É pau, é pedra, é o fim do caminho -- ou romances e contos nem sempre acabam quando terminam

Luiz Schwarcz

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Se os editores sabem, por vezes, dizer se um livro é bom por sua abertura, é interessante também mencionar que um dos grandes desafios de um profissional da área é avaliar se um texto termina bem. Ressalto que a dificuldade é maior na ficção do que nos ensaios, devido ao grau de subjetividade que cerca as obras literárias. É mais fácil saber se uma obra de não ficção cobriu todos os aspectos do assunto central de um livro. Num romance ou coletânea de contos, essa avaliação é sempre um pouco mais nebulosa.

Sabemos que um romance pode começar sem grande impacto e crescer ao longo de suas páginas, mas o mesmo não deve ocorrer com o seu final. E é curioso como essa é a grande dificuldade de muitos escritores, principalmente os menos experientes, que por vezes procuram se livrar do livro antes do tempo.

A tarefa de escrever um romance é exaustiva. Exige do escritor uma convivência profunda consigo mesmo, com seus fantasmas, traumas e recalques. Eles com certeza aparecerão na tela ou na página branca. Todo esse esforço mental de criação, somado à angústia de ver muitas vezes o tempo passar sem nada de produtivo ocorrer, dão à escrita um componente psicológico extenuante. Assim, o desgaste de um dia de trabalho aparentemente vazio pode não parecer, mas é enorme. É bastante comum sentirmos que um dia produtivo de trabalho resulta em menos cansaço do que o contrário. Além disso, principalmente as civilizações ocidentais têm dificuldade de lidar com longos momentos de solidão, e é basicamente deles de que é feito o dia a dia do escritor.

A grande maioria dos autores atesta que depois das horas diárias tentando se transportar para a pele de seus personagens -- vivendo tantas outras vidas nas quais certamente as deles próprios se projetam —, sentem-se exauridos, como se tivessem exercido um trabalho descomunal.

Cada escritor tem seu método. Alguns batem nas teclas ou rabiscam, deixando em primeira instância o fluxo de consciência livre. Já outros querem ver, mesmo no rascunho, apenas o texto limpo. Esse é o caso de Chico Buarque. Como ele, esse tipo de escritor passa horas até conseguir escrever uma linha sequer, mas ao vê-la projetada na página branca em sua frente sabe que ela já está próxima da versão final. E dessa maneira exaurem-se, até por guardar, por tanto tempo, frases e mais frases incompletas dentro de si. Lembremo-nos da sensação de um pensamento ou angústia que nos persegue por dias a fio e entenderemos o sentimento que assola esse tipo de autor.

Para os escritores que, ao contrário, deixam jorrar o fluxo de pensamento na tela, o cansaço pode parecer até menos sensível, uma vez que as páginas cheias denotam o fim de um dia aparentemente produtivo. Mas, no momento de revisar o texto, o desgaste acaba crescendo em progressão geométrica.

Se não me engano, foi Hemingway quem disse que “escrever é cortar e cortar”, sendo ele um exemplo típico dos que escreviam livremente, para depois buscar a expressão perfeita. Para os que gostam mais dos seus contos do que dos romances, aí pode estar a explicação. O “Papa”, como era chamado, apreciava e sabia cortar, o que, como veremos, é um dom absolutamente fundamental para um bom contista.

De qualquer forma, há no movimento literário, como em toda a arte, a busca de uma expressão perfeita, com a peculiaridade de que a maturação do trabalho do escritor é muito lenta. Como já vimos em outros posts, o livro começa muitas vezes bem antes do escritor iniciar propriamente sua escrita. Saramago passava meses planejando um livro sem pôr no papel uma só linha. Dá para imaginar o que sofrem as companheiras ou companheiros dos escritores nesses momentos em que a vida exterior deve ser tão menos absorvente do que o romance que se encontra em gestação.

Contribui para essa sensação de esgotamento o fato de a intuição contar muito pouco para um escritor. Se ela não for sucedida por um enorme tempo de desenvolvimento e por um mergulho profundo na alma humana, o retrato que resulta dos personagens será ralo. Uma frase próxima da perfeição não se encontra de cara, na primeira tentativa. Se isso não ocorre nem mesmo no caso de um relatório técnico, o que dizer na esfera afetiva de nossa vida? Se na vida real a mesma coisa pode ser dita de tantas formas, imaginemos o quanto a dificuldade aumenta se formos dar voz a um personagem criado do zero, um ser que não tem instintos próprios ou reações espontâneas, que depende da nossa psique para pensar e agir?

