"Aqui", aqui

Érico Assis

Tem um conhecido, também tradutor de quadrinhos, que declarou a inveja por eu ter traduzido Aqui, de Richard McGuire. “Olha aquilo! Trezentas páginas, dois ou três balões em cada uma!”

A inveja talvez tenha a ver com remuneração. A maioria das editoras paga tradução de quadrinhos por página, independente da quantidade de texto na página. A inveja, nesse caso, é injustificada: a Quadrinhos na Cia. paga por quantidade de texto, ou laudas. Também pode ter a ver com o tamanho. Aqui tem 297 páginas, várias delas com pouco ou nenhum texto. Quadrinhos contemporâneos têm, na média, uns duzentos a quatrocentos toques (caracteres + espaços) por página. Aqui tem, na média, quarenta.

Não que eu queira regular a inveja dos outros, mas minha sorte e honra de traduzir Aqui não têm a ver com o tamanho ou remuneração. Como em qualquer tradução, importa o que você tem que traduzir nessas poucas ou muitas laudas, páginas etc. E nunca é fácil.

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Já escrevi aqui sobre Aqui quando ela era “Aqui”. Foi aqui, em 2011. Na época, escrevi o texto sobre essa HQ curtinha para falar de sua importância histórica inversa às suas parcas seis páginas. Richard McGuire, o autor, tinha exposto uma possibilidade inexplorada nos quadrinhos.

Temos um canto de uma sala, sempre o mesmo canto, da mesma sala, que é visto em vários momentos do século 20. Com o avançar da história, vemos este mesmo canto de sala no passado distante – até com dinossauros – ou no futuro. Mais à frente, pequenos inserts de passado ou futuro começam a se sobrepor à época principal retratada no quadro.

É uma jogada metalinguística que tem a ver tanto com a transição do tempo na “sarjeta” – o espaço entre os quadros de uma HQ – quanto ao fato de que quem manipula o tempo numa HQ é o leitor. O tipo de coisa que, até prova em contrário, só se faz em quadrinhos. “Aqui” virou referência de todo quadrinista, crítico e estudioso a partir de seis páginas.

Em 2011, dizia-se que Richard McGuire ia transformar “Aqui” em uma história maior, um álbum ou graphic novel. O livro acabou aparecendo em 2014, quando aquelas seis páginas completaram 25 anos. A edição brasileira saiu na semana passada. “Aqui” agora é Aqui.

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Abra as páginas 134 e 135. Bom, como não há paginação, é melhor você abrir no meio do livro e voltar um pouco, identificando “1949” no canto superior esquerdo.

Ali tem um dos ecos que McGuire trabalha no livro: xingamentos que foram ditos naquela sala ao longo da sua história. Em inglês há drip, doofus, klutz, dipshit, shithead, nerd, dweeb etc. Cada um vem de uma época: square é de 1957; jerk, de 1968; wacko, de 1977; geek, de 1984; nerd, de 1950.

Não li McGuire falando especificamente sobre esta dupla de páginas, mas li ele comentando sobre outras cenas da HQ e de pesquisa histórica aprofundada. O canto de sala é baseado em um canto da sala de estar na casa de seus pais em New Jersey. McGuire pesquisou que tribos indígenas poderiam ter andado por ali e que língua falavam; que personalidades históricas (como Ben Franklin) teriam passado por perto; se a Guerra da Secessão teve alguma batalha por ali.

Supus que a datação naquelas páginas dos xingamentos também se baseava numa pesquisa linguística profunda. E que eu, diligentemente, devia pesquisar a datação de xingamentos em português que se adequassem ao tom e à época.

Bom, o Ngram Viewer (obrigado, Caetano Galindo!) me disse que as datações do original provavelmente eram aleatórias. Parece que McGuire decidiu por conta própria que “kook” era um xingamento comum em 1950, ou “geek” em 1984. Meu problema se mantinha: como achar xingamentos em português que se justifiquem em determinada época? Montei uma lista de vitupérios, de cabeça e com dicionários de sinônimos, e fui procurar a datação de cada um no Houaiss. Não ajudou muito, mas deu mínima segurança. Mínima.

É daí que saíram “coió”, “pinel”, “bocaberta”, “cafajeste”, “bestiola”, “caxias” etc. “Azêmola” e “sacripante” também, se revisor/preparador ou editor não mexeram. Dezessete palavras, em um livro de 1700, que deram mais trabalho que todas as outras.

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McGuire deu uma entrevista ao crítico Xavier Guibert pouco depois de Aqui ser lançada na França. No ano passado, a obra ganhau o Fauve d’Or, o prêmio de melhor álbum do ano no Festival d’Angoulême. Trecho de uma resposta de McGuire:

“Acho que devíamos ficar mais atentos ao que acontece ao nosso redor, nos centrar mais. Mas acho que isso demanda esforço. Nossa mente está carregando informação toda hora. Acho que estamos sobrecarregados. Isso é uma coisa que já comentaram comigo. Falaram de Boyhood, o filme, e de… Tem outras coisas saindo que são parecidas com Aqui, e aí me dizem: ‘Por que tudo isso, agora, ao mesmo tempo?’ E me parece que é por estarmos tão sobrecarregados que essas coisas… O fato de que você tem acesso ao histórico de qualquer coisa em um instante, essa realidade múltipla… essa é a nossa vida.”

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

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