As 15 coisas confirmadas que agora são fato sobre meu novo livro

Luisa Geisler

Quando comecei aqui no blog, em setembro de 2015, eu estava escrevendo um livro. Isso foi antes de eu sequer saber que entraria em um mestrado na Irlanda. Eu morei na Irlanda. Estudei em Dublin, Cork, Limerick, Galway, virei especialista em sidra (e não cerveja), aprendi que guarda-chuvas são para amadores, li autores que de tão locais eram publicados só em Cork, Limerick ou Galway. Em setembro de 2015, eu sabia que estava escrevendo um livro. Este livro no meio do processo precisou parar e meio que voltar à página um. Ele teve 700 páginas de Word. Perguntem para os meus editores.

Mas, antes de tudo isso, em setembro de 2015, eu escrevi um post. Era um post sobre o que eu sabia do meu livro novo. Era este post aqui. E neste mês, lanço De Espaços Abandonados, o livro resultante dessa bagunça. Se você não o conhece, eu recomendo. Acho que é meu livro mais ambicioso, mais esquisito (e eu escrevo livros esquisitos), mas que mais funciona internamente. O “como” a história é narrada e a história em si estão muito ligados. O “onde” funciona bem. O livro não poderia existir fora do contexto de brasileiros na Irlanda.

Um resumo oficial ficou: "De espaços abandonados é um mosaico narrativo de várias vozes, um livro sobre procurar alguém e se perder no processo. Nele, Luisa Geisler constrói com maestria uma trama complexa com personagens envolventes que desafiam os limites das páginas." Se você quiser mais detalhes, se quiser comprar, este link explica bem.

Resolvi revisitar o post, reler o que eu achava que sabia do livro, corrigir onde pudesse e dizer o que de fato sei, agora que o livro está escrito e publicado, sobre a história. Vou comparar a lista anterior e corrigir a Luisa do passado, com um livro incompleto, onde puder.

 

1.

    Eu queria que o livro tivesse imagens. Ele tem três fotos, incluindo um anúncio de colchões em português no meio de Dublin.

 

2.

    O parágrafo abaixo é exatamente, copiado e colado, do post sobre “o que eu achava que o livro seria”. O conceito permanece este.

    “Existe um fenômeno que se chama exploração urbana. São pessoas com câmeras fotográficas que vão a lugares abandonados e tiram fotos. É arriscado (porque ninguém faz manutenção, entre outros) além de ilegal (porque é invasão de propriedade privada, entre outros). A comunidade de gente que fotografa esses lugares é grande, troca ideias, mapas e sugestões. Como ilustração, recomendo buscar no Google lugares como Hashima Island, Nara Dreamland e, claro, as cidades de Chernobyl e Pripyat.

É um fenômeno muito comum no Japão, por conta da industrialização rápida, bolha imobiliária, danos causados por guerras. Por isso, exploração urbana é chamada também de haikyo. Literalmente significa “lugar abandonado”, mas virou sinônimo para a atividade de exploração urbana em si.

    O livro tem algo com isso.

Com personagens e coisas abandonadas no geral, quer dizer.”

 

3.

    Eu achava que teria quatro partes. Tem três.

 

4.

    Eu queria ter a primeira parte pronta até junho de 2016. Eu soube em março de 2016 sobre minha aprovação do mestrado. Foi meu primeiro e-mail pedindo extensão de prazo. A ideia era acabar o livro no final de 2016. Aqui entra uma trilha sonora de risos, tipo aquelas de sitcoms.

 

5.

No item 5 do post de 2015, eu dizia: “Ou seja, falta um tempo para terminar tudo-tudo.”. Ô, se faltava.

 

6.

    A possibilidade todo mundo odiar um livro tão experimental (em comparação ao que eu faço normalmente) me apavora demais.

 

7.

    Acabei cada vez mais desgostando da ideia de título “Haikyo”. Achar um título para o livro novo foi impossível. Eu fiz enquetes no Instagram. Ninguém gostava de nada e, além disso, xingava os outros títulos. Acabei decidindo por “De espaços abandonados”. A ideia original era “Manual de abordagem da escrita e de outros espaços abandonados”. Achei meio longo e com cara técnica, mesmo que ironicamente.

 

8.

    Este item no blog do post é: “Na verdade, pode ter três partes.”. Eu me sinto aquelas videntes que falam o resultado da Copa do Mundo vendo minhas resoluções malucas se confirmando.

 

9.

    O lance com a cegueira foi quase abandonado por completo. Tem algo com visão, mas não muito.

 

10.

    Conforme o post original do blog. “A exploração urbana na Irlanda não é tão urbana. O que mais se acha na Irlanda são castelos abandonados. “. Luisa do passado não era tão ingênua.

 

11.

    Eu achava que teria 400 páginas de Word, ele chegou ao editor com 600 (de Word). Cortamos coisas e após a diagramação, fiquei com 400 páginas de livro mesmo. O ciclo se fechou, de alguma forma. Minha agente achava ambicioso e na época, eu não achava. Hoje acho ambicioso até demais.

 

12.

    A protagonista se chama Maria Alice. “Tarsila” começou a me parecer um nome artificial, literário demais. Não que Maria Alice não seja.

 

13.

    Sobre a estrutura do livro, eu disse: “É tipo como se o Quiçá tivesse um irmão que treina, come batata doce e frango, toma Whey Protein e fala VAMOs VIRAAAr MONSTROOOO.” Está certo, mas não do jeito que eu achava. Acabou que eu inseri um manual de escrita dentro do livro. O livro é narrado dentro das perguntas e “convites à escrita” feitos dentro do manual. Então a estrutura, sim, é mais aleatória que a do Quiçá. Mas não tem muito a ver com a dele no final das contas.

 

14.

    No post original: “Eu não devia sair por aí falando do livro porque daqui a pouco vou mudar tudo e as pessoas podem me cobrar. “

    Eu tive que superar este medo de “as pessoas vão me cobrar se eu mudar o livro”. As pessoas se interessaram pelo fato de que eu mudei o livro, de que eu fui para Irlanda, que o livro implodiu, que eu precisei de mais prazo. Eu nunca deveria ter me preocupado com melhorar algo, demorasse o tempo que demorasse.

 

15.

    No post original do blog: “A ver”. A ver.

 

***

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira(finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, De espaços abandonados foi publicado pela Alfaguara em 2018. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

 

Neste post