Bonecas russas (restrições e comandos)

Marília Garcia

Foto: clu/ Getty Images

 

Gosto de um texto sobre o Oulipo em que François Le Lionnais, um dos fundadores do grupo francês, diz o seguinte: “Toda obra literária se constrói a partir de uma ‘inspiração’ (ao menos é o que o seu autor diz) que deve se acomodar a uma série de restrições e procedimentos que se vão se encaixando uns nos outros como bonecas russas”. Para ele, estas restrições começariam no vocabulário e nas regras sintáticas e gramaticais, que valeriam para todos, e iriam até regras “específicas” como, por exemplo, os capítulos no romance, a regra das três unidades na tragédia, e as regras de versificação e as formas clássicas na poesia.

A proposta do Oulipo com seus laboratórios de escrita seria multiplicar este campo de restrições “específicas”, apresentando novos comandos e atualizando os antigos, buscando novas ferramentas de escrita em sintonia com o mundo. O resultado alcançado deveria ser analisado num segundo momento, pois inicialmente o que importava era experimentar, fazer o “jogo” com as palavras.

Tanta coisa terá ido para a lixeira dos poemas que não se acomodaram. Por outro lado, esta lixeira pode ter servido para indicar caminhos para outros tantos poemas que se encaixaram. Felizmente.

Pensava nisso num encontro recente em São Paulo com a presença de Kenneth Goldsmith, poeta e performer à frente da chamada “escrita não-criativa”, autor de vários livros que sistematizam e atualizam procedimentos tais como a cópia, colagem, pirataria, samplers etc. Aliando estes recursos às tecnologias contemporâneas, os caminhos e possibilidades de restrições para a escrita não cessam de se multiplicar diversificando as maneiras de nomear o nosso mundo. Se Goldsmith parte de transcrições de boletins de trânsito ou meteorológicos, há poetas que partem de material jurídico (como Vanessa Place), de sites com depoimentos de terroristas e kamikazes (Franck Leibovici), ou de discursos políticos de deputados brasileiros tirados do site da câmara (Roy David Frankel).

Apropriações deste tipo não são uma novidade (na poesia brasileira há alguns clássicos, como a poesia "Pau Brasil", de Oswald de Andrade), mas na era digital o gesto de lidar com textos alheios está a um clique da mão e se torna quase uma regra. A pergunta que se coloca é como fazer e quais recursos formais (específicos da poesia ou não) utilizar.

Por serem trabalhos híbridos, permitem perceber a poesia em outros lugares também, como por exemplo, num experimento da artista britânica Lenka Clayton, chamado QQQQQQ (“Qaeda Quality Question Quickly Quickly Quiet”), em que alia o gesto de apropriação e edição. Ela partiu do discurso de George W. Bush sobre o terrorismo proferido pouco depois do 11 de setembro e editou o vídeo de modo a ordenar alfabeticamente as palavras ditas pelo presidente americano. O resultado é desconcertante pois torna evidentes as repetições da fala na ordem alfabética (ele diz as palavras “america/americans” em torno de 60 vezes). A implosão do discurso original dá a ver outros aspectos da situação e nos leva a pensar inevitavelmente no resultado que teríamos aplicando este mesmo procedimento aos discursos e “atos falhos” do atual presidente.

É claro que um comando deste tipo (que poderia servir de gatilho para a escrita) não garantiria o resultado e talvez um poema daí resultante nem se encaixasse na “série de bonecas russas” que produziriam uma obra, mas a existência destes experimentos abrem caminhos para refletirmos sobre o que chamamos de poético.

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Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

 

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