Como estou bem enquadrado!

Noemi Jaffe

Foto: still de Até o fim do mundo, filme de Wim Wenders

 

Em minhas aula de escrita ficcional, venho tentando estabelecer uma espécie de cruzada veemente contra "o belo". Chego a dizer aos alunos que, se por acaso escreverem uma frase ou trecho que considerarem muito bonito, a ponto de se admirarem e dizerem: "nossa, mas olha o que eu escrevi", então podem ter certeza de que é o caso de cortar.

Mas por quê?

Porque tudo o que a literatura não deve visar é ao efeito belo. Aliás, a literatura não deve visar ao efeito. Ponto final. O efeito deve, isso sim, ser consequência necessária (e essa palavra é chave para quase tudo) do trabalho linguístico, temático, reflexivo, inventivo. Sempre me lembro de Caetano Veloso, comentando os filmes da última fase de Wim Wenders e dizendo que sua impressão é a de que os personagens desses filmes estão o tempo todo dizendo: "Hum, como estou bem enquadrado". Pois é. Acontece o mesmo na literatura, que, é claro, dispensa adornos e, sobretudo, a voz vaidosa do autor mostrando ao leitor como ele escreve bem. Literatura não é circo e o papel do autor não é mostrar suas habilidades e proezas com a língua e com o pensamento.

"Só é belo o que é necessariamente belo", frase de Vassili Kandinski, é um dos pensamentos mais importantes que carrego para meu trabalho como escritora e como professora e é aí que mora, como disse acima, a importância da necessidade. Num livro, as palavras devem partir de uma necessidade que vem do texto, do tema, da forma como o autor combina as palavras. Nada sobra ou falta, ou quando sobra e falta, é porque o autor quis assim ou porque as palavras assim o quiseram. O incompreensível pode ser necessário, o exagerado, o absurdo, mas também, é claro, o fluente e o conciso. E quando as partes convocam umas às outras, quando o leitor sente que tudo o que ele está lendo contém um aspecto preciso e imperioso, surge o belo. E belo, nesse sentido, não significa harmonioso, claro, cristalino. Pode ser até grotesco, saturado ou mínimo. Mas é belo porque as partes e o todo estão ali por algum motivo que o leitor, mesmo sem interpretar ou compreender, sente como necessário. Ou alguém se pergunta por que Proust escreve frases longuíssimas, intercaladas por digressões aparentemente inúteis, de tal forma que muitas vezes é impossível encontrar o sujeito de que se fala? Ou por que Guimarães Rosa separa sujeito de predicado por vírgula?

Mas algo soa mal, algo escapa da fluência da leitura, do prazer do texto, de sua verdade textual, quando um personagem diz algo mais belo do que naturalmente diria ou quando o leitor se intimida diante das cambalhotas lírico-frasais do autor.

Adjetivos antepondo-se a substantivos; contorções gramaticais parnasianas; rebuscamento semântico; grandes tiradas proverbiais; comentários pospondo-se à ação ou cena; cenários decorativos; personagens que falam melhor do que são; frases irresistíveis. Evite-os e, se no seu texto final, você se sentir apaixonado por si mesmo, tamanha a beleza do que escreveu, apague tudo.

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Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falou, Írisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.

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