As linhas da ira

Por Mateus Baldi

A violência é como a poesia, não se corrige.
Roberto Bolaño

A Companhia das Letras lança na próxima semana a antologia 50 poemas de revolta. Em suas quase 150 páginas, 34 poetas de diferentes épocas e movimentos artísticos se misturam para tentar abraçar um mesmo feixe de luz, ainda que tardia: o Brasil. Princesinha do mar, a terra de Vera Cruz é uma ruptura na lógica do espaço-tempo. Semelhante ao que acontece aqui, talvez só na Rússia, e ainda assim muitos tons – e graus – abaixo. Em qualquer cenário possível, analisar o Brasil parece tarefa hercúlea. As coisas não fazem muito sentido, posições são aceitas e desfeitas com a mesma naturalidade e parecemos ter uma eterna vocação para perpetuar o festival de besteiras que nos assola desde sempre.

Portanto, a existência de uma antologia que se propõe a reunir nomes como Oswald & Mário de Andrade, Vinicius de Moraes, Ferreira Gullar, Adelaide Ivánova, Ledusha e Chacal não pode ser nada além de provocação das boas. Ler os 50 poemas de revolta é garantir que o Brasil se insira em uma tendência já consolidada mundo afora. Lembro de percorrer livrarias em Buenos Aires, Roma e Nova York e constatar volumes específicos de reuniões poéticas. Sob temas cuidadosamente escolhidos, aqueles livros pareciam o tempo todo fazer ruído, provocar o leitor a abri-los e refletir, gerações unidas, sobre o que quer que fosse. 50 poemas de revolta é quase a mesma coisa. E digo quase porque o leitor não-habitual pode estranhar a disposição dos poemas. Poderiam ter sido escritos ontem. Um enorme Febeapá de linhas partidas. Vejamos:

Armando Freitas Filho satiriza e questiona o hino de uma nação que já nasceu estropiada, Waly relembra a Síria e despeja umas tintas de melancolia que o passado jamais poderia prever – as bombas-notícia, ah, as bombas (e sobre elas, também oportuno, se debruça Vinicius de Moraes no consagrado Rosa de Hiroxima, sem cor, sem perfume, sem nada, ao que Drummond, desprovido de armas, munido de nada, indaga se é possível revoltar-se: sim, responde no poema imediatamente anterior a voz de Conceição Evaristo: sim.)

De longe, soa quase como que uma necessidade. E de necessidade, aliás, fala Yasmin Nigri, poeta mais jovem e único nome inédito da antologia: seu "Pluma azul" urra inconformismo com a situação do mundo – chega de paz, parece dizer, isso não nos levou a nada que não fossem as dominações bárbaras.

– Nossos problemas são endêmicos e estruturais – diz Yasmin. – Todo o horizonte parece perdido e a melancolia nos impede de orientar nossas energias para ações afirmativas no mundo. Tudo é cooptado e reabsorvido num discurso da moda, inclusive as pautas mais importantes de movimentos sociais em destaque. Em mim, o abatimento é interrompido por certas brechas de beleza ou fagulhas de esperança que parecem surgir do mais ordinário e corriqueiro. É quase como se viver fosse possível apenas devido a essas centelhas que surgem de maneira inesperada e me acendem em algum lugar fundamental. Quando eu percebi que vinha me nutrindo desses pequenos grandes eventos me peguei frustrada. Como é possível ser feliz e se contentar com o simples quando é exatamente esse contentamento que perpetua a passividade e a tolerância em relação a essa realidade material esmagadora? Há muito me peguei farta desse lugar que parece alimentar uma atitude resignada e conformista em relação ao mundo, mas que, independente de toda elaboração racional, permanece me chamando a atenção e despertando a minha sensibilidade.

– Mas você não acha que só agora houve uma redescoberta da poesia nacional? – pergunto. – De uns anos pra cá, é quase como se tivessem revivido Ana Cristina Cesar, José Paulo Paes, João Cabral. Qual a importância de se lançar uma antologia de poesia com novos e antigos em 2017? A que você atribui essa redescoberta e desses nomes, especificamente?

– Todos os poemas são de uma atualidade brutal. Em se tratando de uma antologia cujo número de poetas póstumos é maior do que o de poetas contemporâneos, é perceptível a recorrência de eventos e temas, o que depõe contra a ideia de história como um continuum linear rumo ao progresso. A distância temporal proporciona a possibilidade de redescobrir nomes que ficaram apagados em meio à efervescência dos movimentos poéticos e à pluralidade de nomes. O que garante a redescoberta de uma autora ou um autor é uma força e um vigor que resistem ao tempo e às modas da época. Tal como Santo Agostinho dizia saber o que é o tempo apenas quando não lhe indagavam seu significado, se você me perguntar o que é exatamente essa força e esse vigor atemporal que faz alguém retornar do mundo dos mortos, eu não saberia explicar.

50 poemas de revolta chega ao mundo às vésperas de um dos anos mais decisivos da política nacional. Assumidamente políticas e apartidárias, suas páginas só têm a somar ao debate. Nomes tão destoantes e tão unidos por força de linhas tecidas com ira devem ser celebrados, estranhados, debatidos. Porque é uma terra estranha, esta, não há lógica e nem deve ter – ademais, talvez nem toda política precise de fogo e vida para existir – basta a tinta.

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50 poemas de revolta chega às livrarias no dia 12 de dezembro. Garanta o seu na pré-venda:

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Mateus Baldi nasceu em 1994. É escritor e roteirista. Fundou a plataforma literária Resenha de Bolso, foi editor de cultura da revista Poleiro e colaborador de literatura no site da Piauí

 

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