Clarior: Ruffato e a auréola das cartas

Por Pedro Meira Monteiro

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O interior das casas humildes, o que guarda?

Terminei de ler, muito tocado, De mim já nem se lembra, de Luiz Ruffato. Romance epistolar sobre a perda do irmão mais velho, há nele uma delicadeza que provém da elegância e da essencialidade das coisas simples.

O leitor de classe média afasta de si, nervoso pela proximidade, aquele universo de paredes mal caiadas, de apetrechos de inox guardados para ocasião especial, da toalhinha plástica que cobre a mesa, dos retratos pobres que mal lembram o retratado.

“Pudor” é palavra-chave, que se lê quando o narrador entra, reverente, na casa familiar agora abandonada: “aprumado no mármore da mesinha-de-centro, um solitário exibe uma rosa-de-plástico; sobre o guarda-louça, três porta-retratos alardeiam os netos; inúteis, o sofá e as poltronas descansam, a televisão repousa -- um filó de poeira lubrina tudo.”

As cartas são do irmão, José Célio, enviadas de São Paulo para a mãe, que é confidente, conselheira, tutora e guardiã de valores intocáveis. Estendendo-se de 1971 a 1978, no tom limpo e direto do filho apenas letrado que se justifica perante a mãe, a correspondência deixa ver a corrente de vida que de repente atravessa as entranhas da grande cidade. É um pouco a história do Brasil urbano que se estampa ali, singela, evocando os milhares de Josés Célios que se equilibram entre a tradição e a metrópole. O tom às vezes moralista, nunca agressivo, mas firme, é contrastado pelas descobertas do amor e pela paixão da política, que parecem querer formar um único par, impossível, ardorosamente buscado pelo jovem operário. No entanto, a pulsão de vida que o toma não chega jamais a desatar o fio que o prende à família em Cataguases, aos seus pequenos e grandes dramas vividos à distância, tudo envolto no inexprimível desejo de voltar, contrabalançado pela certeza de que já não se pertence a nenhum dos dois lugares: exilado, aqui e lá.

A moldura que o narrador -- o “Luizinho”, que sabemos ser Ruffato -- carinhosamente põe sobre as cartas é fina, discreta e perfeita: poética sem ser exagerada, sincera sem sombra de arrebatamento, feita com esmero e sem qualquer preciosismo. O quadro me faz pensar nos móveis das casas simples, nos lares humildes que o olhar curioso invade, entre fascinado e pudico. Lá dentro, cada objeto está no seu lugar, como que esperando o momento infinitamente próximo em que tudo, paradoxalmente, continuará sendo o mesmo, mas agora pleno de sentido, perfeito o círculo das coisas.

Em A comunidade que vem, Giorgio Agamben discorre sobre a auréola, que foi um grande tema para a teologia medieval. Tomás tem um tratado em que enfrenta a questão: se os santos são beatíficos, se eles têm em si todos os bens necessários à perfeita operação da natureza humana, então nada de essencial poderia ser-lhes acrescentado. Mas se assim é, por que algo mais deve se juntar a eles? O que é a auréola que os cinge?

A resposta: a auréola nada acrescenta, nem é necessária à beatitude, tampouco a altera, mas a torna simplesmente mais esplendente (clarior, segundo a expressão tomista). A auréola, aprendemos com o filósofo italiano, é “esse suplemento que se acrescenta à perfeição -- algo como um vibrar do que é perfeito, apenas um irisar-se dos seus limites”.

Como as asas dos anjos, eu diria.

Como aquilo que se revela amiúde nos contos de João Anzanello Carrascoza.

Como a moldura das cartas do irmão perdido para sempre, em Luiz Ruffato.

Como se algo pudesse, digamos assim, esplender discretamente.

Pedro Meira Monteiro é doutor em teoria literária pela Unicamp e professor de literatura brasileira da Universidade de Princeton. Editou a correspondência de Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda e recentemente traduziu e organizou A memória rota -- Ensaios de cultura e política de Arcadio Díaz-Quiñones, publicados pela Companhia das Letras.

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