Drauzio e as prisioneiras

Por Vanessa Ferrari

Foto: Rodrigo Marcondes

Pendenga de amor se resolve com procedimento, faz um riscado no chão, despacha a inimiga e vai ter um particular com a mulher, sem passar gel na cabeça ou mascarar o impropério. Depois, se a coisa desandar, cabe ao doutor Drauzio estancar o sangue da briga amorosa. Um curativo para acalmar os ânimos e ele segue para outros diagnósticos, crise de pânico, depressão, ginecologias, acne, pressão arterial, obesidade. O médico se acostumou, mas talvez não muito, às insubordinações das mulheres presas, que relativizam as regras e não se curvam plenamente à hierarquia. Diferente do Carandiru, onde era “inimaginável” um líder de pavilhão “ser obrigado a desarmar desafeto a sapatada”, na feminina de Santana a emoção está pareada com a razão.

Com pena curta (cadeia de poeta) ou a perder de vista (patrimônio público), a solidão vem com a sentença. Sem família, vigílias em dias de visita ou promessas de amor futuro, elas sabem que a caixa de ferramentas do mundo não é desenhada para a anatomia feminina, então trabalham, economizam, sustentam o filho que ficou com a avó. É uma resignação de quem engole o sumiço do marido, a família que rompe, a distância dos filhos. E por instinto de proteção amenizam os crimes, pois que graça dar mais munição ao inimigo?

No Natal, elas enfeitam os pavilhões com papel crepom, bolinhas coloridas e cartazes de Boas Festas. As comidinhas trazidas pelas visitas, panetones, carnes, macarronada, biscoitos, maionese de batata, põem a vida no trilho da normalidade. E choram ao ver os filhos. Durante o ano, enquanto a vida passa na rotina, elas namoram, amam, se apaixonam. Muitas fazem o debut gay na cadeia. Há quem entenda a escolha como carência ou necessidade financeira. Drauzio duvida. Eu também. Se não há estigma, a condição é perfeita para as mulheres realizarem os seus desejos. “Paradoxalmente, talvez a cadeia seja o único ambiente em que a mulher conta com essa liberdade”. Paradoxalmente, a cadeia também é o lugar propício para formar leitores, porque ali só vale opinião sincera. Não gostou de Kafka? Pode. Empacou na leitura? É justo. O narrador é meio empolado? É mesmo, “que homem chato, meu Deus”. E assim a turma vai de vento em popa, ganhando gosto pela coisa sem acusações de deformidade intelectual.

Aqui fora, no amor, no sexo e nas letras a vida é dura. Há que se manter certas opiniões pra si sob o risco de retaliações irreversíveis. Quem não corre com Machado, tipo brother, não merece viver. E é de bom tom frear a volúpia. Quer ser feliz, vai, mas não sem antes pagar a conta, que é alta, dessas que sobram quando a mesa é grande, todos já foram embora e cabe a você passar o cartão de débito. 

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PRISIONEIRAS
Sinopse: 
O trabalho de Drauzio Varella como médico voluntário em penitenciárias começou em 1989, na extinta Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru. Os anos de clínica e as histórias dos presos, dos funcionários e da própria cadeia seriam retratados nos aclamados livros Estação Carandiru (1999) e Carcereiros (2012). Em 2017, Drauzio encerra sua trilogia literária sobre o sistema carcerário brasileiro com Prisioneiras. Alçando as mulheres encarceradas a protagonistas, o médico rememora os últimos onze anos de atendimento na Penitenciária Feminina da Capital, que abriga mais de duas mil detentas. São histórias de mulheres que não raro entram para o crime por conta de seus parceiros - inclusive tentando levar drogas aos companheiros nas penitenciárias masculinas em dias de visita -, mas que são esquecidas quando estão atrás das grades. Desde a dinâmica dos atendimentos e a escassez de visitas até os relacionamentos entre as presas, fica nítido que a realidade das prisões escapa ao imaginário de quem vive fora delas. Prisioneiras é um relato franco, sem julgamentos morais, que não perde o senso crítico em relação às mazelas da sociedade brasileira.

Prisioneiras já está nas livrarias. 

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Vanessa Ferrari foi editora da Companhia das Letras de 2010 a 2015 e é uma das coordenadoras do projeto Penguin-Companhia de clubes de leitura e remição de pena em doze unidades no estado de São Paulo. 

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