As noites brancas de Píter

Raquel Toledo

Ilustração de Claudia Espínola de Carvalho 

 

Em 1847, Dostoiévski passa a frequentar um dos vários círculos de intelectuais que começavam a surgir em São Petersburgo. Essas reuniões nada agradavam ao tsar Nicolau I, pois nelas se debatiam, além da literatura russa e europeia da época, questões políticas, além de serem lidos textos proibidos pela censura oficial. Por estar associado a esses grupos, o autor vai preso em 1949, o que passou a ser um capítulo muito marcante na biografia de Dostoiévski, uma vez que marcou sua obra a partir de então, como Joseph Frank nos mostra. Mas, um ano antes dessa mudança, Dostoiévski havia publicado Noites brancas, novela que ficou conhecida como uma de suas obras mais ligada ao período romântico, e que finalizou o que se pode chamar de fase pré-Sibéria. A propósito, o conjunto Noites brancas e A senhoria (de 1946/47) demonstra uma certa busca do autor por uma literatura mais intimista, ligada ao romantismo alemão e ao onírico, ao fantástico.

A novela se passa em São Petersburgo, cenário caro aos autores do fim do século XIX, quando se precisava de um ambiente quase místico: a cidade, planejada para ser a janela para o Oriente e construída pelo tsar Pedro, o Grande, era reconhecida entre seus habitantes como um lugar especial. Muito se falava sobre acidentes e sobre as dificuldades da construção de Píter (como os russos a chamam): entre mortes, enchentes, construções magnânimas, a constante neblina e os muitos canais, a história da construção de Píter criou a atmosfera perfeita para o sobrenatural. Nikolai Gógol talvez tenha sido o escritor que melhor conseguiu captar esse clima (o que originou a Escola Natural – mas isso é assunto para outro post; ou outros), mas Dostoiévski sem dúvida bebeu nessa fonte.

Píter ganha, com a força da pena de Dostoiévski, status de personagem. Essa relação estreita entre a cidade e os seus habitantes aparece em Noites brancas, principalmente porque o fenômeno que dá título ao livro é o que possibilita os encontros que movem as personagens.

Durante a Copa do Mundo deste ano, as noites brancas de São Petersburgo ganharam algum destaque na mídia, já que muitos turistas se encantaram com a noite que não escurece, o sol que não se põe na metrópole europeia localizada mais ao norte. É esse clima quase mágico que combina perfeitamente com o narrador que Dostoiévski nos apresenta. Um homem cujo nome não conhecemos pertencente à galeria de personagens sonhadores, homens supérfluos, isto é, cultos, privilegiados, mas que não encontram uma função para si no mundo prático, e refugiam-se no mundo das ideias e da arte. Enquanto passeia pela cidade, solitário na capital do Império, ele conhece Nástienka, que embora sonhadora como ele, é uma mulher mais prática, com desejos concretos e até uma certa esperteza mordaz – notória ao se perceber como a jovem é rápida para enganar sua avó, com quem mora.

O casal se encontra por quatro noites, que nomeiam quatro capítulos do livro. Ao longo deles é possível perceber como o ambiente da cidade e as emoções dos protagonistas se relacionam de forma lírica, fortalecendo a ideia da São Petersburgo como a terceira dobra dessa relação.

Noites brancas, esse “romance sentimental” – subtítulo preservado na tradução do mestre Rubens Figueiredo, publicada agora pela Penguin-Companhia – foi escrito por um autor ainda jovem, diferente do que seria mais tarde, mas convicto de seu papel como artista e já experiente. Apesar do trauma da prisão, do quase fuzilamento e do trabalho forçado na Sibéria terem feito de Dostoiévski um novo homem, com outras firmes convicções, é possível perceber na leitura de Noites brancas a preocupação artística de retratar a alma do sonhador, a transformação do fantástico em real, o papel de Píter como centro da intelectualidade russa da época e como uma cidade que, por sua história e suas características, tem um papel fundamental na cultura e na literatura russa.

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Raquel Toledo é paulistana, professora e editora. Trabalha também com formação de leitores adolescentes em escolas da capital paulista, afinal acredita que ler Tchekhov resolve 99% dos problemas da humanidade. Fascinada pela Rússia e, principalmente, sua literatura, tornou-se mestre em literatura russa pela Universidade de São Paulo. No ano da Copa na Rússia, escreve mensalmente para o Blog da Companhia sobre literatura russa. 

 

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