bruno Barreto Gomide comenta que as adaptações do Fiodor Dostoiévski para o teatro ou o cinema tendem para a verborragia. É uma forma de se equiparar à verborragia do livro. A edição brasileira da Editora 34, por exemplo, tem quase 700 páginas de pura prosa.

Diniz resolveu que seu Dostoiévski em quadrinhos teria o mínimo de palavras. Entre idas e vindas com o projeto, mais recomendações de seus primeiros leitores, a HQ ganhou alguns balões de fala. Mínimos.

“O grande recurso dos quadrinhos é a combinação de uma narrativa impressa feita mais para mostrar a história do que para descrevê-la (como é a literatura), que se vale do expressionismo dos desenhos como estética mas também como narrativa.”

Uma das decisões que Diniz tomou e manteve durante toda a produção é que faria seu O idiota, não o de Doistoiévski. E ler O idiota versão André Diniz exige mais atenção que ler O idiota versão Dostoiévski.

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Subversivos tinha as células de resistência armada à ditadura militar no Brasil. Fawcett contava a história do explorador inglês que se perdeu na Amazônia. 31 de fevereiro imagina o Brasil governado por Carlos Lacerda. 7 Vidas foi um relato autobiográfico sobre a experiência com a terapia das vidas passadas. Morro da Favela, a biografia de um fotojornalista que cresceu no Morro da Providência. Que Deus te abandone inspira-se na tragédia recorrente das enchentes no Rio de Janeiro. Duas luas é sobre um dono de bar perdido entre sonho e realidade. Matei meu pai e foi estranho é a história de um garoto desajustado numa família desajustada.

Não listei nem metade do número de obras de Diniz e já se tem a impressão de que (1) não faltam histórias para ele contar e (2) fora um ou outro elemento que pode se repetir – o Rio de Janeiro, os personagens de classe baixa, a importância dos sonhos – é difícil achar uma linha que una todos os trabalhos.

Diniz discorda. “Creio que todos os meus trabalhos têm o foco em um protagonista com defeitos, fragilidades e ambição e a sua jornada nem sempre heroica. O personagem que quer provar que pode e acaba provando que não pode. Ou que busca uma conquista mas essa conquista tem um gosto amargo. Um embate entre sonhos e mundo real. Em boa parte dos casos, com toques de humor, tornando essa busca mais patética.”

Talvez seja por isso que o ingênuo e quixotesco idiota Liev Míchkin acabou merecendo atenção do Diniz.

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Esses dias, Diniz estava comentando no Facebook uma ideia que ouviu da Laerte: passar dois meses produzindo uma HQ que será lida em cinco minutos pode ser desmotivação. E ele realmente se desmotivou. O idiota, por exemplo, ele começou em 2010.

Mas, pensando melhor, resolveu discordar. “Laerte inspira até quando a gente discorda”, comentou.

“A questão é que Laerte fez histórias que, de fato, foram lidas em cinco minutos lá nos anos 80 e 90. Mas que são comentadas e lembradas até hoje. Essas HQs, afinal de contas, foram lidas em cinco minutos? Ou foram e continuam sendo lidas ao longo de 30 anos?”

Curioso que um cara como ele, com tantas histórias contadas, tantas histórias pra contar, que acaba de adaptar uma história produzida há um século e meio e que continua sendo lida depois de um século e meio, ainda tenha uma dúvida dessas.

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O fabuloso quadrinho brasileiro de 2015 (editora Narval) e, para a Quadrinhos na Cia., traduziu, entre outros, Desenhados um para o outro

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