Confissões do impostor Felix Krull

Por Kelvin Falcão Klein

A história da literatura é generosa no que diz respeito ao gênero das “confissões”. Pense, por exemplo, no “romance de cavalaria” ou na “epopeia”, gêneros circunscritos e bem delimitados no tempo e no espaço. As confissões, no entanto, transbordam, atravessam épocas e aglutinam discursos que frequentemente parecem não ter relação (como os da “ciência” e da “consciência”, por exemplo). De Santo Agostinho (Confissões) a Karl Ove Knausgård (série Minha luta), a exposição de si parece sempre marcada pelo signo do excesso, da digressão, dando ao leitor a impressão de que a escrita poderia continuar indefinidamente.

No caso das Confissões do impostor Felix Krull, romance publicado por Thomas Mann em 1954, muito dessa situação reaparece. O material que temos hoje corresponde a apenas metade daquilo que Mann projetou para o romance, ou seja, três partes de um total de seis. Essa autobiografia fictícia de Felix Krull surge nas anotações do autor em 1905, começando a ser escrita somente em 1910. As Confissões foram ganhando corpo, mas Mann sempre deixava o manuscrito de lado para se dedicar a outros livros – foi só no fim da década de 1940, depois da publicação de Doutor Fausto, que ele se dedicou a finalizar a primeira parte das Confissões. A morte de Mann, em 1955, interrompeu o projeto.

Felix Krull se apresenta como narrador da própria história. Desde o início das Confissões a ambiguidade da primeira pessoa será fundamental para a oscilação de sentimentos e juízos ao longo de toda a narrativa. Além disso, a narração em primeira pessoa exercitada aqui por Mann dá a medida também da dubiedade do personagem, um criminoso, que se identifica em várias definições – vadio, gigolô, fraudador, ladrão, impostor – e, ao mesmo tempo, se acredita superior e até mesmo predestinado.

Thomas Mann também faz um uso ambíguo do romance de formação, o Bildunsgroman, modelo de narrativa que busca dar conta do amadurecimento do herói (cujo exemplo máximo é o Wilhelm Meister de Goethe). A formação de Krull, contudo, frustra esse clímax heroico, justamente pelo teor moralmente repreensível de suas atividades. É possível ainda aprofundar esse permanente contato de Mann com Goethe: além do romance de formação – e do uso que faz do Fausto de Goethe em seu próprio romance Doutor Fausto –, as Confissões de Felix Krull são desenvolvidas em um estilo que parodia a grandiloquência das memórias de Goethe, Poesia e verdade (também este um projeto de amplas proporções).

Nas Confissões, portanto, Thomas Mann se equilibra na linha tênue que separa a homenagem da paródia, uma posição desconfortável que é incorporada pela própria trajetória de Felix Krull. O narrador é psicologicamente complexo, atraído por aquilo que despreza e sempre motivado por uma vaga percepção de superioridade. É ele quem declara, durante o breve período que trabalha em um hotel de Frankfurt: “Sentia-me encarcerado em meu nicho de ascensorista e no poço pelo qual fazia a cabine subir e descer, sem que me fosse dado lançar um olhar, ou mais que um breve olhar ocasional, às deliciosas cenas de sociedade do salão durante o chá das cinco, quando uma música abafada o inundava, recitadores e dançarinas em trajes gregos ofereciam entretenimento àquele belo mundo que se refestelava em cadeiras de vime diante de suas mesas bem-arrumadas”.

Nessa passagem, Mann dá toques humorísticos à desgastada metáfora da “ascensão social”: Krull sobe na vida de elevador e só pode observar a riqueza de fora e por “um breve olhar ocasional”. Mas esse é um ponto intermediário e muito breve na progressão do narrador. Felix Krull opera nas fissuras do mundo burguês e, nesse sentido, é um personagem “freudiano”, alguém que reconhece a arbitrariedade das aparências e joga com elas, entre o legítimo e o escândalo (sabemos que Thomas Mann era um admirador de Sigmund Freud, com quem trocou correspondência). O que faz dele, Felix Krull, um “impostor” – e um personagem tão atípico em Thomas Mann e, ainda assim, condizente com sua produção madura – é seu enorme talento para pular etapas, sua capacidade de conseguir o que quer de forma ilícita, mas sempre criativa.       

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Kelvin Falcão Klein é crítico literário, professor de literatura na UNIRIO e autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011). Escreve no blog Um Túnel no Fim da Luz.

 

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