Diários do isolamento #1: Jessé Andarilho

 

Os “Diários do isolamento” são parte do projeto Leia Em Casa — que está oferecendo uma série de conteúdos especiais para quem vai permanecer em casa nos próximos dias — e pretendem fazer um registro coletivo de uma experiência nova, inesperada, cheia de incertezas e que ainda não sabemos quanto tempo durará.

A ideia é tentar diminuir a distância entre as pessoas, aproximando vozes distintas, de áreas, opiniões e idades variadas, como uma conversa em que os relatos se complementam. A cada dia um autor diferente traz para o leitor um texto sobre a vivência deste momento difícil em que a união é fundamental para mantermos a saúde física e mental. Jessé Andarilho abre a série dos Diários, que conta com a participação de Elvira Lobato, Fábio Moon, Jarid Arraes, Eliana Souza Silva, Alejandro Chacoff e Luisa Geisler.

E nunca é demais lembrar: em tempos assim, a leitura e a informação são essenciais — e o livro segue sendo a melhor companhia.

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JESSÉ ANDARILHO*

Diários do isolamento

Dia 1

Mês de março. Muita chuva no Rio de Janeiro. As favelas de Antares e Rollas alagaram e alguns moradores perderam tudo. Minha rotina ficou agitada porque, além de ajudar as ações da Associação de Moradores de Antares com a campanha para arrecadar e distribuir donativos, ainda estava montando a Biblioteca Marginow na favela. Sem apoio financeiro, contando com doações de livros, precisei dividir meu tempo entre essas duas atividades, fora minhas palestras em escolas e meus textos.

De um dia pro outro, as coisas começaram a ficar estranhas. O Jornal Nacional noticiou a chegada do vírus aqui na nossa terra. A pulga ficou atrás da orelha, mas a minha rotina não mudou muito. Ganhei uma banca de jornal cheia de livros e fui buscar lá no Leme. Depois de um dia cansativo e de ter comido uma quentinha que comprei de uma senhora numa esquina daquele bairro, eu passei muito mal da barriga e fiquei dois dias sem sair de casa. Foi aí que comecei a assistir aos jornais o dia todo e perceber o avanço do Corona no Brasil.

Eu trabalho com público, faço muitas palestras e bate-papos com jovens pelo país todo. O ano pra mim tinha acabado de começar, tudo estava fluindo, planejei minha vida e vários convites já estavam na agenda. No dia 12 de março, fui falar na Casa Ser Cidadão, uma ONG que trabalha com jovens em Santa Cruz. No dia 13, fiz uma palestra na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ e recebi algumas mensagens de pessoas que diziam para eu me cuidar pois a coisa era séria e eu não deveria me arriscar tanto. Até que veio a ligação de uma escola dizendo que iriam adiar a conversa por conta das prevenções contra o avanço do vírus no Brasil.

Foi aí que a ficha caiu. O governo começou a mandar fechar as escolas, os shoppings, as grandes lojas e todos os lugares que concentravam muita gente. O papo era para não haver aglomeração para não acontecer a proliferação do Corona.

Cheguei em casa meio neurótico. Tomei um banho, saí do banheiro, troquei de roupa e a primeira coisa que fiz foi voltar ao banheiro e lavar as mãos. Toda hora lavando a mão e passando álcool em gel.

Sentei no sofá e toda notícia que passava era sobre como evitar a transmissão ou infecção do Corona. Só que as medidas que deveriam ser tomadas não faziam muito sentido para a maioria dos meus amigos e conhecidos.

 

  1. Lavar as mãos com muita água e sabão a todo tempo: Nas favelas não têm essa água toda. Nem todo mundo tem dinheiro pra comprar sabão o suficiente para lavar as mãos toda hora. Sabão parece barato, mas ele é comprado junto com todas as outras coisas que, para quem ganha pouco, parece ser mais essencial.
  2. Passar álcool em gel ou álcool 70º nas mãos: o gel sumiu e quando aparece é muito caro e inviável para quem mal tem grana pra comprar o sabão. O álcool líquido 70º você tenta, mas não acha em lugar nenhum, pois quem tem uma condição um pouco melhor chegou antes e comprou o suficiente para duzentos anos de confinamento.
  3. Isolamento/quarentena: Se as pessoas da favela ficarem em casa, a Zona Sul para, a cidade para, o mundo para. É na favela que mora o cozinheiro do restaurante italiano, japonês, grego ou qualquer outro. É por aqui que os porteiros, motoristas e seguranças de vocês moram. E se a favela parar, vocês não vão conseguir sobreviver ao isolamento/quarentena.
  4. Evitar aglomeração: Todas as citações acima nos levam à aglomeração.

 

Fiquei revoltado, postei no Facebook, reclamei pra caramba com tudo e com todos. Como pode ter medidas feitas somente para prevenir e cuidar das pessoas ricas? Sacanagem! O ministro da saúde falando que se a gente sentir algum sintoma é para procurar nosso médico. Que médico? Ele acha mesmo que todos os brasileiros podem dizer que tem um médico seu? Pirei. O presidente teve toda a equipe dele infectada, menos ele. Ainda disse que tudo isso não passava de uma histeria e que era só uma gripezinha. Bolei!

No outro dia fui para Antares para planejar ações com a intenção de ajudar as pessoas na quarentena. Assim que cheguei na favela, parecia um daqueles feriados prolongados. As ruas cheias de crianças brincando, os bares lotados e todo mundo nas ruas.

Tentei falar com as pessoas, mas ouvi cada coisa que até deu uma desanimada. “Se álcool em gel na mão mata o tal corona, imagina o líquido dentro do nosso corpo? É muito melhor!”. “Se a gente sobreviveu à água da Cedae, aos tiros do Witzel nas favelas, às faltas de médicos do Crivella, não vai ser um viruzinho lá da China que vai pegar a gente.”

Fui embora chocado. Enquanto passava pelas ruas da cidade, reparei que tinham muitos idosos caminhando pelas ruas, nos ônibus, no trânsito e a pé.

Quarentena pra quem?

Pra quê?

Escrevo isso trancado em casa com meus filhos. O mais velho tem problemas respiratórios e a cada espirro que ele dá, é uma preocupação a mais. Meu sogro tem um problema muito grave no pulmão e a gente fica o tempo inteiro cuidando de tudo e tentando controlar o ambiente para passarmos por esses dias sem danos e perdas.

Que Deus nos proteja e que a gente possa sobreviver a tudo isso com força para reconquistar o que perdemos — e o que ainda vamos perder — para esse vírus.

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Jessé Andarilho nasceu em 1981 e foi criado na favela de Antares, no Rio de Janeiro. Filho de vendedores ambulantes, trabalhou com diversas atividades na sua comunidade, até ler seu primeiro livro, aos 24 anos. Foi quando, no trajeto de aproximadamente três horas que fazia de trem de sua casa até o trabalho, passou a usar o bloco de notas do celular para contar histórias. Dessas anotações surgiu o romance Fiel, publicado pela Objetiva em 2014. Em 2015, foi convidado para integrar o grupo de redatores da novela Malhação, da TV Globo. Foi diretor de reportagem do programa Aglomerado, da TV Brasil, e produtor da Cufa – Central Única das Favelas. Fundou o C.R.I.A., Centro Revolucionário de Inovação e Arte, e o Marginow, com a proposta de dar visibilidade aos artistas da periferia. Em 2019, publicou, pela Alfaguara, seu segundo romance, Efetivo variável. Atualmente, Jessé Andarilho realiza palestras em todo o Brasil, contando um pouco da sua história e mostrando como sua vida foi transformada pela literatura.