Como votam os répteis

Claudio Angelo

 

 

Numa cena do filme Relíquia macabra (1941), o detetive Sam Spade (Humphrey Bogart) desafia o vilão Kasper Gutman (Sydney Greenstreet) a que o mate, sabendo que precisa dele para recuperar o precioso falcão maltês. Gutman responde: “Esta, meu senhor, é uma atitude que demanda o mais delicado julgamento dos dois lados, porque, como o senhor sabe, no calor da ação os homens tendem a se esquecer do seu próprio interesse e se deixar levar pelas emoções”.

A passagem acima é citada pelo psicólogo canadense Steven Pinker em seu clássico Como a mente funciona, de 1997. Pinker tenta explicar, com base nas descobertas da neurociência e da psicologia evolutiva, como seres humanos frequentemente explodem em ataques de fúria e às vezes se arriscam a esquecer os próprios interesses. Ele e Kasper Gutman certamente teriam um conselho a dar aos eleitores brasileiros que estão prontos para transformar Jair Bolsonaro no próximo Presidente da República.

É difícil imaginar em qual Universo paralelo alguém como Bolsonaro faria um governo que atendesse aos interesses amplos da população brasileira. Tem-se um arremedo de programa de governo que o candidato parece não ter coragem ou capacidade de defender num debate público, cujas propostas sobre economia foram terceirizadas a seu Heidegger (ou Speer) particular, e as outras, loteadas entre generais, pastores evangélicos e um ator pornô; uma mitomania compulsiva, talvez único aspecto em que o ex-capitão mereça o apodo que seus seguidores lhe deram; e um total descompromisso com a coerência. A única coisa coerente ao longo da carreira política de Bolsonaro tem sido a apologia da violência e da tortura, contra os valores essenciais do humanismo e da democracia.

Se o período eleitoral for algum guia, a eleição de Bolsonaro tornará o Brasil um país mais conturbado e mais difícil de viver. Vide o surto coletivo de sociopatia que sua dianteira no primeiro turno parece ter disparado, no qual comportamentos evidentemente inaceitáveis – como, digamos, surrar pessoas de vermelho ou matar um idoso só porque ele era eleitor do Lula – passaram a ser normalizados por uma parcela da população. Como alguém assim está para ganhar de lavada uma eleição, ainda mais uma tão crucial para o futuro do país como a de 2018?

Parte da resposta está nos nossos ancestrais répteis (sim, caro general Aléssio, nós todos descendemos de répteis; durma com esta informação). Eles nos legaram um conjunto de partes primitivas do cérebro, como a amígdala. Parecida com uma amêndoa (daí o nome), essa estrutura na base do sistema nervoso está envolvida no medo e em respostas instintivas como fugir ou lutar. A amígdala entra em ação diante de algum agente externo que possa representar uma ameaça e que exija do corpo uma resposta muito rápida. São casos em que não há tempo para o lento processamento do córtex pré-frontal, seção do cérebro envolvida no raciocínio e do planejamento de longo prazo e que os humanos desenvolveram mais do que ninguém. A amígdala nos faz atirar primeiro e perguntar depois.

 

O discurso do candidato do PSL tem uma conexão direta com a amígdala, mas também com outros circuitos cerebrais mais sofisticados envolvidos em emoções. Bolsonaro explora de forma muito competente duas delas: o medo e a vingança. Em ambos os casos, promete ao eleitor (e ao mercado) alívio imediato e soluções simples. Tem medo da violência? Vamos te dar uma arma para se defender. Tem medo das multas trabalhistas e ambientais? Vamos acabar com o Ibama e com os fiscais do trabalho e você poderá desmatar à vontade e ter quantos escravos quiser em sua fazenda. Tem medo da dissolução da família? Vamos dar um jeito nesses viados e nessas sapatas. Quer dar o troco na esquerda corrupta que quebrou o país? Vamos “fuzilar essa petralhada”.

O desejo de vingança contra o PT e tudo o mais que cheire a “esquerda” e “comunismo” mostrou-se uma força especialmente poderosa, algo que poucos analistas políticos anteciparam antes da reta final da campanha no primeiro turno. Bolsonaro, como sabemos, puxou para si o voto útil antipetista, pulverizado entre uma miríade de candidatos “de centro”.

Habilmente manipulada por uma torrente subterrânea de mentiras no WhatsApp, como vem sendo revelado pela imprensa, essa sede revanchista também tem conexão direta com a evolução da mente humana. Pinker explica que somos dados ao punitivismo para preservar o bom funcionamento do grupo social, mesmo que precisemos investir uma quantidade desproporcional de recursos nisso. Trata-se de um alerta contra elementos que possam ameaçar o grupo, trapaceando com recursos materiais ou sexuais.

O cientista canadense ilustra o preço da vingança com um cálculo feito por ocasião da Guerra das Malvinas: o dinheiro que o Reino Unido gastou para retomar da Argentina aquele pedaço de nada no Atlântico Sul teria sido suficiente para dar a cada britânico habitante das ilhas um castelo na Escócia e uma pensão vitalícia. Ocorre que os brios nacionalistas foram feridos pelo ato da ditadura argentina. A própria coesão do grupo estava sob ameaça. A resposta extrema – uma guerra cara e fútil que ceifou vidas britânicas – serviu como mecanismo de dissuasão. Nunca mais a Argentina ameaçou retomar as hoje ilhas Falklands.

Ocorre que nem tudo que a evolução nos legou funciona bem para a sociedade humana atual: alguns comportamentos são claramente “maladaptativos”, ou seja, fizeram sentido em algum momento do passado e hoje mais atrapalham. No limite, o exercício da revanche, ao desligar temporariamente os controles do córtex pré-frontal dos cidadãos e impedi-los de pensar nas consequências de longo prazo, pode prejudicar seriamente o grupo. Daí a ponderação do vilão Kasper Gutman no filme baseado na obra de Dashiell Hammett.

Nossas emoções reptilianas são péssimas conselheiras para decisões que envolvem alongar o olhar e pensar em múltiplas consequências, como a que tomaremos no próximo domingo. Para fazer o PT pagar por seus crimes e erros, uma enorme parcela da população brasileira, incitada por Bolsonaro e sua guerrilha digital, parece disposta a abrir mão de bem mais do que um castelo e uma pensão vitalícia. Duzentas e seis milhões de pessoas arcarão com as consequências nos próximos anos.

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Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

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