DFW

Caetano Galindo

Foto de Marion Ettlinger

 

Quantos mais dez anos você vive, menos parecem durar os tais de dez anos.

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Hoje, 12 de setembro de 2018, completa-se uma década da morte de David Foster Wallace. Eu estava sentado nesta mesma cadeira, na frente desta mesma mesa, diante do computador, quando minha mulher me deu a notícia que tinha recebido de uma ex-aluna. Eu fiquei não pouco tempo sem saber o que fazer.

E de certa forma continuo.

 

Wallace era uma pessoa torturada, profundamente angustiada, e é claro que a reação mais direta à sua morte foi de lamento pelo sofrimento que o carregou. No entanto, ele soube como poucos (como talvez nenhum outro escritor) escarafunchar seu sofrimento, suas dúvidas, sua dor e suas incertezas até encontrar, como disse uma vez numa entrevista, a partezinha que ainda brilhava ali dentro, para poder trazê-la à superfície, para poder transformá-la em algo que pudesse dar a ver, dar a ler. Dar a nós.

E eu (e tantas outras pessoas) estava tão acostumado à sua presença, a essa voz que dizia coisas que ninguém tinha dito antes, de maneiras que ninguém tinha ousado dizer… estava tão acomodado num mundo de repente tornado mais claro pela presença de David Foster Wallace… um mundo mais claro e mais raro, mais divertido e precioso, mais duro e de-verdade. Estava tão acostumado à existência dele que não pude evitar o sentimento de abandono. A pergunta “e o que é que nós vamos fazer agora?”

 

David Foster Wallace não era santo. Era um homem com defeitos sérios.

David Foster Wallace não era um pregador moralizante, como às vezes se pensa. Era no entanto um homem com defeitos sérios que estava seriamente dedicado à ideia de tentar entender sua própria mesquinharia, e a nossa; de tentar entender como ser menos tolo, menos egoísta, mais generoso e mais feliz.

Longe de negar o lado feio da vida, ele no entanto queria encontrar beleza. Longe de acreditar em respostas simples para as grandes perguntas morais, ele no entanto sabia que elas eram grandes, e que eram perguntas: precisavam ser feitas.

 

E ele escreveu contos, ensaios, romances de uma inventividade praticamente sem igual. E desenvolveu técnicas, recursos e modelos novos para dar conta dessas necessidades estéticas novas (e sistematicamente abandonou cada um desses recursos quando eles ficaram marcados demais como “estilo” seu). E ele se empenhou em criar uma nova forma literária em momentos diferentes de sua vida, para poder tentar destilar a “verdade” que lhe parecia sempre fugir aos dedos da expressão.

Poucos escritores, depois de Joyce, se reinventaram tão profundamente. Quem compara seu primeiro livro de contos e seu último romance, por exemplo, encontra não “outro escritor”, mas uma versão muitíssimo mais elevada do mesmo autor.

 

David Foster Wallace deixou uma lacuna no mundo literário que, com sorte, levaremos décadas para preencher. Mas, mais do que isso, deixou um buraco na vida de tantos leitores que, no entanto, continuam com seus textos, continuam ouvindo sua voz, continuam tentando entender.

 

Ele morreu aos 46 anos. Eu faço 45 em menos de um mês.

(Quantos mais dez anos você vive, mais percebe o quanto ainda é pouco.)

 

De 2008 para cá, eu dei aulas sobre ele, dei entrevistas, dei cursos. Traduzi seu maior romance, Graça infinita, e traduzi a obra-prima que ele deixou incompleta, O Rei Pálido. Escrevi contos que devem não pouco ao estímulo da sua obra, reli sua obra, não parei de pensar sobre ela. Mesmo esta coluna, afinal, começou para cobrir a tradução de Graça infinita.

É inclusive por isso que a pasta em que eu guardo esses textos fica, no meu computador, dentro da pasta “wallace”.

 

Porque é de lá que eu venho falando.

 

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

 

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