Companhia na Flip: Dia 2

Foto: Walter Craveiro/Flip

O segundo dia da Flip continuou a refletir a obra de Lima Barreto, autor homenageado da 15ª edição da festa literária. Abrindo os debates no Auditório da Matriz, a mesa "Arqueologia de um autor" falou sobre a importância da obra de Lima Barreto, o resgate de sua literatura, as pesquisas acadêmicas e também sobre o cânone literário brasileiro. Os pesquisadores Beatriz Resende, Edimilson de Almeida Pereira e Felipe Botelho Corrêa, com mediação de Luciana Araujo Marques, falaram, cada um, de sua relação com a obra do autor e com a literatura afro-brasileira. 

Felipe Botelho Corrêa descreveu sua pesquisa sobre os pseudônimos de Lima Barreto, concentrando-se em suas colaborações com a imprensa carioca em revistas satíricas e intelectuais. O professor do King’s College London reuniu 164 textos de Lima escritos sob pseudônimos no livro Sátiras e outras subversões, lançado pela Penguin-Companhia. Botelho Corrêa destacou a visão literária de Lima Barreto, que dizia que "a literatura tem que tratar de aspectos sociais, mas em termos de linguagem ela deve ser muito clara". "Ele tinha um projeto literário muito claro, de falar para o maior número de pessoas", contou o pesquisador. 

Beatriz Resende lembrou de sua relação acadêmica com Francisco de Assis Barbosa, que lançou a primeira biografia sobre Lima Barreto e também reuniu seus livros numa coleção de 17 volumes nos anos 1950 pela editora Brasiliense. Ela também comentou sua pesquisa sobre o autor, concentrada em suas crônicas, pois queria "tentar entender a cidade, o autor e a sociedade em que aquele homem da rua, dos cafés, das pequenas livrarias, vivia". Foi Beatriz que, em sua pesquisa, encontrou os registros de internação de Lima Barreto no Hospício por conta do alcoolismo, nos anos 2000, incluindo uma das poucas fotos que se tem do autor. 

Já Edimilson de Almeida Pereira falou sobre o cânone literário brasileiro, e o lugar dos autores negros na cultura literária. Para ele, a obra de Lima é importante para entender como era a vida de um homem excluído etnicamente. "O que seria no século XIX um corpo mulato, um corpo negro, no centro do Rio de Janeiro?", perguntou o pesquisador. Segundo Almeida Pereira, o cânone literário do Brasil se baseou em um modelo europeu, feito por brancos intelectuais de uma camada privilegiada da sociedade, deixando à margem a cultura popular dos negros, índios e mulheres. "É preciso criar um contra-cânone", disse ele, "para desmontar o que está estabelecido e propor um novo cânone que fale de um mundo silenciado e estereotipado pelo oficial". Um cânone que não seja restrito a uma parte da população. 

Foto: Walter Craveiro/Flip

Às 17h15, a autoficção foi o tema debatido na mesa "Fuks & Fux", com os escritores Julián Fuks e Jacques Fux. Apesar da semelhança dos nomes e de ambos serem autores premiados, a mesa, mediada por Ana Weiss, mostrou também as diferenças entre os dois autores. Julián Fuks começou falando sobre o romance A resistência, vencedor do Prêmio Jabuti do ano passado. O livro, segundo ele, é baseado na história do próprio irmão, adotado na Argentina durante a ditadura, e também na história do exílio de seus pais no Brasil. "É impossível não haver uma invasão da verdade na ficção", disse Fuks quando perguntado sobre a possibilidade de haver verdade em algo inventado. "Algo disso se tornou mais extremo, mais radical". Jacques Fux, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura com o livro Antiterapias, completou dizendo que "a ficção vem para complementar. Ela não é 'ficção = mentira'. Ela é uma verdade que você inventa". Sobre os problemas da autoficção e as possíveis ofensas e conflitos que ela pode causar, Fuks afirma que seu modo de expor sua vivência pessoal não é agressivo. "É um gesto de carinho e de aproximação ao outro", conclui. 

Foto: Walter Craveiro/Flip

Na mesa 5, "Odi et amo", a língua grega foi a protagonista do debate. Os tradutores Frederico Lourenço e Guilherme Gontijo Flores e o mediador Ánguel Gurría-Quintana discutiram sobre a tradução do idioma para a língua portuguesa. Frederico, que é português, traduziu do grego obras como Odisseia e Ilíada, e atualmente trabalha no projeto de tradução da Bíblia grega, cujo primeiro volume já foi lançado no Brasil. Sobre o projeto, o tradutor comenta que há muitas traduções da Bíblia em Portugal, mas que nenhuma até agora foi feita por alguém não religioso. "É uma tradução feita com todo o respeito pela tradição católica e protestante", contou o tradutor, mas que tenta ser isenta, imparcial e não teológica, e tenta se aproximar ao máximo do texto literal em grego. "No caso da fidelidade poética e da fidelidade verbal, eu prefiro a fidelidade verbal", revelou. Sobre a escolha da abordagem de sua tradução, Frederico contou que "não faz sentido os alunos estudarem o budismo, o islamismo, de uma forma isenta e crítica, e não fazer isso com o cristianismo." 

Guilherme Gontijo Flores falou sobre a tradução que fez dos poemas de Safo, poeta grega que nasceu em 630 a.C. Ele explica que a poesia de Safo era vivida pela comunidade grega como um evento oral. Os poemas não eram escritos, e sim cantados: "Era uma poesia para ser realizada na voz, com o canto, acompanhada de instrumentos", disse, e ainda complementou dizendo que a canção deveria ser valorizada como a poesia. Sobre o projeto, Gontijo detalhou como realizou a tradução, buscando melodias para o original em grego e transpondo a tradução em português para a mesma melodia. Os tradutores ainda comentaram que nenhuma tradução é definitiva, melhor ou pior que a outra, mas que são janelas para novas observações, novos pontos de vista. 

Foto: Walter Craveiro/Flip

Na última mesa da noite, "Em nome da mãe", Noemi Jaffe e Scholastique Mukasonga falaram sobre histórias de guerra e sobrevivência. As obras de ambas as autoras resgatam a memória trágica de suas famílias: Noemi, que acaba de lançar Não está mais aqui quem falou, é filha de uma sobrevivente de Auschwitz, enquanto Scholastique teve sua família morta durante o genocídio de Ruanda. A figura materna, para as duas autoras, é extremamente forte em seus livros. Scholastique, autora de A mulher de pés descalços, citou Primo Levi ao dizer que temos que testemunhar os horrores do mundo para evitar o esquecimento. A escrita, para a autora, foi a maneira que encontrou de salvar essa memória: "Meus pais não queriam que um povo desaparecesse sem que ficasse um vestígio dele".

"Eu sei que o caso da Scholastique e o meu são totalmente diferentes. Ela escreve a guerra, eu escrevo sobre a guerra", continou Noemi Jaffe. Ao falar sobre a mãe, ela contou que os horrores vividos no campo de concentração foram, de alguma forma, esquecidos por ela - como uma forma de continuar sobrevivendo. Mas para ela e seus irmãos, a lembrança é necessária. "Eu tenho culpa de não ter passado por aquilo. Acho que com filhos de vários sobreviventes isso existe", revelou a escritora, dizendo que ser filha de uma sobrevivente a faz desejar poder voltar no tempo, viver os horrores no lugar da mãe para poupá-la do sofrimento. "Eu, como escritora, preciso lembrar o que ela precisa esquecer." 

No Blog da Letrinhas, confira também o que aconteceu na Flipinha. 

 

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