Contra São Paulo

Por Carlos Augusto Calil

No dia 9 de setembro, completam-se 40 anos da morte de Paulo Emílio Sales Gomes, um dos maiores críticos brasileiros. Autor de inúmeros ensaios sobre cinema e fundador da Cinemateca Brasileira, Sales Gomes também deixou para os leitores uma ficção: Três mulheres de três PPPês, lançada em 1977. Neste texto, publicado originalmente na edição do livro lançada pela Cosac Naify, o organizador de sua obra, Carlos Augutso Calil, fala sobre este clássico da nossa literatura. 

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Paulo Emílio distribuiu o seu livrinho de ficção aos amigos surpresos em abril de 1977. Ele o teria escrito por volta de 1973. Segundo uma versão insistente, mas não confirmada, fora estimulado pelo anúncio de um concurso de contos do Paraná, que prometia bom prêmio.[i] Como precisasse de uns cobres, aceitou o pretexto para livrar-se por um tempo da disciplina ensaística, que o esgotara na demorada elaboração de sua tese de doutorado, dedicada aos anos de formação de Humberto Mauro.[ii]

Com Lygia Fagundes Telles, sua mulher, dividia o modesto apartamento da rua Sabará ou o quarto abafado do hotel Jerubiaçaba, em Águas de São Pedro, estação de tratamento do interior de São Paulo, onde o casal passava as férias. Ele escrevia à mão e ela, na máquina, dedilhava os seus romances. Lygia evoca, em “Um retrato”, o prazer de Paulo Emílio em dar asas à fantasia:

“– Por que não me avisou que escrever ficção é essa coisa maravilhosa?”.

“– Agora só quero inventar histórias”.[iii]

O tom de farsa, com forte impostação derrisória, parece de encomenda para impressionar um júri literário na terra de Dalton Trevisan.

O autor não tinha clareza do feito que praticara. Inseguro, recolhia sinais de confirmação de sua vocação de ficcionista tardio entre admiradores e alunos. O reconhecimento da crítica mal começara quando Paulo Emílio foi fulminado por um ataque cardíaco, em setembro de 1977, seis meses depois do livro vir à luz.

Invenção que se nutre de elementos retirados do cotidiano próximo, Três mulheres de três PPPês procura passar a impressão de divertimento. Por trás dos jogos, das inversões, das peripécias, das reviravoltas do entrecho, oculta-se um profundo mal-estar com a convivência inevitável da burguesia paulista, da qual o autor tinha indisfarçável horror. De ascendência baiana, pernambucana, gaúcha e inglesa, como na música de Chico Buarque, Paulo Emílio enchia o peito, com ostensiva agressividade, para proclamar que não tinha uma gota sequer de sangue paulista.[iv]

Há nos contos inúmeras manifestações desse sentimento. O marido de Ermengarda confessa conformado às horas tantas: “Em suma, meus sonhos juvenis de suprema elegância, poder e cultura, tinham se reduzido a um nível bem paulista”. O mesmo personagem, certamente um quatrocentão, se sente “inspirado pelas comemorações da Revolução de 32”, e escreve “um elogio à mulher paulista”, que intitulou “Louvor à dama paulista”. Adentra por iniciativa própria no mausoléu onde avultam “o tribuno Ibrahim Nobre e o poeta Guilherme de Almeida”.

O doutor Cincinato, dentista e amante de Ermengarda, “vindo do nada de seu Sergipe natal”, venceu na Paulicéia “graças ao trabalho, com a fibra de um paulista”. O marido de Ermengarda substitui seus “entusiasmos integralistas da juventude” por “sentimentos puramente paulistas, menos espetaculares, mas sólidos”.

Na sociologia política de Paulo Emílio, burguês é sinônimo de paulista.

A amena paisagem familiar, recomposta arbitrariamente com a pena implacável da memória crítica, retém um piano Bechstein, o preferido de Liszt, que Lygia herdara da mãe, um caderno da Casa Rosenhain, os anões do jardim central de Águas de São Pedro. Nessa operação, o autor revela-se consciente da mediocridade de efeito dos símbolos que manipula. Afronta, com melancólica ironia, o desgosto de sua própria vida burguesa, que apesar de seus esforços – morou em Paris, tentou Brasília e Salvador – transcorre em São Paulo.

Sem disfarçar uma improvável misoginia, a obra de Paulo Emílio refaz, em imagem refletida, e em sentido oposto, a saga de As meninas, o romance até então mais bem sucedido de Lygia Fagundes Telles, a ele dedicado. Suas três mulheres são anti-heroínas superiormente dotadas que submetem os parvos PPPês aos seus caprichos e os subjugam, por força de sua progressiva – e assumida – traição.

Paulo Emílio não teve filho biológico. Adotou como herdeiro o filho de Lygia, Goffredo da Silva Telles Neto, a quem o livro é dedicado, mas não curou a ferida da esterilidade. Engendrou um filho imaginário, concebido com Helena numa artimanha literária, que por tão antinatural falece sem ter provado existência.

Nos fracassos sucessivos de seus personagens, o autor molda um ambiente de estagnação moral e impotência social, em que o conservadorismo político é ornamento que confere normalidade a um quadro devastador de valores anacrônicos. Na chave libertina, herdeira do século XVIII, como bem lembraram Antonio Candido e Roberto Schwarz,[v] Paulo Emílio só se engana ao sugerir que essa burguesia é ridícula porque são obsoletos os seus expedientes conjugais e patrimoniais. Estes serão em breve atualizados, mas permanecerão intactas sua atrofia intelectual e a dependência cultural. Nesse quadro não surpreende que Polydoro, autor do “Louvor à dama paulista, padeça de retenção intelectual. Nunca dá por terminado o texto, em progressiva elaboração.

