Delicadeza e Guerra Fria

Raquel Toledo

Foto: Archivio Feltrinelli

Doutor Jivago é um daqueles romances russos que habitam, no Ocidente, a imaginação até daqueles que nunca abriram o livro. Muito da fama se deve ao filme homônimo de David Lean, mas não só.

Quando terminou de escrevê-lo, em 1955, Boris Pasternak já era renomado na União Soviética por seu talento literário. Nascido numa família de artistas e intelectuais, consagrou-se poeta ainda antes da Revolução. Viu de perto o ensaio revolucionário de 1905 e entusiasmou-se com a sublevação bolchevique em 1917. Seus pais e irmãs, todavia, decidiram emigrar para a Alemanha quando perceberam os fortes ventos de mudança, ainda que não fossem pessoas engajadas no debate político. Mas o poeta se recusou a partir e escolheu a pátria, mesmo nesse momento nebuloso. Para infelicidade de sua família, que gostaria de se ver reunida no exterior, permanecer na URSS foi uma escolha definitiva para Pasternak.

Ora aceito como uma das vozes da nova sociedade, ora criticado por posições individualistas e burguesas, a relação do poeta com o partido comunista e, mais tarde, com Stálin, nunca foi simples. Porém, quando o clima político começou a dar indícios de liberdade após a morte (1953) e a denúncia dos crimes – feita por Khruchov no 20º Congresso do Partido Comunista (1956) – desse grande ditador, Pasternak acreditou que teria autorização para publicar o romance no qual trabalhara desde 1946. Mas se enganou. A imprensa literária recusou-se a mostrar o trabalho daquele artista de posições controversas.

No entanto, Doutor Jivago foi lido na União Soviética mesmo assim. Os leitores o adquiriram em samizdat, uma maneira já tradicional na Rússia de fazer circular o material que a censura proibia. Os manuscritos eram sempre copiados por aqueles que tinham o primeiro acesso a ele e as cópias passavam de mão em mão, multiplicando-se. Enquanto o samizdat com a história de Iuri e Lara era replicado e celebrado intimamente, Pasternak encontrou na Itália, mais precisamente com um comunista italiano editor de livros (e contou também, como hoje sabemos, com a ajuda da CIA – afinal, era Guerra Fria), uma forma de ver Jivago impresso.

Então o livro caiu nas graças dos países de fora da cortina de ferro. Porém, hoje, ao lermos o livro após todo o burburinho, não encontramos lá o que parecia tão evidente ao leitor ocidental dos anos 1950. Claro, há alguma crítica ao regime stalinista e aos rumos que o comunismo tomou, mas de forma pontual, quase velada, poética. A Pasternak, claramente, interessa mais a vida íntima, os atores por trás dos acontecimentos, as ações do cotidiano. É no dia a dia russo, desde 1903 – quando Iuri Jivago ainda é uma criança triste que olha para o túmulo da mãe – até o epílogo nos anos 1940, que estão as grandes mudanças, as turbulências, e a reinvenção íntimas de cada personagem diante da bruta realidade. E é aí que reside a beleza e a força poética de Pasternak. A vida de Iuri Jivago permeia as grandes mudanças que tocaram o povo russo da primeira metade do século: a Guerra Russo-Japonesa, a Primeira Grande Guerra, as revoltas e atentados terroristas contra os tsares, a ascensão de Lênin e a chegada de Stálin. Em cada momento, o personagem procura entender, posicionar-se, relacionar-se.

Apesar da delicadeza literária e das diversas nuances da realidade da época, o livro virou rapidamente um testemunho da brutalidade soviética na enviesada leitura ocidental. E a situação de Pasternak na União Soviética só piorou quando, em 1958, ele venceu o Prêmio Nobel de Literatura. O governo viu a premiação como uma afronta e logo forçou o autor a um dilema que ele já tinha vivido: ficar em sua pátria (o que significava recusar o prêmio) ou emigrar (e aceitar os louros da academia sueca). No entanto, anos antes Pasternak já havia tomado sua decisão final: decidiu viver debaixo de humilhações e xingamentos em sua pátria até a morte, em 1960, vítima de um câncer.

A recusa do Nobel talvez seja um dos maiores episódios da fama que antecede até mesmo a leitura do romance. É compreensível, porém injusto. Boris Pasternak é um poeta de robustez artística marcante e um romancista habilidoso, sedutor. A força criativa, o testemunho histórico delicado e envolvente, os personagens coloridos e carismáticos de Doutor Jivago têm lugar certo na estante e no coração de qualquer leitor que ame uma boa narrativa.

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Raquel Toledo é paulistana, professora e editora. Trabalha também com formação de leitores adolescentes em escolas da capital paulista, afinal acredita que ler Tchekhov resolve 99% dos problemas da humanidade. Fascinada pela Rússia e, principalmente, sua literatura, tornou-se mestre em literatura russa pela Universidade de São Paulo. No ano da Copa na Rússia, escreve mensalmente para o Blog da Companhia sobre literatura russa. 

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