Bolsonaro X Montesquieu

Claudio Angelo

Um dos raros intelectuais da esquerda que sabem em que século estamos, Celso Rocha de Barros publicou numa coluna recente na Folha de S. Paulo uma lista dos melhores livros de 2018 para entender a política. Embora a política atual pareça se encaixar na máxima atribuída a Richard Feynman sobre a mecânica quântica (“se você acha que entendeu é porque não entendeu nada”), é bom a gente já ir aprendendo a lidar com ela para, quem sabe, fazer diferente em 2022. Uma ausência na ótima lista de Barros é O novo iluminismo, do psicólogo canadense Steven Pinker.

O catatau de mais de 600 páginas tem como subtítulo “uma defesa da razão, da ciência e do humanismo”. O original em inglês acrescenta ao subtítulo um quarto elemento, “progresso”, algo que poderia soar estranho em tempos nos quais se fala tanto em progresso – representado por uma suposta liberação da sociedade e do setor produtivo das amarras do “estatismo”, da “doutrinação marxista” e das regulações ambientais. Mas a argumentação central de Pinker é que está em curso hoje uma negação do conjunto de ideais que floresceram na Europa no século XVIII e que levaram a humanidade ao progresso em sua definição mais simples: uma vida melhor. Esse conjunto de ideais, embalados sob o rótulo de “iluminismo” e encarnados na instituição da democracia liberal, precisa de uma boa assessoria de imprensa, porque a geral parece ter se esquecido de tudo o que ele fez e ainda faz por todos nós.

Pinker chama para si essa função de garoto-propaganda das Luzes e busca persuadir seu leitor da maneira mais iluminista possível: com números. Quinze dos vinte e três capítulos do livro dedicam-se a demonstrar, com uma riqueza de dados de dar tontura, como as instituições que herdamos do Iluminismo vêm operando juntas pelo progresso humano: na média (grifo meu), a expectativa de vida vem crescendo no mundo inteiro (de 30 anos no tempo de Hobbes e Montesquieu para 71 hoje), as pessoas adoecem menos, morrem menos de fome, a violência nas sociedades humanas diminuiu, as mulheres não são mais vistas na maior parte do mundo como seres inferiores e todos nós ficamos mais ricos e prósperos.

É evidente que a marcha do progresso não é regular, que efeitos colaterais sérios têm ocorrido – como a mudança climática, tratada extensamente pelo autor como um problema cabeludésimo, mas solucionável – e que as médias encobrem fatos bem feios, como o aumento abissal da desigualdade, minimizado por Pinker. Como mostra o sociólogo sueco Roland Paulsen neste vídeo, a renda da metade mais pobre da população dos EUA não cresceu nas últimas quatro décadas, enquanto o 1% do topo triplicou seus rendimentos (na média, a renda do país inteiro subiu). Mas, como Pinker aponta corretamente a seus leitores, o simples fato de eles estarem lendo o livro significa que não morreram de fome ou por doenças infecciosas na infância e não estão escravizados num canavial. O sucesso do Iluminismo é auto-evidente.

Tal sucesso se deve à combinação matadora de três revoluções cognitivas: razão, ciência e humanismo. A primeira parte do princípio de que é possível conhecer coisas sobre o mundo e sobre os seres humanos, sem recorrer a verdades reveladas ou dogmas. A segunda forneceu uma ferramenta imbatível para buscar a verdade por meio de previsão, teste e refutação. O terceiro é o princípio de que existe uma natureza humana universal e que todos os seres humanos, sem exceção, têm a capacidade de sofrer e de se desenvolver. Portanto, a moralidade deve obrigatoriamente privilegiar o bem-estar dos seres humanos e proporcionar a maior felicidade possível para o maior número possível de pessoas. “Razão acima de tudo, humanidade acima de todos” poderia ser o lema do Iluminismo.

Hoje nós damos de barato esse “dream team” de ideias, mas houve um tempo antes do século XVIII em que o comportamento humano e as ações dos governos eram ditados por dogmas insondáveis, escravizar outros seres humanos era "de boas", pessoas eram queimadas na fogueira por, digamos, comer frango sem pele e milhares morriam em guerras por glória de alguma entidade sobrenatural – cuja existência automaticamente anulava a da entidade sobrenatural do inimigo. Não é preciso ler apenas os livros de história para imaginar como a vida era naquele tempo: basta olhar para as sociedades que ainda não abraçaram o pacote iluminista, como o Afeganistão dos talebãs, o Estado Islâmico e, em larga medida, a Arábia Saudita, onde as mulheres conquistaram o direito de dirigir em 2018, mesmo ano em que um jornalista foi esquartejado por criticar o regime (alou, Jair, não tô dando ideia, taokei?).

O legado da tríade iluminista encontra-se sitiado hoje pelo que Pinker chama de “contrailuminismos”. Eles existem à esquerda e à direita. A esquerda considera a ordem liberal uma imposição cultural/imperialista do Ocidente sobre todas as outras sociedades humanas e seus “saberes” distintos (difícil escutar essa crítica sem pensar com um sorrisinho desdenhoso na máxima: “Não existe medicina ocidental e oriental; existe medicina que funciona e que não funciona”). Mas é do reacionarismo de direita que provêm os ataques mais virulentos e até aqui mais politicamente eficazes à ordem iluminista. Quem duvida precisa apenas se lembrar de três palavras: Brexit, Trump e Bolsonaro.