Outro recurso transposto da escrita de ensaio para a ficção é o do biografismo, direto ou invertido.[vi] Polydoro detesta a apócope Poly, com que é perseguido por sua mulher por se tratar de “nome de gato imposto justamente a mim que os detestava”. O personagem “completara o ginásio no Liceu Nacional Rio Branco (da rua Vila Nova) e aprendera Instrução Moral e Cívica com o Professor Lourenço Filho, à antiga maneira”. Como se sabe, Paulo Emílio adorava gatos e cursara o Rio Branco.

Entre os convidados de Ermengarda que frequentavam a piscina da casa encontram-se “Alf”, que “era apenas o Alfredinho e Dec, o Pradinho, cujo prenome não sabia que era Décio”. Uma das fontes de Águas de São Pedro chama-se “Almeida Salles”. Alusões a Alfredo Mesquita, o patrono de Clima, a Décio de Almeida Prado, o amigo desde a infância, e Francisco Luiz de Almeida Salles, o companheiro de crítica cinematográfica, com quem Paulo Emílio fundara a Cinemateca Brasileira. Antonio Candido é referido como um professor de teoria literária, entendido em vinhos. A brincadeira com os amigos atenua – e acentua – a auto-ironia.

Nessa chave, Paulo Emílio dialoga com um dos mestres de sua juventude, Oswald de Andrade, cuja literatura, na verdade, ele valoriza menos que a personalidade generosa e desconcertante. Num artigo de 1935,[vii] nosso autor já apontara em Oswald um gosto excessivo pelo escândalo, que o afastava da literatura que se propunha a servir à revolução e à classe operária.

A melhor literatura de Oswald, também de extração antiburguesa, é muito distinta da de Paulo Emílio. Em Serafim Ponte Grande (1933), a escrita é entrecortada, construída de sucessivos anacolutos, de leitura críptica. Paulo Emílio aprecia, e pratica, a fluência narrativa. O primeiro corteja a dicção moderna, pela manipulação do fragmentário. O estilo dos três PPPês resvala deliberadamente no anacronismo, em correspondência com os personagens narradores. Em Oswald, predomina o vivido, a experiência pessoal. Em Paulo Emílio, a fantasia. Por fim, no livro de Oswald vencem os machos; no de Paulo Emílio, eles são vítimas de ardis femininos.

A ironia é também o trunfo de Zulmira Ribeiro Tavares, quando fustiga a burguesia paulista. Em O nome do bispo (1985), o estratagema é reconstituir meticulosamente o universo classe média a partir do personagem de Heládio, que ostenta o nome do bispo tio-avô. Exposta ao olhar externo, a arquitetura das aparências, urdida com aplicada dissimulação, erode progressivamente até a queda estrepitosa.

Em Jóias de família (1990), Zulmira apresenta o processo de conversão de uma perfeita representante da mulher classe média, Maria Bráulia, casada com um respeitável juiz. Polydoro de saia, ela tem, no entanto, os pés no chão. Manipulada pelo marido, supera o casamento branco e encontra consolo na oficina do joalheiro amigo, que lhe ensina o valor insubstituível de um legítimo pingente.

Apesar das diferenças de tonalidade, Oswald, Paulo Emílio e Zulmira constituem uma linhagem literária. Os laços que os unem são humor, ironia e derrisão.

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Carlos Augusto Calil é professor da ECA-USP, tendo dirigido instituições culturais. Publicou, como organizador, obras de Paulo Emílio Salles Gomes, Alexandre Eulalio e Vinicius de Moraes, entre outros.

 

[i] Cf. a biografia escrita por José Inacio de Melo Souza: Paulo Emílio no Paraíso. Rio de Janeiro, Record, 2002, pp.556, 600 (nota 10).

[ii] Tese publicada com o título de Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte. São Paulo, Perspectiva, 1974, 478 p.

[iii] Durante aquele estranho chá, “Um retrato”. RJ, Rocco, 2002, p. 150.

[iv] Segundo depoimento de Antonio Candido.

[v] Antonio Candido escreveu a propósito deste livro: “[...] três contos longos que tratam de relações amorosas complicadas, com uma rara liberdade de escrita e concepção. No entanto, a sua modernidade serena e corrosiva se exprime numa prosa quase clássica. Translúcida e irônica, com certa libertinagem de tom que faz pensar em ficcionistas franceses do século XVIII”. Do autor, “A nova narrativa”, in A educação pela noite. Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 5a. ed., 2006, p. 260. Para o texto de Roberto Schwarz, v. a seção Fortuna crítica deste volume.

[vi] V. “Biografismo em Paulo Emílio (simplicidade e ardil)” de Zulmira Ribeiro Tavares in: Paulo Emílio um intelectual na linha de frente, SP; RJ, Brasiliense; Embrafilme, 1986, p. 343.

[vii] “O Moleque Ricardo e a Aliança Nacional Libertadora”, reproduzido em: Paulo Emílio um intelectual na linha de frente. SP, Brasiliense ; Embrafilme, 1986, pp. 35-37.

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