Por isso, a maior parte dos jovens escritores e editores já ouviu de seu primeiro publisher o chavão (aliás absolutamente correto) que diz que a escrita é feita de 95% de transpiração e de apenas 5% inspiração. Caio Graco me disse isso inúmeras vezes. Eu repito até hoje.

Se entendermos a natureza do tempo e do empenho necessários para a escrita de um romance, ficará mais fácil compreender a tendência a se livrar dele antes da hora. Um editor tarimbado consegue pressentir quando isso vai acontecer, antes mesmo de terminar o texto. Particularmente, depois de anos e anos de leitura, acho que consigo sentir o cansaço do escritor antes do ponto final. Perdi certamente a conta das vezes que sugeri mudanças nas últimas páginas de livros de ficção. O escritor deixa sinais de esgotamento pelo caminho, antes do fecho completo da obra, com passagens menos acabadas, que tendem a desembocar num final precipitado, como se ele tivesse chegado a um ponto em que seja difícil conviver tão obcecadamente com suas criaturas, alter egos, fantasmas ou projeções.

Durante o processo de escrita, é natural que os personagens tomem um espaço cada vez maior na vida do autor. É aí então que o amor pelos personagens transforma-se inúmeras vezes em ódio. Apesar de ser natural e necessário que personagens ganhem tamanha importância na vida de um ficcionista, a tendência é que este sinta que devota às suas criaturas um amor não correspondido.

Assim, são mais raros os casos de romances que passam do ponto, do que aqueles que acabam antes do momento em que deveriam se encerrar.

É nessa questão, a da forma e do tempo certo de acabar uma ficção, que se encontra, na minha opinião, a grande diferença entre os contos e os romances. Os primeiros precisam acabar antes do esperado; um bom conto dificilmente sobrevive se a sua história chegar ao fim. Quando isso ocorre, é possível que ele vire uma fábula e perca parte da sua força.

As generalizações em literatura são perigosas, mas na maioria dos casos o grande conto é o que termina inconcluso, que oferece quase que plenamente o final ao leitor. Nesse sentido, se toda ficção abre uma parceria entre o autor e o leitor, nos contos essa parceria se realiza com plenitude no que não foi dito. O contista entrega menos, tem a brevidade como desafio. Não consegue ter o leitor como parceiro tão completo, até por falta de espaço. Mas no final, sim, o escritor resolve abrir a porta e convida seu parceiro(a) a terminar a história consigo, ou a deixa aberta para sempre, sendo a dúvida a principal herança que entrega ao leitor.

Alguns escritores, como Rubem Fonseca, consideram que escrever contos é muito mais difícil do que dedicar-se a narrativas de longa extensão. Não sei se concordo. Cada gênero oferece dificuldades próprias. O conto exige um esforço supremo de condensação e procura a perfeição na falta. O romance almeja algum tipo de abrangência ou carrega a plenitude como parte de sua ambição. Dessa maneira, o editor de contos talvez acabe se ocupando mais dos textos que acabam depois do que deviam. O editor de romance, ao contrário, esbarra mais com casos em que o escritor tenta se livrar logo do texto, com o qual, como vimos, não conseguem mais conviver.

Nos romances o leitor se depara com aberturas a cada página, são como pequenas janelas abertas em todo o transcorrer da obra, em vez de uma grande porta final, como nos contos, com o infinito ainda a percorrer. No romance o infinito é oferecido ao leitor inúmeras vezes durante o percurso.

Dizemos que um romance não está redondo ou bem amarrado quando queremos mostrar, principalmente, que ele acabou cedo demais, mas também que o escritor não ofereceu algum tipo de completude para o leitor. Com isso não quero afirmar, de forma alguma, que muitos grandes romances não tenham sido bem-sucedidos terminando em aberto, ou que o escritor não deve deixar aberturas no final. Nos romances com tantas janelas abertas pelo caminho, o leitor tende a se irritar, com razão, se o final denotar pressa. Afinal, o romance foi confeccionado com prazo largo, assim como foi alongado o tempo de convivência entre autor e leitor que a narrativa propiciou.

Da mesma maneira como me referi no meu post anterior à abertura de Anna Kariênina -- que poderia ser invertida e permanecer válida mesmo assim —, tudo o que eu disse a respeito de contos e romances talvez não faça sentido para o leitor deste blog, que pode preferir os romances inacabados e contos perfeitamente redondos, de aspecto mais fabular. Entenda, leitor, que essas são apenas impressões que recolhi ao longo da vida, e que deixo aqui, sem um grande final.

 

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Durante o mês de julho, a coluna Livre-Editar estará de férias. Luiz Schwarcz volta a publicar seus textos sobre o ofício do editor em agosto.

 

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.