Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus

Kelvin Falcão Klein

 

Como surgiu a escrita? A história dessa atividade tão corriqueira e por vezes tão naturalizada é complexa e tem pelo menos 4 mil anos de idade. Em O mundo da escrita, Martin Puchner – professor de literatura comparada em Harvard – retira dessa primeira pergunta uma segunda, ainda mais complexa, e que serve de subtítulo ao seu livro: como a literatura transformou a civilização?

Puchner constrói uma linha do tempo que começa com a escrita cuneiforme na Mesopotâmia, passa por Homero, Esdras e pela Biblioteca de Alexandria, alcançando o Romance de Genji no Japão, o Popol Vuh dos maias, o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels, até desaguar nos mais recentes Omeros, de Derek Walcott, e Harry Potter, de J. K. Rowling.

Trata-se de um percurso enorme e enriquecedor, tornado mais acessível por conta da presença constante de Puchner como uma espécie de guia. Cada um dos dezesseis capítulos do livro é dedicado a um texto fundamental e Puchner se apresenta não apenas como um leitor e/ou professor, mas também como um viajante curioso: vai à Sicília por conta das viagens italianas de Goethe, vai ao interior da Alemanha por conta da invenção de Gutenberg, vai à Espanha por conta de Cervantes e assim por diante.

Um dos capítulos mais interessantes é aquele que lida com quatro personagens: Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus, que viveram com diferença de poucas centenas de anos. Todos eles professores e todos eles compartilhando uma postura diante da escrita: a recusa. “O que esses novos professores tinham em comum”, escreve Puchner, “era que não escreviam: preferiam reunir estudantes ao redor deles e ensinar-lhes através do diálogo, conversando cara a cara”.

Essas quatro personalidades históricas estiveram diretamente envolvidas na fundação de novos modos de pensamento, novas formas de ver o mundo e lidar com ele. Puchner argumenta que Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus apresentaram reflexões críticas com relação ao “mundo da escrita”, questionando o uso de uma tecnologia que era ainda recente. É possível dizer que a crítica não era destinada ao “mundo da escrita” de forma geral e irrestrita, mas sim a certa burocracia que nascia nesse mundo, gerando um isolamento da escrita nas mãos de reis, sacerdotes e dirigentes.

Buda, por exemplo, foi um príncipe que se juntou aos pedintes e mudou sua vida; Confúcio escolheu abandonar o serviço público e se autoexilar, ensinando ao ar livre usando uma linguagem popular; Sócrates passou a vida – até o fim, até a morte na prisão – questionando as regras da sociedade a partir de um jogo de perguntas e respostas; e Jesus, por sua vez, aliava um profundo conhecimento das escrituras com um igualmente profundo interesse pelos mais pobres e menos escutados indivíduos da sociedade. Suas trajetórias mostram que uma momentânea recusa da escrita equivalia ao desejo de instaurar uma nova realidade, não tão fechada e hierárquica.

Considerando um contexto mais amplo, contudo, o efeito final foi o de um reforço da escrita. “Essa oposição à escrita, essa insistência no ensino pessoal e ao vivo”, escreve Puchner, “foi canalizada de volta para a literatura. As palavras dos professores se transformaram em textos, que agora podemos ler e que nos atraem para os círculos de alunos formados em torno desses professores”.

Ao reunir os casos desses quatro mestres, Puchner mostra uma dinâmica recorrente na história da literatura ao longo dos milênios: as energias criativas que circulam pelas margens eventualmente chegam ao centro, ao ponto máximo de visibilidade cultural, gerando textos que parecem se dirigir a nós de uma forma muito pessoal e direta, através do tempo e do espaço.

 

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Saiba mais sobre O mundo da escrita, de Martin Puchner

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Kelvin Falcão Klein é crítico literário, professor de literatura na UNIRIO e autor de Wilcock, ficção e arquivo (Ed. Papéis Selvagens, 2018). Escreve no blog Um Túnel no Fim da Luz.

 

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