Compro seu carro, mesmo alienado

Noemi Jaffe

 

O coração tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio, não para o silêncio astral.

Clarice Lispector foi acusada de alienação. Dizem que, como reação a essa etiqueta descabida, ela teria escrito A hora da estrela, explicitamente preocupado com aspectos sociais. 

E como ficaria o trecho acima, extraído de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres? Seria, nesse caso, um exemplo de alienação? Afinal, o que teriam a ver o Nada, o próprio coração e o pequeno silêncio com causas políticas?

Em primeiro lugar, a alienação não se relaciona somente à consciência sobre problemas coletivos de ordem social, política ou econômica. A alienação, como o nome - alien - diz, é uma dependência do outro. Alienado (como os carros que ainda não tiveram os débitos quitados) é aquele que não está de posse de algo ou de si mesmo; que se encontra em estado de heteronomia, ou, melhor dizendo, sem autonomia.

E em segundo lugar, a consciência política (e social e histórica e econômica e pública e etc.) não acontece somente pela via do discurso explícito ou mesmo subliminar. Falar sobre lavar a louça e ir ao supermercado, os buracos negros e um amor perdido, o liquidificador quebrado e a fórmula de pi, a queda do filho do vizinho, a novela das 8 e o rabo da minha cachorra, o último biscoito do pacote de cream crackers e o dente que dói, dependendo da forma como se fala, pode ser mais politizado e menos alienado do que falar sobre junho de 2013 ou sobre o golpe de 2016. 

Negar-se a usar a língua finalista que serve para comunicar, ou, em outras palavras, que se submete a um objetivo fora de si mesma, já é, por si mesmo, subversivo e, portanto, desalienado. E apresentar-me diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio uma taquicardia nas trevas é a linguagem e o eu se desnudando à frente do abismo, ousando dizer o que mensagens com conteúdo claro muitas vezes não sabem, mas acabam encobrindo. Quando grito "sou contra as injustiças, quero a volta da democracia, abaixo a ditadura", mascaro, talvez sem consciência, a entrega viva da minha voz e corpo ao desconhecido que nos engole. Entro numa espiral conhecida e já pisada de protestos idênticos, que, por sua repetição, me protegem.

Não adianta querer fazer literatura panfletando minhas opiniões sobre questões complexas do povo. O resultado pode ser não mais do que um manifesto passageiro ou, simplesmente, má literatura. O absurdo, o fantástico, o incompreensível, o psicológico, o subjetivo podem todos ser tão ou mais presentes, reais e agentes quanto o realista, o naturalista, o irônico e o crítico. A alienação e a desalienação não são processos fixos e absolutos, mas constantes. E é na linguagem com corpo e consistência, com experimentação e risco; é na palavra carregada de estranhamento que o leitor se desloca e se desaliena de seu lugar habitual. É ela que o desajusta e o faz perguntar, como em "O espelho", de Guimarães Rosa, "Você chegou a existir?"

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Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu "Não está mais aqui quem falou", "Írisz: as orquídeas" e "O que os cegos estão sonhando?", entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.

 

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