Cidades em quadrinhos

Érico Assis

Ilustração: Will Eisner

 

Lembro de uma história do Will Eisner, em Nova York: A Grande Cidade, na qual uma personagem tenta chamar um amigo do outro lado da rua. Ela chama, faz sinais, grita, se esgoela. Tem muitos carros passando para atravessar, fazendo barulho, buzinando. O amigo não ouve nem vê. A HQ é só isto.

A imagem clássica do Angeli é aquela em que ele observa São Paulo do alto do prédio, à noite, fumando. Paulo Crumbim tem feito HQs indignadas sobre o que vê quando caminha por São Paulo. O Diego Gerlach não mora em São Paulo, mas as ruas dele tem a mistura de engravatados, mendigos, estilosos, lixo e possibilidades que é uma caminhada pela Avenida Paulista.

Art Spiegelman estava procurando a definição de história em quadrinhos quando descobriu que história pode significar “divisão horizontal de um edifício”, do latim medieval “historia: fileira de janelas com imagens”. Chris Ware se encantou com a citação do Goethe sobre arquitetura ser música petrificada, então fez os prédios de Building Stories falarem. Fefê Torquato entrou em cada janela do prédio vizinho em Estranhos.

Em Watchmen, um dos pontos focais da cidade é a banca de jornais. Os quadrinhos tomaram impulso com os jornais, que ganharam impulso com as metrópoles. Uma das tiras mais reproduzidas de Little Nemo é aquela em que ele é um gigante escalando prédios. Uma das proto-graphic novels de Frans Masereel é A Cidade, de 1925.

Seth passa muitas de suas histórias em Dominion, uma cidade de papelão que ele construiu no porão de casa. Guazzelli segue desenhando sua Cidade Nanquim, um rolo de mais ou menos um metro por 60 metros de A4s coladas. Sempre que vejo aqueles panoramas da Neo-Tóquio do Akira ou da Tóquio do Inuyashiki eu me compadeço do assistente que teve que desenhar cada janelinha.

“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor.” Palomar é a cidade “onde homens são homens e as mulheres precisam ter senso de humor”. Frank Miller dizia que Metrópolis é Nova York de dia, Gotham City é Nova York à noite. Tezuka também fez Metrópolis, sua Metrópolis. Miller criou uma cidade, Sin City, onde nunca é dia. Mega-City Um, 400 milhões de habitantes, nunca é tranquila. Astro City, Keystone City, Opal City, Star City, Madripoor, Doomstadt, Patópolis. Carl Barks viajava só através dos personagens – as cidades que Donald, sobrinhos e o tio visitavam vinham da National Geographic. Acho que eu vi uns pedacinhos da Nova York de portinhas mágicas do Ben Katchor.

Melbourne foi destruída num gibi de invasão alien da DC. Pittsburgh virou um buraco num gibi do John Byrne porque era cidade natal de um editor desafeto. Cleveland foi onde cresceram Jerry Siegel e Joe Shuster, criadores do Superman, assim como Robert Crumb, Harvey Pekar, Brian Azzarello e Brian Michael Bendis. Bendis mudou-se para Portland, terra de Greg Rucka, Kelly Sue DeConnick, Alex Ross. A editora norte-americana mais interessante do momento, a Image, mudou-se para Portland. Joe Sacco também mora em Portland. É Sacco quem diz que a repetição dos cenários a cada quadrinho faz o leitor se sentir dentro dos locais que mostra nas suas HQs-reportagem.

Ana Koehler, Luiz Gê e Samanta Floor são arquitetos de formação que são quadrinistas. Joost Swarte e François Schuiten não são arquitetos, mas assinaram projetos de arquitetura a convite daqueles que viram suas edificações nos quadrinhos. Schuiten desenha suas Cidades Obscuras desde 1983. Jason Lutes acabou de concluir Berlim, sobre a República de Weimar, que ele começou a produzir há mais de vinte anos.

Os subúrbios dos Peanuts, da Blondie, da Nancy, não são o Bairro do Limoeiro, que nem são os subúrbios fluminenses do Marcello Quintanilha. Quintanilha, Marcelo D’Salete, Fábio Moon e Gabriel Bá ganharam prêmios no exterior com quadrinhos que escancaradamente se passam em cidades brasileiras. Uma das coleções de Moon e Bá que saiu lá leva o subtítulo “Stories from Urban Brazil”. Existe um Prêmio de Romance Gráfico sobre Cidades Íbero-Americanas, que teve como primeira vencedora a argentina María Luque, com sua coleção de histórias autobiográficas sobre sua profissão de cuidar da casa dos outros, nomadeando pela América do Sul.

Eisner, de novo, na introdução de Nova York, A Grande Cidade: “Vistas à distância, as cidades grandes são um acúmulo de prédios imensos, população imensa, imensos hectares. A meu ver, isto não tem nada de ‘real’. O real de uma cidade grande é o que é visto pelos seus habitantes. O retrato fidedigno está nas fendas do concreto e nos menores exemplares da sua arquitetura, por onde serpenteia o cotidiano.”

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Nesta quinta-feira, dia 6, começa a Bienal de Quadrinhos de Curitiba. O tema é “A Cidade em Quadrinhos”. Sou um dos curadores. Confira a programação – que inclui alguns nomes citados acima – aqui.

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho Desenhados um para o outrohttp://ericoassis.com.br/

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