Despedida num dirigível silencioso

Marília Garcia

 

Em julho de 2009, tomei um trem para o sul da França e fui dar neste lugar da foto: Mérilheu, uma vila de 200 habitantes. Ou melhor, uma estrada de terra com casinhas espaçadas no meio do verde dando para os Pirineus. Nunca tinha visto a cara dos Pirineus. Esta foto foi tirada na casa do poeta Emmanuel Hocquard, que vivia ali com a esposa, Juliette Valéry. A casa tinha uma horta, vacas, gatos, cachorros, joaninhas, um poço e uma fotocopiadora no meio da sala, que era usada para a confecção dos livros artesanais que os dois faziam (de poesia americana, por exemplo, da qual Hocquard foi grande divulgador na França).

Ao chegar nesta casa, Hocquard me ofereceu um copo d’água com hortelã (estávamos no verão) e me perguntou o que eu queria saber. Respondi que não sabia por onde começar. Ele disse, “talvez pelo meio”.

O “meio” está muito presente na sua obra, seja nas diversas figuras que podem representá-lo (estreito de Gibraltar, o vidro, a sebe), seja na generosa exposição do processo de escrita que ele busca fazer, ou nas muitas ramificações de seu trabalho, que assumiu formas bastantes diferentes (poemas longos, narrativas, cartas, jogos com texto e imagem, etc.). A possibilidade de começar pelo “meio” me abriu caminho para outras maneiras de entrar nesta obra, pois percebi que não precisava achar um começo ou um eixo pra ler, o importante era me deixar levar pelos poemas-livros, pelas reflexões, ensaios, índices ou notas de vários tipos.

No último dia 27, Emmanuel Hocquard morreu, aos 78 anos.

Fiquei pensando que poderia tentar dizer como foi importante pra mim o encontro com a obra dele. Que poderia começar com uma minibiografia, contando que ele nasceu em 1940, em Cannes, e que foi ainda criança morar em Tânger, onde passou infância e adolescência, e que esta cidade constituirá uma referência importante em seus livros. Depois, morou em Paris, nos anos 60 fundou uma pequena editora, a Orange Export Lda., organizou leituras, ministrou muitas oficinas, escreveu três dezenas de livros (pelo menos metade disso saiu pela P.O.L.)

Fiquei pensando que este seria o momento para um texto de homenagem em tom elegíaco, forma poética melancólica apropriada para falar das perdas.

Mas, no caso dele, a poesia sempre foi tratada com uma pitada generosíssima de humor, e o lamento poético, com seu peso associado à tradição, nunca encontrou espaço. Por meio de um trabalho vigoroso em cima da linguagem e da língua, ele inventou modos de refazer e renovar as formas, seguindo outros caminhos. O tom que buscava para escrever os poemas, disse certa vez, era sem ênfase poética, seco como uma torrada sem manteiga. A própria elegia nas suas mãos ganhou contornos particulares com o livro Elegias e com outro, em formato de verbetes, em que analisa o gênero: Esta história é minha, pequeno dicionário autobiográfico da elegia. A elegia clássica, diz, busca os restos do passado para lamentar a perda. Já a elegia que ele chama de “inversa”, busca refazer este passado com a linguagem para poder ver nele alguma outra coisa, inédita, projetada para frente.

Deixo aqui o começo de uma de suas elegias, falando sobre o passado mais remoto projetado para frente num silencioso dirigível:

 

Não sei         quando nem onde       (nasci)
                     num 11 de abril

                     um dirigível silencioso
                     vigiava

                     os submarinos
                                                        como uma estrela

 

***

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

 

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