O populismo de direita que parece conquistar fatias importantes do mundo ocidental no século XXI tem entre seus elementos constituintes uma rejeição à razão (capturada na expressão “pós-verdade”), o desprezo pela ciência e um ódio ao humanismo. Ele se baseia na crença infundada de que o mundo está em decadência, de que há ameaças terríveis à sociedade causadas por inimigos como o secularismo e os imigrantes e de que a única maneira de obter segurança é retornar à tribo, ao Estado-nação forte e livre de influências forâneas e reconectado com Deus.

Embora Pinker viva nos EUA e baseie suas observações na história americana recente, o leitor brasileiro vai se identificar na hora com este último trecho. O “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” de Jair Bolsonaro é, afinal, uma cópia-carbono do neofascismo americano que foi ao poder com Donald Trump. Lá, como aqui, as igrejas evangélicas viraram um braço armado da direita política, introduzindo a moral teísta no centro do poder. Esta é uma das duas principais inimigas do humanismo. A segunda é a ideologia, que Pinker exemplifica no trecho a seguir. Não estranhe se achar que está lendo um dos escritos do chanceler Ernesto Araújo:

“Uma sociedade multicultural e multiétnica jamais pode dar certo porque seus cidadãos se sentem desenraizados e alienados e sua cultura será achatada para o menor denominador comum. Para uma nação, subordinar-se a acordos internacionais é renunciar a seu direito inato à grandeza e tornar-se um ator insignificante na competição global de todos contra todos.”

Quando Araújo vocifera contra a tal “oikofobia”, uma suposta rejeição à pátria, e ataca o “globalismo” – expresso no insuspeito acordo do clima de Paris, que segundo os bolsonaristas é uma “ingerência externa indevida” –, está atuando segundo a cartilha da ideologia. Pinker chama esse coquetel delirante de “teoconservadorismo”, um trocadilho com “teocracia” e “neoconservadorismo”. O irônico, para um suposto nacionalista do quilate do nosso chanceler e para os supostos patriotas a quem ele visa arrebanhar, é o fato de o teoconservadorismo ser um pacote ideológico importado. Não à toa, um dos heróis intelectuais do chanceler é o ex-astrólogo Olavo de Carvalho, um teoconservador que bebe diretamente da fonte da alt-right, visto que é radicado nos EUA.

A irracionalidade aparente dos movimentos neofascistas e a propensão de seus eleitores a acreditar em mentiras surreais também são explicadas por Pinker. A campanha presidencial americana de 2016 teve sua cota de “kits gays” e mamadeiras de pênis: seguidores de Trump e, às vezes, o próprio candidato, afirmavam que Hillary Clinton tinha esclerose múltipla e usava uma dublê de corpo e que Barack Obama deveria ter participado dos ataques do 11 de setembro, já que nunca era visto no Salão Oval da Casa Branca nesse período (pela razão óbvia de que Obama não era presidente então).

O novo iluminismo chama essas cascatas de “mentiras azuis”, numa alusão às mentiras brancas. Estas últimas são contadas para não prejudicar o ouvinte, enquanto as azuis são propagadas para beneficiar o grupo. Mentiras azuis são, antes de tudo, um identificador tribal, como tatuagens de jenipapo. “Embora alguns teóricos da conspiração possam de fato estar desinformados, a maioria expressa essas crenças com um propósito teatral, e não de verdade: estão tentando contrapor-se aos liberais e mostrar solidariedade com os irmãos de sangue”, diz o livro. Basta olhar o Twitter do “professor” Olavo para ver que Pinker vai na mosca.

O risco para a sociedade e para a ordem liberal, claro, é quando tudo vira teatro e o referencial do real desaparece. Tratei deste tema no último post, a respeito de outro livro importante para entender o bolsonarismo (Origens do totalitarismo, de Hannah Arendt). Em seu livro, Pinker mostra, por exemplo, que o principal fator que prediz a negação da mudança climática nos EUA não é o grau de instrução nem de alfabetização científica, mas o alinhamento político à direita.

Quando mentiras azuis deixam de infestar o discurso político e passam a ser o próprio discurso, o contrailuminismo triunfa e muita gente pode se ferrar de verde e amarelo. A negação ideológica da mudança do clima garantiu que a humanidade vai perder o centro da meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento global em 1,5 ºC, com consequências cataclísmicas especialmente para a parcela mais pobre da população mundial. O movimento antivacina nos EUA está causando o ressurgimento de doenças infecciosas erradicadas do mundo desenvolvido. No Brasil, a regressão contrailuminista vem também na negação da mudança do clima e do desmonte da governança ambiental, além do mais insidioso fim da liberdade acadêmica sob pretexto de eliminar a “doutrinação marxista”.

A esperança para o progresso humano é que os regimes contrailuministas, como as más hipóteses científicas, não resistam ao mundo real – em especial num planeta em que seu desempenho pode ser comparado ao de sociedades iluministas. Trump experimentou os limites à sua ficção com a interrupção do governo americano devido à guerra orçamentária pelo muro na fronteira sul. Bolsonaro foi obrigado a abjurar seu negacionismo climático ao ser confrontado com líderes globais e investidores no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Talvez a catástrofe de 25 de janeiro em Brumadinho também mostre ao presidente que desmontar as regulações ambientais, contrariando as evidências de que elas são importantes para o bem-estar das pessoas, é um obscurantismo fútil e perigoso. A defesa do Iluminismo nunca foi tão urgente.

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Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

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