Corpo estranho bem-vindo

Marília Garcia

Foto: Fernando Lemos

 

Num balanço de fim de ano, 2018 foi um ano especial no campo da publicação de poesia estrangeira. Tivemos traduções de poetas inéditos em livro no Brasil (Bernadette Mayer, Nicanor Parra, Alejandra Pizarnik, Adrienne Rich), de autores já conhecidos com textos inéditos ou retraduções (Maiakóvski, T.S. Eliot), além dos portugueses que também entram na comunidade poética como corpo estranho bem-vindo (Sophia de Mello Breyner Andresen, Adília Lopes, Manuel António Pina).

Ezra Pound dizia que “uma grande época literária é sempre uma grande época de traduções, ou vem depois dela”. Ele queria dizer com isso que a entrada de novas vozes poéticas em uma literatura pode ressoar na produção daquela época e produzir desdobramentos. Na poesia brasileira, houve vários momentos em que poemas traduzidos provocaram abalos em nossa corrente elétrica poética.

Gosto do caso de Blaise Cendrars, que não chegou a ter um livro traduzido pelos modernistas (não que eu saiba!), mas deixou marcas poéticas de sua passagem por aqui nos anos 1920. Manuel Bandeira atribui a Cendrars o uso da linguagem coloquial e Mário de Andrade não poupa elogios à escrita do franco-suíço. A poesia de Oswald está repleta de traços em comum com a dele, não só o uso do coloquial, mas a justaposição, a síntese, o corte. Alguns versos de Cendrars poderiam ser uma espécie de arte poética modernista:

“as janelas da minha poesia estão abertas sobre os bulevares”.

Mas, se por um lado, existe esta influência da poesia traduzida, por outro também ocorre sempre uma espécie de “transformação” do poeta traduzido ao chegar em outra língua. Um tradutor pode aproximar o poeta de sua própria dicção, por exemplo, ou traduzir somente parte de uma obra, aquela que julga mais interessante ou que esteja mais afim com a sua estética. A recepção do autor traduzido será determinada pelos poemas que passam a representá-lo em outra língua.

Me ocorre o livro Canções da forca, do alemão Christian Morgenstern, traduzido por Sebastião Uchoa Leite em parceria com Montez Magno. A poesia de Morgenstern parece ter impregnado a obra de Sebastião com um tipo de humor e nonsense. Ou será que o poeta Sebastião terá escolhido traduzir Morgestern por se identificar com elementos de sua escrita? De todo modo, o Morgenstern a que temos acesso se aproxima da obra de Sebastião e o próprio tradutor anota, no prefácio, que o alemão tem um lado mais místico que não foi privilegiado na coletânea. Copio um poema curioso dele, em que o personagem só existe para dar conta da rima:

 

Palmström, ao lado de um certo Sr. Korf
Viaja para a aldeia boêmia de Dorf.

Tudo lá lhe é incompreensível, de tal sorte
Que nada entende da fala da coorte.

Mesmo o sr. Korf (que só o acompanha
Por causa da rima) a tudo estranha.

Mas justo isso o faz feliz da vida.
Muito encantado ele retorna em seguida.

E anota em sua semanal crônica:
“Outra grande aventura ôntica.”

 

E, a seguir, o famoso auto-epitáfio de Sebastião:

 

aqui jaz
para o seu deleite
sebastião
uchoa
leite

 

Salta aos olhos uma proximidade dos dois no tom, no tipo de humor e no uso de recursos como uma rima cheia de personalidade. Tanto que a morte, neste auto-epitáfio, parece acontecer apenas por causa dela, a rima. Deleitando a nós, leitores.

***

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

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