De Alan Moore para os tradutores

Érico Assis

Foto: Pedro de Matos

Escritores não escrevem pensando em tradutores. Nem deviam. Já é trabalho suficiente para o bom autor encaixar uma palavra depois da outra e alcançar a melíflua mistura de milagres musicais na língua que domina. Nem o autor mais comercial deve pensar em como suas frases ficariam no mandarim – ou será que o Dan Brown escreve matutando como vai soar no mandarim dos 400 milhões de potenciais leitores chineses em idade adulta? Nem ele. Pois aí também teria que pensar nos leitores do Brasil, da Finlândia, do Japão e dos outros 40 idiomas. Os tradutores que se virem.

Mas, às vezes, até um autor angloparlante – o que é curioso, porque eles leem poucas traduções e consequentemente pensam pouco em tradução – lembra que seus livros, filmes ou quadrinhos são traduzidos e lidos por gente de idiomas dos quais eles não conhecem uma palavra sequer. E às vezes quem lembra disso é o Alan Moore.

Ou alguém lembra ele. No caso, o brasileiro Flavio Pessanha perguntou direto ao sexagenário – nas entrevistas anuais que o autor concede ao coletivo The Really Very Serious Alan Moore Scholars’ Group (O Grupo Sério-Seríssimo-Pra-Valer de Estudiosos de Alan Moore). Flavio queria saber o que Moore pensa das dificuldades que encara quem traduz uma coisa como Jerusalem, seu livro de 1266 páginas com um capítulo em verso, outro que evoca Samuel Beckett e um que reproduz a confusão mental de Lucia Joyce, no estilo do pai James em Finnegans Wake.

Moore coçou a barba quinquagenária e deixou uma notinha de alento a todos os tradutores:

Sempre fico impressionado/perplexo com a quantidade de trabalho que deve envolver traduzir o que faço, para o idioma que seja. No mínimo porque o uso que faço da língua inglesa costuma implicar em grandes doses de peculiaridades idiomáticas que possivelmente não sejam traduzíveis com perfeição. E não é infrequente que estas obras incluam experimentos linguísticos como “O Porco de Hog”, em Voz do Fogo, e “Round the Bend”, em Jerusalem. Como já disse, fico impressionado que alguém sequer tente traduzi-las e não é um encargo que eu inveje. Imagino que o que eu diria a qualquer tradutor é que, se você se empenhar a entender o que devem ter sido minhas intenções por trás de trechos difíceis e expressar estas intenções que percebe da maneira que lhe parecer mais potente e sonora, não há mais nada que seria razoável a um autor pedir a seu tradutor ou tradutora.

Quando escrevi o original, minha base foi a confiança que deposito em mim e nos meus processos, tal como deve fazer todo autor. Quando um tradutor reinventa este material em outra língua, torna-se, na prática, autor de uma nova obra e deveria igualmente depositar confiança em si e nos seus processos. Ao agir assim, está servindo à obra dentro de suas capacidades – o que resume tudo que me interessava no original – e também está tirando o novo texto de seu coração, a maneira pela qual se queria transmiti-lo no original.

Acrescento que talvez seja relevante à pessoa que for traduzir uma obra minha que ela divirta-se tanto quanto eu me diverti na composição original. Reconheço que traduzir meus trabalhos seja, por vezes, muito, muito complicado, mas espero que o processo tenha um mínimo de gratificação ou recompensa, e que nunca seja um dever desalentador. Fora isso, continue fazendo o que faz e saiba que você e seu empenho são profundamente estimados.

Tendo traduzido alguns textos curtos e menores do sr. Moore, já fico grato pela consideração. E queria muito que a mensagem chegasse aos tradutores envolvidos em “deveres desalentadores” do barbudo, como Octavio Aragão (Promethea), Hector Lima (Providence), Marília Toledo (Um Pequeno Assassinato), Ludmila Hashimoto (Voz do Fogo), Marquito Maia (Lost Girls), Fábio Fernandes (A Liga Extraordinária), Edu Tanaka (Monstro do Pântano), Jotapê Martins (Watchmen, Do Inferno) e à alma corajosa que encarar Jerusalem. Vejam só: ele sabe que a gente existe.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

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