De Saramago para Amado

Acervo da Fundação José Saramago.

A amizade entre Jorge Amado e José Saramago teve início quando os dois já tinham idade mais avançada e consolidada carreira literária, porém o vínculo tardio não impediu que os escritores formassem um laço forte, estendido as suas companheiras, Zélia Gattai e Pilar del Río.

Durante a Festa Literária Internacional de Paraty, uma casa irá homenagear a amizade destes dois mestres da literatura em língua portuguesa. Além de uma programação especial dedicada às suas obras, a Casa Amado e Saramago também abrigará o lançamento de Com o mar por meio. Este livro reúne a correspondência entre Jorge Amado e José Saramago - e os dois casais, muitas vezes -, entre os anos de 1992 e 1998. São cartas, bilhetes, cartões e faxes com uma rica troca de ideias sobre questões tanto da vida íntima como da conjuntura contemporânea, sobretudo a cena literária. Eles debatem com humor sobre prêmios e associações de escritores, com especulações divertidas sobre quem seria, por exemplo, o próximo a ser contemplado com o Nobel ou o Camões. Com um projeto gráfico especial, ilustrado com facsímiles das missivas e belíssimas fotos do acervo pessoal dos autores, Com o mar por meio aproxima ainda mais os leitores do universo particular dos dois amigos.

O lançamento de Com o mar por meio acontece na sexta-feira, 28 de julho, às 19h30, e contará com um bate-papo entre Luiz Schwarcz, Paloma Amado e Pilar del Río. 

Leia a seguir um trecho de Com o mar por meio.

* * * * *

Acervo Zélia Gattai - Fundação Casa de Jorge Amado.

8 de maio — José Saramago, Cadernos de Lanzarote

Jorge Amado escrevendo do Brasil: “Aqui o sufoco é grande, problemas imensos, atraso político inacreditável, a vida do povo dá pena, um horror”. Diz-me que até ao fim do mês estará na Bahia, que passará por Lisboa antes de seguir para Paris. Esta vida de Jorge e Zélia parece do mais fácil e ameno, uma temporada aqui, uma temporada ali, viagens pelo meio, em toda a parte amigos à espera, prémios, aplausos, admiradores — que mais podem esses dois desejar? Desejam um Brasil feliz e não o têm. Trabalharam, esperaram, confiaram durante toda a vida, mas o tempo deixou-os para trás, e, à medida que vai ele passando, é como se a própria pátria, aos poucos, se fosse perdendo, também ela, numa irrecuperável distância. Em Paris, em Roma, em Madrid, em Londres, no fim do mundo, Jorge Amado recordará o Brasil e, no seu coração, em vez daquela lenitiva mágoa dos ingénuos, que é a saudade, sentirá a dor terrível de perguntar-se: “Que posso eu fazer pela minha terra?” — e encontrar como resposta: “Nada”. Porque a pátria, Brasil, Portugal, qualquer, é só de alguns, nunca de todos, e os povos servem os donos dela crendo que a servem a ela. No longo e sempre acrescentado rol das alienações, esta é, provavelmente, a maior. 

 

Tias (Lanzarote), 18 de maio de 1993

Querido Jorge, querida Zélia,
a inquietação é muita, mas a esperança é maior.
Uma torre como essa não cai assim. Não tardará a
recuperação e o regresso da saúde, e se certamente
já não poderemos encontrar-mos em Lisboa,
no princípio de junho, pronto virão outras ocasiões.
Se o espírito serve para alguma coisa nestes casos,
asseguramos-te, querido Jorge, que o nosso está
a usar de toda a força para te ajudar, em união com
teus infinitos amigos e leitores.
Para ambos, Zélia, Jorge, todo o nosso carinho.
Seguiremos daqui o evoluir do acidente,
preocupados, mas confiantes.
Pilar, José

* * *

18 de maio — José Saramago, Cadernos de Lanzarote

Assim são as coisas. Ainda há dez dias eu aqui escrevia umas linhas acerca de Jorge Amado, e acabo de saber que teve um enfarte. Fiz o que estava ao meu alcance, mandei-lhe duas palavras de ânimo: “Uma torre dessas não cai assim”, disse — e espero que não caia mesmo. Morre-se sempre demasiado cedo, ainda que seja aos oitenta anos. Mas o Jorge escapará desta, tenho a certeza. Agora, com a convalescença e o obrigado repouso, não poderá fazer a viagem a Paris que tinha aprazada para o princípio de junho (encontrar-nos-íamos em Lisboa, na passagem). Se não puder ser antes, voltaremos a estar juntos em Roma, no prémio da União Latina.
[…]
19 de maio
[…]
Ainda sobre a carta de Jorge Amado. Penso que o mal dos povos, o mal de nós todos, é só aparecermos à luz do dia no carnaval, seja o propriamente dito, seja a revolução. Talvez a solução se encontrasse numa boa e irremovível palavra de ordem: povo que desceu à rua, da rua não sai mais. Porque a luta foi sempre entre duas paciências: a do povo e a do poder. A paciência do povo é infinita, e negativa por não ser mais do que isso, ao passo que a paciência do poder, sendo igualmente infinita, apresenta a “positividade” de saber esperar e preparar os regressos quando o poder, acidentalmente, foi derrotado. Veja-se, para não ir mais longe, o caso recente de Portugal.

 

Queridos Zélia e Jorge,

durante as duas semanas que estivemos
ultimamente em Lisboa, ninguém soube dar-nos
notícia da saúde de Jorge. Os jornais também nada
dizem, mas se for certo, neste caso, o que afirma
o ditado francês (“pas de nouvelles, bonnes
nouvelles
”), então a convalescença estará em boa
marcha. Porém, gostaríamos de uma palavra
vossa para ficarmos completamente descansados;
um simples tudo bem bastará.
Da Pilar, do José
Abraços fraternais, José Saramago

* * *

[Salvador,] [Junho de 1993]

De Zélia e Jorge Amado
Para Pilar e José Saramago

Queridos Pilar e José, estamos chegando em
casa, encontramos o fax que tanto me comoveu —
e os médicos proíbem-me as emoções. De todo o
coração, muito obrigado.
Ontem escrevi à Academia Universal das Culturas
dois pequenos textos de informação e opinião
sobre José Saramago e Ernesto Sabato, tendo em
vista a próxima reunião da Academia quando
as candidaturas — já aprovadas pela comissão —
devem ser votadas.
Beijos de Zélia, abraços meus — estou mais
do que comovido. Vosso, devoto,
Jorge

 

 

 

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