"Cresci achando que ler e escrever eram coisas normais da vida cotidiana"

Foto: Adriano Franco

Na semana passada, foram anunciados em Havana, Cuba, os ganhadores da 57ª edição do prêmio literário Casa de las Américas. A escritora Maria Valéria Rezende foi a vencedora na categoria literatura brasileira com o romance Outros cantos, lançado em janeiro de 2016 pela Alfaguara. Segundo os jurados, o romance "reflete sobre a substituição de valores éticos e humanos por uma sociedade consumista que sufoca manifestações populares e tradicionais".

O prêmio veio sacramentar o reconhecimento da obra da escritora paulista radicada na Paraíba, que estreou aos 60 anos na literatura com o livro de contos interligados Vasto mundo, em que narra a trajetória do povo da vila fictícia de Farinhada, um lugarejo remoto nos confins do Brasil. O livro ganhou uma reedição pela Alfaguara em 2015, completamente revisada pela autora e acrescida por seis novos trechos.

Em 2015, seu romance Quarenta dias foi eleito o melhor de 2015 pelo júri do Jabuti. Na ocasião, a autora “veterana” surpreendeu ao desbancar nomes consagrados da literatura nacional e chamou a atenção da imprensa, curiosa por desvendar a obra de uma escritora que nunca se rendeu a modismos e sempre esteve fora do centro cultural do país.

Maria Valéria nasceu em Santos no ano de 1942, onde permaneceu até os 18 anos. Aos 23, ingressou na Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho. Era 1965, o ano seguinte ao golpe militar no Brasil, fato político determinante para o amadurecimento humano da escritora. Ela se dedicou com afinco à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, já na década de 70, no Nordeste. Viveu no meio rural de Pernambuco e da Paraíba e, desde 1986, se fixou em João Pessoa, onde mora até hoje. Andarilha por natureza, morou em Angola, Cuba, França, China e Timor, entre outros países, envolvida em projetos sociais voltados para a educação.

Preparamos uma breve entrevista com Maria Valéria Rezende para blog da Companhia das Letras. Confira.

Você iniciou a carreira como ficcionista em 2001, já com quase 60 anos, e em 2015 recebeu o prêmio Jabuti na categoria romance. A distância geográfica do eixo Rio-São Paulo dificultou o reconhecimento de sua obra literária? E por que decidiu investir na carreira literária já na maturidade?

É claro que para o escritor que vive fora e longe do "eixo", e são muitos e excelentes, não é nada fácil a publicação de suas obras por editoras com capacidade de distribuição em âmbito nacional. Certamente é fácil verificar isso pelos catálogos das grandes editoras e a localização de seus autores, além da tendência dos que querem ser escritores reconhecidos migrarem para os grandes centros do Sudeste. Dos que permanecem espalhados pelo país, muitos só são conhecidos em suas regiões, através de edições locais de pequenas tiragens. Isso é uma imensa pena para a literatura brasileira e para a constituição de nossa autoimagem como povo, que a literatura deveria favorecer. Eu, porém, nunca senti falta de reconhecimento, pois meus livros têm seus leitores, de todas as idades, são indicados como leitura nos vestibulares e cursos de Letras pelo país afora, enfim, outras formas de reconhecimento que não têm repercussão na imprensa, mas a mim me satisfaziam, ainda mais que eu nunca "decidi investir na carreira literária". Meu primeiro livro, Vasto mundo,  aconteceu meio por acaso, e fui pegando gosto por escrever mais um, mais um...

Na minha família todo o mundo lia muito. Havia escritores nas minhas duas famílias, materna e paterna. Minha tia, Maria José Aranha de Rezende, era poeta, com vários livros publicados, e cronista do jornal A Tribuna, de Santos, durante décadas. A casa da minha avó e a minha própria eram frequentadas por muitos poetas e escritores da cidade. Eu lia muito e gostava de escrever. Cresci achando que ler e escrever eram coisas normais da vida cotidiana como tomar café, almoçar e jantar, dormir e sonhar, que escrever livros era coisa comum que um dia devia acontecer na vida de todo mundo. Dizia-se na família que eu seria a escritora da próxima geração. Na adolescência, muitas vezes a gente busca caminho próprio e resiste ao que a família projeta. Encaminhei-me para a educação, especialmente a educação popular inspirada por Paulo Freire.

