De trem, entre Moscou, São Petesburgo e aqui

Raquel Toledo

Cena da adaptação cinematográfica de Anna Kariênina (Joe Wright, 2012)

 

Anna é um dos nomes mais comuns na Rússia e no Brasil. Anna faz parte do título de um dos romances russos mais populares nos dois países. Kariênina já foi filme, peça, música e tema de pintura. Apesar do enredo aparentemente banal, nunca deixou de angariar leitores, que logo viraram fãs de Liév Tolstói. Um deles, o célebre Nabokov, afirmou: "Quando alguém lê Tolstói, lê simplesmente porque não pode parar".

No século XIX, quando o romance foi escrito, o tema da mulher adúltera era muito frequente na literatura: Flaubert, Eça, Dumas, Machado, para citar alguns. Pode-se ler essa presença na ficção como um reflexo da mudança do papel da mulher na sociedade, dos direitos que passavam a conquistar, de certa autonomia feminina que começava permear o cotidiano. Não obstante, a traição sempre fora tida como um ato de egoísmo e cabia à pena do autor (todos homens, neste caso), condenar ou não a adúltera. Mas, o egoísmo não precisa ser sempre algo ruim. Pode haver, na traição, uma decisão em nome do amor próprio, da independência intelectual, do direito ao próprio corpo, aos próprios desejos. A epígrafe que Tolstói escolheu para iniciar o romance já deixa ao leitor a dúvida do que virá pela frente, se libertação ou condenação: "De mim virá a vingança, mas também a recompensa", trecho do livro bíblico Deuteronômio.

Tolstói nos deu, ao publicar Anna Kariênina, uma das personagens femininas mais interessantes da literatura mundial. Anna era casada já há algum tempo com o conde Aleksei Kariênin, com quem tinha um filho e, juntos, moravam em São Petersburgo, capital imperial, imponente e fria. Anna vivia uma vida comum, pacata. Até que viaja de trem a Moscou para visitar o irmão. Vale apontar que são inúmeras as viagens entre as duas "capitais" da Rússia. As sociedades moscovita e petesburguesa são delineadas em suas semelhanças e diferenças e a viagem de trem entre as cidades é um dado importante da construção do romance. Tanto que é nessa viagem a Moscou que Anna conhece o conde Vronski, que, por sua vez, é impactado pela presença da dama, descrita com cores tão límpidas, tornando-a irresistivelmente encantadora.

A cena em que Anna chega vestida de preto ao baile de Kitty, em Moscou é uma das mais vívidas lembranças que tenho de minha primeira leitura do romance. A força sutil que há na presença, na personalidade de Anna são, sem dúvida, ponto altíssimo da literatura e parte central da comprovação do talento literário de Tolstói.

Mas tal força é também sua fraqueza. Anna é vista pela sociedade como uma esposa exemplar de um homem de destaque no cenário político da capital. E sua personalidade carrega-se de culpa. A chantagem a alcança. O distanciamento do filho. Seu fim já estava traçado e de acordo com o destino das demais personagens adúlteras criadas por penas masculinas à época. Mas, o que Tolstói consegue fazer com maestria é, ainda assim, continuar o enredo sem Anna. Há ainda capítulos e capítulos para que todos os personagens retratados caminhem ao seu desfecho.

À semelhança de Guerra e paz, este é um romance que honra o gênero. São muitos os núcleos familiares e não é difícil encontrar, fora do triângulo amoroso central, histórias e personalidades encantadoras. Rubens Figueiredo, tradutor e especialista em Tolstói, chama a atenção em seu prefácio ao fato de o protagonismo do romance ser não só de Anna, mas também de Liévin, um homem de posses que prefere, em oposição aos demais personagens, viver no campo, próximo da simplicidade dos mujiques. Qualquer semelhança com os próprios caminhos do autor não é mera coincidência. A verdade é que a sociedade mostrada por Tolstói é tão rica em pensamentos, ideias, dores e alegrias que, até hoje, é fácil perceber, ao pegar carona com os personagens no trem que transita entre Moscou e São Petersburgo, a natureza plural de quem somos todos nós.

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Raquel Toledo é paulistana, professora e editora. Trabalha também com formação de leitores adolescentes em escolas da capital paulista, afinal acredita que ler Tchekhov resolve 99% dos problemas da humanidade. Fascinada pela Rússia e, principalmente, sua literatura, tornou-se mestre em literatura russa pela Universidade de São Paulo. No ano da Copa na Rússia, escreve mensalmente para o Blog da Companhia sobre literatura russa. 

 

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