Bolaño no espaço sideral

Por Antônio Xerxenesky

Quando o nome do escritor chileno Roberto Bolaño é mencionado, algumas palavras-chaves piscam no cérebro do leitor, como se lesse um abstract imaginário: “política”, “ditadura”, “violência”, “América Latina”, “identidade”. Ao guardar um livro de Bolaño na estante, procurando pares de prateleira, tentamos colocá-lo perto de Borges, Cortázar, Nicanor Parra: se possível, na diagonal em relação a Vila-Matas.

Bolaño ocupa este lugar, de fato, mas é fácil esquecer uma peculiaridade: o autor amava ficção científica, especialmente o grande, visionário e inigualável escritor americano Philip K. Dick. Em entrevista a Carmen Boullosa, Bolaño disse acreditar que a própria obra era realista, mas no fundo, “gostaria de ser um escritor fantástico, como Philip K. Dick, embora, com o passar dos anos, ao me tornar mais velho, Dick me parece, também, cada vez mais realista”.

Na mesma entrevista, Bolaño fez um comentário ousado sobre a literatura de gênero na América Latina: para ele, o subdesenvolvimento força os escritores a tentarem produzir uma obra-prima – não que consigam, é claro, mas todos tentam. São poucos os que se arriscam na literatura de gênero, que ele define como “um luxo inalcançável”.

O chileno sempre demonstrou uma simpatia pela literatura de gênero: Amuleto, novela delirante de uma poeta presa no banheiro, é anunciada como “Esta será uma história de terror. Será uma história policial, uma narrativa de série negra e de terror. Mas não parecerá. Não parecerá porque sou eu que conto”. 2666 é uma investigação policial na qual o mal é difuso e o culpado somos todos nós. Estrela distante apresenta um poeta serial killer. Há vários poemas com detetives compilados em La universidad desconocida. Em outra entrevista, Bolaño declarou: “Sempre desejo criar uma intriga detetivesca, pois não há nada melhor literariamente do que ter um assassino ou um desaparecido para encontrar”. Muitos escritores de ficção dita “literária” (aspas ironizando a definição clássica dos americanos para livros que não vendem milhões) se aproveitaram das convenções do gênero policial para construir sua obra – Paul Auster é o primeiro nome que salta à cabeça.

OK, mas e a ficção científica, cadê? Até a publicação do póstumo O espírito da ficção científica, aparecia explicitamente em pouquíssimos lugares – um conto aqui (“Enrique Martin”), um texto ali (“El hijo del coronel”). Talvez, um dia, remexendo nesse baú de originais do autor, que parece sem fundo, encontre-se um romance de ficção científica. Pois O espírito da ficção científica, apesar do título, não é um livro de gênero, mas um romance de formação de escritores, não tão dissimilar de Consejos de un discípulo de Morrison a un fanático de Joyce, escrito a quatro mãos no mesmo ano.

Nota-se, em ambos os livros, um interesse curioso – desejoso e irônico ao mesmo tempo –  acerca da fama literária. Neste romance póstumo, um contraponto ao mundo idealizado de festas e prêmios literários está na figura de Jan Schrella, que escreve cartas desvairadas aos ídolos da ficção científica – infelizmente não pode escrever a Philip K. Dick, pois este tinha morrido poucos anos antes. Há uma pureza nessa conversa unilateral com os escritores de gênero, e esse talvez seja um possível espírito do título. Jan fala de alienígenas, de sonhos confusos, de delírios sem racionalização possível: é um típico personagem de Bolaño, apenas viajando pelo espaço sideral imaginário.

Além disso, pelo ponto de vista de Jan, reencontramos um dos elementos que mais parece interessar Bolaño no gênero de ficção científica: as imagens apocalípticas. Mesmo preso ao rótulo realista, Bolaño põe seus personagens a caminhar rumo a um abismo, a sonhar um cemitério monstruoso no ano de 2666, faz críticos literários europeus enxergarem uma paisagem fumegante. Estas cenas são, de certo modo, prenunciadas pelas cartas de Jan, nas quais sonho e imaginação se misturam ao tecido do real.

Porém, se tivesse que apontar a principal influência da ficção científica na obra de Bolaño, esta não seria tão visível neste livro. Em VALIS (1981), obra-prima da fase tardia de K. Dick, o personagem principal é o próprio autor, mas dividido em dois: de um lado, o escritor, racional; de outro, seu alter-ego que acredita que a realidade é uma ilusão. Esta figura cindida passa o tempo todo enxergando símbolos e sinais cifrados que deveria decifrar a fim de compreender um sentido oculto do mundo. Estamos diante da lógica paranoica – lógica que rege boa parte dos romances de K. Dick e da prosa de Bolaño.

Quando os críticos de 2666 buscam o enigmático escritor Benno von Archimboldi, tudo parece ser uma mensagem secreta sobre o autor e seu paradeiro. Ainda no mesmo livro, Amalfitano, professor de literatura chileno, acredita estar recebendo perturbadoras mensagens de um índio com poderes de telepatia – quer mais ficção científica que isso? Amalfitano talvez esteja louco: ele anota fileiras de nomes de filósofos num transe e tenta lê-los em diferentes ordens, buscando sempre o que todos os paranoicos procuram mas jamais encontram: sentido.

Em toda a obra de Bolaño parece haver um segredo cifrado, porém indecifrável pelo personagem. O que de fato aconteceu com o Olho Silva – personagem de conto homônimo – em todos aqueles trechos indecisos, incertos, narrados à meia-luz, pecando pela inexatidão da memória, quando ele foi perseguido pela abstrata violência da qual, misteriosamente, ninguém pode escapar? Este é só um exemplo, colhido ao acaso, quando haveria muitíssimos outros. Quem é a voz que fala com Amalfitano? O que é o cemitério sonhado por Auxilio Lacouture? O que significa a data de 2666? Ela significa algo ou é só mais uma pista falsa?

Nunca é fácil discernir essas coisas. Nem para os leitores, nem para os personagens de Bolaño. Talvez ele esteja certo: a ficção científica de Philip K. Dick é realismo puro.

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Antônio Xerxenesky é um escritor e tradutor brasileiro. É autor, dentre outros, de F (2014), finalista do Prêmio São Paulo. Atualmente cursa o Doutorado em Teoria Literária na USP, onde estuda a obra de Roberto Bolaño.

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