Ler me bastava, de modo que nunca pensei e nem mesmo tomei a decisão de me tornar escritora de ficção, senão quando já tinha meu primeiro livro publicado. Sempre escrevi muito para a educação popular, textos sobre história do Brasil, sociologia, economia e publiquei desde os anos 70. Mas ficção eu só escrevia pelo prazer de escrever, como lazer nos serões silenciosos do interior do Nordeste, ou como recurso para tentar entender melhor sentimentos e comportamentos dos outros. Escrevia para mim mesma e umas poucas pessoas próximas, ou para provocar, com uma história inventada, a reflexão dos grupos populares sobre sua própria história. Um desses textos, que dei a um amigo escritor, foi cair por acaso na mão de um editor e daí, depois de várias voltas, surgiu o Vasto mundo, meu primeiro livro de ficção. Então foi como se um bauzinho tivesse sido aberto na minha cabeça e novas histórias pediam para ser escritas, o que coincidiu com o fato de, pela idade que avançava, eu já não poder continuar com a mesma intensidade minha vida de educadora-andarilha.

Na semana passada, ao receber a notícia de que era a vencedora na categoria literatura brasileira do prêmio Casa de las Americas, você declarou que essa premiação tinha um valor especial. Por quê? Comente um pouco a sua relação com Cuba.

Tudo começou com o encontro entre educadores cubanos e latino-americanos (muitos de nós ligados à Igreja Católica e à Teologia da Libertação) na Nicarágua, entre 1979 e 1980, para a campanha de alfabetização imediatamente após o triunfo da revolução sandinista. Naquela ocasião, houve um encontro e um diálogo de Fidel Castro com nosso escritor Frei Betto, que culminou com a publicação do livro Fidel e a religião. Desde então, houve uma aproximação e um interesse entre os educadores e líderes cubanos para conhecer melhor o debate e propostas metodológicas de Educação Popular de inspiração freireana (Paulo Freire) e cristã que se desenvolvia em quase toda a América Latina e um interesse nosso para romper o bloqueio que nos escondia o que se passava na ilha.

Assim foi criado, no ano de 1985, um projeto, coordenado por uma equipe de quatro educadores de outros países das Américas com a equipe do Departamento de Relações Internacionais da Casa de las Américas, e aí nos reuníamos com frequência para mobilizar e organizar uma série de Encuentros Lationoamericanos y Caribeños de Educación Popular, a cada dois anos, em Cuba. Eu coordenava essa equipe organizadora, e assim passava todos os anos algum tempo em Cuba, ao longo de dez anos, "trabalhando" na Casa das Américas e me sentindo cada vez mais participante da Casa, conhecendo e fazendo amizade com todos os seus trabalhadores, e sentindo-me "em casa". Eu acho que assim me viam também os companheiros cubanos, e uma vez me fizeram um agrado que me tocou muito fundo: fui convidada para ir à assembleia sindical da Casa, onde se citavam os trabalhadores destacados do mês e, de repente, surpresa, citaram-me entre os trabalhadores destacados naquele momento! Naquela época, eu não tinha ideia de que um dia me poria a escrever romances, e muito menos a concorrer ao prêmio, mas voltava sempre com uma maleta de livros de escritores de Nuestra América, publicados pela Casa de las Américas, que eram uma preciosidade!

A temática social é recorrente em sua obra e aparece em livros como Outros cantos, Quarenta dias e Vasto mundo. A seu ver, é papel do escritor refletir sobre a realidade social ao seu redor? E sobre seu próximo romance, terá também esse eixo narrativo?

Creio que a literatura é sempre ou testemunho ou sintoma do mundo que nos cerca. O mundo que me cerca, desde jovem, na minha vida normal e cotidiana, e o que me interessa testemunhar é a vida invisível para os que se situam mais perto do alto da pirâmide social e têm o privilégio de ser leitores. Meu próximo livro, Carta à rainha louca, que já vai adiantado, de certa forma, faz isso também, embora num contexto e tempo bem diferentes do que os de meus romances anteriores.

 

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