As ideias que se escondem atrás do arco-íris

Luisa Geisler

Foto: Dream Perfection/ Shutterstock.com

Eu não sei de onde vêm ideias. Eu fiz todo um mestrado construindo e desconstruindo processo(s) criativo(s) (com ênfase nessa pergunta literária) e nada. Eu não sei. As perguntas “O que te inspira?” e “De onde vêm suas ideias?” são clássicos para qualquer autor que já lidou com uma entrevista ou um público maior de duas pessoas. E nem precisa ser um público oficial: minha mãe já muito perguntou “da onde tu tira essas ideia” (sic). E eu não sei.

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Era inverno na estação do Trensurb Canoas/La Salle. Enquanto eu subia a passarela ouvindo o podcast humorístico sobre serial killers My Favorite Murder, um panfleto invadiu minha frente. Peguei o panfleto por reflexo. Soquei-o no bolso e segui.  Era um panfleto sobre limpeza e conserto de ar-condicionado. Enquanto passava meu cartão Sim na catraca, fiquei pensando quem limparia um ar-condicionado no inverno. Quem contrataria esse serviço? E quem prestaria? Por que não estufas? Em Porto Alegre, há um boato de que anúncios de “consertam-se gaitas” são de clínicas de aborto. Comecei a imaginar a história de um assassino em série que mata através de algum poluente de ar inserido no ar-condicionado.

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Estava na cama com meus gatos lendo o livro Contos completos, de Caio Fernando Abreu. São três gatos, e cada um tem um gosto muito específico por um ângulo na cama. Um gosta de ficar entre as pernas, acolchoado em calor. Outro gosta da ponta da cama, o que faz com que eu ache que ele não está ali e lhe dê chutes ocasionais sem querer e peça desculpas logo em seguida. Uma terceira gosta de fazer conchinha. Em algum ponto dessa cama, meu namorado também precisa de seu espaço vital. Comecei a imaginar uma cama maior. E se fosse um relacionamento de dois homens gays? E se fosse um relacionamento que cada vez adota mais gatos, para ficar cada vez mais distante um do outro na cama? E se um dos protagonistas fosse viciado em tirar cartas de tarô, que na verdade fossem o que estivesse levando-o a adotar mais e mais gatos?

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Estava lavando o cabelo, ouvindo a trilha sonora de Hamilton. Pensei que alguém poderia fazer um musical com a vida do Samir Machado de Machado, cheia de referências à cultura dos anos 80 e dinossauros.

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Eu consigo ver uma relação, mas só até certo ponto. Existe um momento em que a ideia existe por existir. Por mais que eu advogue por uma certa metodologia de trabalho, rotina e controle dentro da criação, por mais que meu método seja controlado e com tabelas no Excel, sempre existe o ponto em que não é mais.

Por exemplo, o Luzes de emergência se acenderão automaticamente é um romance cuja soma de ideias resultou em algo que eu gostasse. Eu queria: um livro narrado em cartas, que se passasse em Canoas, com um protagonista sexualmente confuso. Mas a partir de que ponto o interesse romântico (se é que podemos chamar assim) Dante virou Dante? De novo, leitores são os primeiros que apontam as falhas no que eu acho que é um raciocínio muito bem pensado. Há, é claro, escolhas bastante pensadas e teorizadas por mim mesma. Por exemplo, Canoas é uma cidade cortada ao meio, dividida, assim como o protagonista Henrique. Isso foi arbitrário. Mas por que Dante mora em Esteio, e não em Canoas, como a maioria dos outros personagens? Por que não Sapucaia ou São Leopoldo, outras cidades da Grande Porto Alegre? Por que cito letras dos Raimundos em quase todos os meus romances, de uma forma ou de outra? Acho que porque nem tudo pode ser arbitrário.

Brinco que às vezes há algo de fermentação de cerveja. Você coloca as ideias ali e vê se interagem entre si. Você filtra as que não vingam ou, como louro no arroz, você coloca na hora de cozinhar e tira na hora de comer. E a própria fermentação da cerveja é um processo muito científico, muito preciso. Mas ao mesmo tempo, existe um feeling, um olhar, o saber o “ponto da massa do pão”. Sei que agora estou falando de fermentar cerveja, fazer arroz e fazer massa de pão. Peço desculpas aos deuses do carboidrato e torço para que as comparações façam sentido em algum aspecto.

Eu não sei. Não quero mais enganar ninguém. Não sei de onde ideias vêm e, para piorar, não sei para onde vão. Os leitores, vocês, são melhores que eu nisso. Algumas eu conheço a origem, algumas eu trabalho de forma incansável. Mas algumas só invadem uma manhã fria no Trensurb como se fossem um panfleto pra limpeza de ar-condicionado.

 

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira(finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, De espaços abandonados foi publicado pela Alfaguara em 2018. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

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