Como escrevi "Explica tudo" em outra língua

Érico Assis

Sou uma pessoa que escreve na nossa língua livros que foram escritos em línguas diferentes da nossa. Escrevi na nossa língua um livro chamado Explica tudo. É um livro que explica coisas difíceis usando só palavras fáceis.

A pessoa que escreveu o livro primeiro decidiu usar só as dez centenas de palavras que as pessoas mais usam na língua dela. Ele – era um homem – não fez isso só porque é engraçado ou só porque é difícil. Na página-antes-de-começar-o-livro do livro, ele disse que coisas difíceis têm nomes difíceis porque é importante saber a diferença entre essas coisas. Mas ele queria que seu livro não fosse sobre os nomes das coisas, porque já tem vários livros assim. Ele quis escrever um livro para explicar o que as coisas fazem.

Coisas que são parte da nossa vida, como: Barcos-do-céu com asas que giram. Caixas que deixam a roupa com cheiro bom. Máquinas de queimar cidades. Como contamos as coisas do mundo. Saquinhos de água que formam cada um de nós. Pega-imagens. Computadores de mão. E árvores.

Escrever na nossa língua livros que foram escritos em línguas diferentes já é difícil quando você pode usar todas as palavras da nossa língua. Quando não pode usar todas as palavras, você tem que respirar fundo e pensar bastante. Bastante mesmo.

A lança-livros que lançou Explica tudo na primeira língua perguntou às lança-livros de outros países como elas fariam para escrever o livro em outras línguas. Vi a resposta de uma pessoa-que-escreve-livros-de-outras-línguas-na-sua-língua de um país que é feito de várias ilhas e que fica bem longe de nós na maioria dos mapas. Ela disse que fez uma lista das dez centenas mais seis palavras que as crianças do país dela aprendem no começo da escola – que lá não são palavras e para nós parecem desenhinhos – e que ia escrever o livro na língua dela só com esta lista.

Eu respondi que não tinha uma lista como essa na minha língua. E falei que poderia escrever o livro na minha língua tentando pensar como a pessoa que escreveu primeiro – o importante é o que as coisas fazem, não o nome que elas têm –, usando só palavras fáceis. E, depois de escrever todo o livro na nossa língua, trocar e cortar algumas palavras até o livro usar só usar dez centenas de palavras.

Foi o que eu fiz.

Tinha outras regrinhas. Na verdade, na primeira língua o livro usava dez centenas de palavras menos duas, porque tem duas palavras muito usadas naquela língua que tem gente que não gosta de ver. Então, também usei só dez centenas de palavras menos duas. O livro na primeira língua também não usava o número entre oito e dez, então na nossa língua esse número também não apareceu. E, igual à primeira língua, aparecem um monte de barcos: barcos-do-espaço, barcos-do-céu, barcos-cidade, barcos que vão embaixo da água…

Depois que eu escrevi o livro na nossa língua pela primeira vez, um amigo com cérebro grande fez um conta-palavras especial para eu saber quantas palavras tinha usado. Este conta-palavras é o único que eu conheço para nossa língua, ajudou muito e está aqui. Obrigado, amigo com cérebro grande.

Aí, o conta-palavras especial contou que eu tinha usado menos de cem dezenas de palavras da nossa língua – e tive que colocar mais palavras (fáceis) no livro. Esse dia não foi bom. Mas, depois de uns dias pensando bastante, consegui chegar nas dez centenas de palavras menos duas. Ah: levei mais ou menos quatro meses para escrever o livro na nossa língua.

Passei o que escrevi do livro, a lista de palavras e uma carta de explicação para as outras pessoas que iam trabalhar no livro – como a pessoa-especial-que-vê-se-o-livro-faz-sentido (que também é uma pessoa-que-escreve-livros-de-outras-línguas-na-nossa-língua) e as que deixam o livro organizado e bonito. Elas deixaram o livro com sentido, organizado e bonito.

Explica tudo foi o livro mais difícil que já tive que escrever na nossa língua. Mas não foi ruim – pelo contrário. Escrever um livro na nossa língua só é ruim quando o livro é ruim na primeira língua.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

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